Marcinho Pitbull relembra passagem pelo Flamengo.

28
Foto: Reprodução/Facebook

GLOBO
ESPORTE
: Irreverente até no nome, Marcinho Pitbull guarda uma porção de
histórias na bagagem. A maioria delas, contadas com muito bom humor e doses de
nostalgia. O volante, atualmente na Portuguesa-RJ, inclusive, faz questão de
não esconder a saudade do período em que surgiu na base do Flamengo e fez parte
do grupo que faturou a Copa do Brasil pelo time principal em 2006. E narra a
aventura vivida em Omã, país localizado na costa sudeste da Península Arábica,
onde atualmente é uma “persona non grata”, por conta de uma confusão
de trânsito que se envolveu em 2014 e teve que chegar às vias, de fato,
conforme o próprio revela em um bate-papo sobre a carreira com o
GloboEsporte.com.

– Um
cara me cortou na pista só que muito devagar, e eu fui buzinando desde longe.
Ele não tirou o carro e eu tive que parar para ele sair. Eu abaixei o vidro e,
como eu já sabia falar um pouco de inglês, perguntei se ele estava louco. Ele
saiu do carro transtornado. O cara viu que eu era baixinho e já foi colando a
testa na minha, me xingando em tudo que é língua possível. Eu estava com a
minha ex-mulher e os meus dois filhos. Pensei: “Esse cara vai me apagar
aqui”. E lá eu não conhecia ninguém, se acontecesse alguma coisa comigo,
eu não sei o que seria deles. Foi antes ele do que eu. Me xingou três vezes e
eu acertei ele. Ai começou a briga na rua, e trocamos socos – relembra o
jogador que, por lá, atuou pelo Al-Shabab Seeb e pelo Al-Musannah.
Nascido
em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Marcinho Pitubull, de 30
anos, começou a carreira nas categorias de base do Flamengo na mesma geração
que revelou nomes como Renato Augusto, Egídio, Paulo Victor e Vinicius Pacheco,
por exemplo. Chegou a receber oportunidades no time principal e, em 2006, fez
parte do grupo rubro-negro que faturou a Copa do Brasil daquele ano sobre o
rival Vasco. Apesar de ter recebido algumas chances, conviveu com erros, se
equivocou nas escolhas e rodou: Macaé, Social, Botafogo-DF, Figueirense, Duque
de Caxias, America-RJ, Crac-GO, Villa Nova-MG, além do futebol da Macedônia.

Passei 12 anos no Flamengo. A gente acha que vai estar ali para sempre. A
mentalidade é que o Flamengo é mais um clube. Por sermos criados ali, a camisa
não pesa, estamos acostumados, mas ficamos vislumbrados. Eu pensava
“caraca, tenho que conseguir algo melhor quando sair daqui”. Não
tínhamos essa dimensão do que era o clube – garante o jogador.
Longe
das aventuras de outrora e atualmente na Portuguesa, da Ilha do Governador, que
disputa a Série D do Brasileiro, Marcinho Pitbull já tem planos para o dia em
que decidir pendurar as chuteiras. Tem feito curso atrás de curso para ser
técnico de futebol. Recentemente, participou de uma palestra que é voltada para
a discussão do futebol sob a perspectiva de quem trabalha com o esporte, e
sonha com a vida na beira do campo.

Estavam todos os treinadores que trabalhei e joguei contra. Eu fui o único
jogador presente. Gostei muito, foi um aprendizado muito bacana. O Jorginho
(atual técnico do Bahia) foi o palestrante e foi muito interessante. Abriu a
minha mente. Aprendi com quem está no meio – declarou Marcinho Pitbull em
entrevista que você confere abaixo na íntegra.
Subida aos profissionais
– Na
minha época, eu peguei a geração do Renato Augusto, Paulo Victor, Vinícius
Pacheco, Wiilian Amendoim, Egídio… O Renato Augusto já subiu no primeiro ano
dele de juniores. Ele sempre gostou de treinar e detesta perder. É um cara de
grupo. O moleque é bom, todo mundo gosta dele.
Título e erros no Flamengo
– Eu
subi no final da Copa do Brasil, já estava acabando a competição, mas cheguei a
jogar com o Ney Franco pelo Campeonato Brasileiro. Passei 12 anos no Flamengo.
A gente acha que vai estar ali para sempre. A mentalidade é que o Flamengo é
mais um clube. Por sermos criados ali, a camisa não pesa, estamos acostumados,
mas ficamos vislumbrados. Eu pensava “caraca, tenho que conseguir algo
melhor quando sair daqui”. Não tínhamos essa dimensão do que era o clube.
Saída do Rubro-Negro

Queria que tivesse sido diferente. Recebi algumas opções para sair por
empréstimo, já que eu não estava jogando tanto. Eu era novo, com 20 anos,
flamenguista doente. Não queria sair por empréstimo. O certo seria dar uma
rodada, mas eu não queria isso. O meu empresário da época tinha me aconselhado
a sair, ele conhecia os bastidores do clube. Mas eu não dei importância. Hoje
em dia, não adianta só ter vontade, uma série de fatores que te fazem
permanecer ou não em um clube. Não funciona da forma como eu imaginava. O meu
mal foi esse. Por ter uma família flamenguista, queria ficar e mostrar o meu
valor. Mas o meu contrato acabou e eu fiquei desempregado.
Escolhas erradas
– Eu
me arrependo do que fiz quando era novo. Toda ação tem uma reação. Ao sair do
Flamengo, a minha carreira foi prejudicada. Tomei atitudes que achava que eram
certas. Eu queria bater de frente. Hoje, se tivesse que fazer diferente, eu
faria. Sempre falo isso para a garotada. Temos que buscar fazer as escolhas
certas.
Experiência em outras equipes do Brasil
– Como
eu tinha passado muito tempo no Flamengo e jogado no profissional, achei que
receberia boas propostas. Mas a verdade é que eu rodei por algumas equipes de
menor expressão. Foi nessa época que rescindi com o meu antigo empresário e
passei a trabalhar sozinho. Vivi um bom momento no Figueirense e conseguimos o
acesso para a Série A. Era um timaço! Tinha o Maicon, que joga no São Paulo, o
Willian Bigode, o goleiro Wilson…o time era ótimo em 2010.
Torcida pelo Rubro-Negro
– Hoje
em dia, não acompanho tanto. A gente torce para o time que trabalha. Agora, sou
Portuguesa. Meu sonho era jogar no Flamengo e, de certa forma, eu realizei
isso. Já joguei em um Maracanã lotado. Gostaria de ter tido mais oportunidades,
mas não aconteceu. Meu filho é flamenguista, quero muito que ele continue sendo
quando crescer. Sinto um carinho grande pelo clube, mas já não sou tão torcedor
assim. Acompanho mais as Séries B e C. É a minha realidade. Preciso acompanhar
o mercado para aproveitar melhor as oportunidades.
Ida ao mundo árabe
– Na
verdade, eu gostei do mundo árabe. Eu tive que me readaptar como jogador. Lá,
todo mundo marca, todo mundo corre. E como não sou muito técnico, tive uma
evolução muito boa. Mas no começo, foi doideira para se adaptar. Os primeiros
seis meses foram muitos difíceis. Depois, quando troquei de clube, estava com
tanta moral que virei até capitão. Levei minha família, estava como camisa 10,
liderando o time. Tudo estava dando certo. Eu já estava adaptado ao país, mesmo
com as dificuldades de alimentação, a religião diferente… Todo dia de manhã
eu ia para a praia com a minha família. Era praticamente uma praia particular,
o pessoal de lá não gosta de praia. Era tão perto de casa que eu nem levava
passaporte.
Briga em Omã
– Um
cara me cortou na pista só que muito devagar, e eu fui buzinando desde longe.
Ele não tirou o carro e eu tive que parar para ele sair. Eu abaixei o vidro e,
como eu já sabia falar um pouco de inglês, perguntei se ele estava louco. Ele
saiu do carro transtornado. O cara viu que eu era baixinho e já foi colando a
testa na minha, me xingando em tudo que é língua possível. Eu estava com a
minha ex-mulher e os meus dois filhos. Pensei: “Esse cara vai me apagar
aqui”. E lá eu não conhecia ninguém, se acontecesse alguma coisa comigo,
eu não sei o que seria deles. Foi antes ele do que eu. Me xingou três vezes e
eu acertei ele. Ai começou a briga na rua, e trocamos socos.
Chegada à delegacia

Chegou a polícia e eu disse que jogava no clube, mas estava sem os documentos.
Fomos para a delegacia e eles só riam, mas eu sabia que ia dar problema. A
primeira coisa que eles perguntaram foi qual era a minha religião. Eu disse que
era cristão e eles já deram aquela risada de canto. Acabou o campeonato e, no
dia da minha viagem, eu estava com o passaporte retido, não podia sair do país.
Eu tinha que esperar a audiência. Fiquei mais um mês no país com as malas na
sala, sem saber quando iria sair. Se o cara não retirasse a queixa ou entrasse
em acordo com o clube, eu pegaria seis meses de prisão.
Persona non grata em Omã
– No
dia da audiência, o cara disse que ia retirar a queixa e que queria que eu
soubesse que, se ele não tirasse, eu ficaria preso. Causei um transtorno para o
meu clube. Acho que eles gastaram um dinheirão no processo e eu acabei fechando
essa porta. Mas isso acontece. Tinha tudo para dar certo no país. Nessa
confusão, ou era ele ou era eu. Na época, eu achei que não fosse dar nada.
Aqui, no Brasil, estamos acostumados. Lá, não é bem assim. Mas foi uma
experiência bacana nesses dois anos e meio.
Curiosidades do país asiático
– A
cultura lá é bem diferente. Aqui nós vamos à praia e vemos pessoas passeando
com cachorro. Lá, eles levam touro para passear na praia. Dão banho de mar no
touro e tudo. Cheguei para almoçar na casa dos caras e vi que os homens não se
misturavam com as mulheres, era cada um para um canto. Na época, estava em meio
a um período festivo, o Ramadã. Perguntaram se eu estava com fome e me levaram
para o quintal. Do nada, me deram uma pá e começamos a cavar. Eu comecei a
cavar pensando: “O que eu estou fazendo aqui?”. Não sabia, né? Daqui
a pouco a gente acha um papel daqueles de comida, do tipo que coloca no forno.
Puxamos e saiu um carneiro debaixo da terra. O cara disse que estava há três
dias no sol. Me deu um nojo do caramba de comer aquilo, mas até que era
gostoso. Ah, e o homem de lá pode casar até com quatro mulheres.
    Perguntaram se eu estava com fome e me
levaram para o quintal. Do nada, me deram uma pá e começamos a cavar. Daqui a
pouco a gente acha um papel daqueles de comida, do tipo que coloca no forno.
Puxamos e saiu um carneiro debaixo da terra. O cara disse que estava há três
dias no sol.
Marcinho Pitbull “alienígina”

Tinha umas situações esquisitas em Omã. Como eu sou todo tatuado, as pessoas me
olhavam como se eu fosse um alienígina. Certa vez, fui ao mercado e um cara
veio me perguntar se as minhas tatuagens eram de verdade. Eu disse que sim e
ele começou a tocar nelas. Achei estranho, mas fiquei na minha. Depois ele
apareceu com um sabão e ficou tentando lavar as minhas tatuagens para ver se
saíam (risos). Quando eu andava com o meu filho nas ruas, as pessoas colocavam
dinheiro no bolso dele. Até hoje eu não entendo isso. Mas já que davam
dinheiro, eu comprava bala para o garoto (risos). Mas Omã é um ótimo lugar para
se viver, é realmente muito tranquilo. Você pode sair e deixar o carro ligado
que ninguém vai mexer.
Estudos e sonho em se tornar treinador

Estou fazendo faculdade de educação física e pretendo me especializar como
treinador. Já comecei a ir em palestras e quero tirar a Licença B da CBF. Tem
tudo a ver comigo. Gosto de táticas e de trabalhar com pessoas. Pretendo
finalizar a minha carreira com uns 35 anos e entrar firme nessa proposta.
Participei da Footlink 2017 e estavam todos os treinadores que trabalhei e
joguei contra. Eu fui o único jogador presente. Gostei muito, foi um
aprendizado muito bacana. O Jorginho (atual técnico do Bahia) foi o palestrante
e foi muito interessante. Abriu a minha mente. Aprendi com quem está no meio.

COMENTÁRIOS:

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here