“Minha maior burrada foi ter saído do Flamengo”, diz Walter Minhoca.

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Foto: Globoesporte.com

GLOBO
ESPORTE
: Ter o nome gritado pela torcida do Flamengo em um Maracanã lotado é o
sonho de muitos, mas é algo limitado a um número de jogadores. Eu estive lá e
larguei”. A reflexão de Walter Minhoca nos dias de hoje reflete bem as
novas noções de tempo e espaço que o mineiro de Betim, Região Metropolitana de
Belo Horizonte, tem sobre tudo que viveu na carreira de futebol. Aposentado há
aproximadamente dois anos e trabalhando há cerca de um como dirigente, um dos
integrantes de um período rubro-negro que ficou conhecido como “república
do pão de queijo”, no ano de 2006, atualmente dá maiores proporções as
emoções vividas com a camisa vermelha e preta.

Foram
precisos aproximadamente 11 anos desde o último toque na bola pelo clube
carioca para que o meia revelado pelo Cruzeiro, que ganhou projeção no
Ipatinga, campeão mineiro de 2005 e que por pouco não repetiu o feito na
temporada seguinte, chegasse a esta conclusão.
– A
minha maior burrada foi ter saído do Flamengo. Eu não tinha dimensão da
grandeza do clube na época, por incrível que pareça. Até hoje encontro pessoas,
grandes jogadores, que me falam: “você jogou no time que eu queria ter
jogado” – revela.
Apesar
da constatação, no entanto, Walter Minhoca garante ter pendurado as chuteiras
em paz e não carregar frustrações. Afinal, aos 35 anos, vive bem com a família
na cidade natal, com a satisfação de ter vivido o sonho de jogar futebol
profissionalmente e ter um dia vestido a 10 do Fla:
– Eu
parei tranquilo com tudo.
E foi
com esta garantia, que o meia, que também defendeu também times como o
Botafogo-SP, São Caetano, Avaí, América-MG e Marítimo-POR, entre outros, no
melhor “jeitinho mineiro”, conversou pela primeira vez com o
GloboEsporte.com sobre o fim da carreira. As memórias do ex-jogador e os planos
dele para o futuro podem ser conferidos na entrevista abaixo.
A decisão de parar após passar por
Trindade, Betinense e Atl. Muriaé
– Eu
parei tem dois anos. Meu último clube foi o Villa Nova de Minas. Eu quando tinha
uns 23, 24 anos, vinha com o projeto de parar com 33 anos. E aconteceu
justamente isso. Eu tomei essa decisão porque nos últimos três anos que joguei,
ou seja, nos últimos 36 meses que joguei, eu devo ter recebido no máximo oito
ou nove meses. Eu não recebia e acabei desanimando, perdendo o gosto de sair de
casa. Isso pesou. Eu tive uma conversa com minha esposa falando que achava que
iria parar. E ela disse que estava comigo. Era o que eu precisava, pois estava
sempre viajando e longe. Então, tomei a decisão e parei em paz, parei tranquilo
com tudo. Hoje vivo feliz aqui na minha cidade, com a minha escolinha e me
aprimorando como dirigente.
A vida de dirigente em Minas Gerais
– Ano
passado eu recebi um convite para atuar como diretor do Betinense. Montei um
grupo para eles. Conseguimos o acesso para o Módulo 2. Este ano, quase
conseguimos subir de novo. E há um ano também eu abri uma escolinha, a WM10,
com meu nome. Hoje ela conta com 350 alunos mais ou menos. Está sendo um
sucesso dentro da estrutura que eu montei em Betim. Inclusive, o pessoal do
União Luziense, outro time que vai disputar a Segunda Divisão do Mineiro, veio
aqui e gostou da minha estrutura. Então, estou ajudando eles a montar uma time
para disputar essa competição que começa no segundo semestre – declarou.
A saudade dos gramados, mas de jogar com
estrutura
– Não
tem como desligar do futebol. Esses dias mesmo eu estava vendo os melhores
momentos de um jogo do Flamengo e deu saudade. Dá saudade demais. Dos times
pequenos, não. Do Flamengo, sim. Sinto falta da torcida do Flamengo, do estádio
cheio. Tudo isso foi bom enquanto durou. Se eu tivesse atuando em um Cruzeiro,
um Flamengo, ou Ipatinga, eu teria motivação para jogar. Mas quando você se
compara com clubes de interior, que não têm condições para treinar, para jogar,
você acaba desmotivado. É uma realidade diferente.
A “república do pão de queijo”
com ex-integrantes do Ipatinga
– Na
época estava eu, o Léo Medeiros e o Diego Silva no time principal do Flamengo.
E o Ney Franco comandava a equipe. E o time não estava tão bem. Então, eles
precisavam culpar alguém. Aí começaram a falar que os mineiros não jogavam
nada. A nos culpar pelo momento. E pegou isso de república do pão de queijo.
Acho que pesou um pouco por termos saído todos de um time pequeno. Chegar e
assumir uma camisa como a do Flamengo, o time tem que estar encaixado. É
complicado.
Salários atrasados foram determinantes
para o adeus ao Fla
– Eu
larguei porque estava em um momento difícil. Não vinha fazendo bons jogos. E os
atrasos de salários estavam pesando. Em cinco meses no clube eu estava sem
receber há quatro. E isso sempre pesou para mim. Nunca tive estrutura para
ficar em clube que não me pegasse, eu não aguentava. Então, optei por sair e
voltei para Minas. Hoje, vejo que poderia ter tido mais paciência.
– Não
penso em ser treinador, não. É uma vida muito instável e ingrata. Hoje penso em
ser dirigente mesmo. Até de um Flamengo. Quem sabe um dia?
Primeiro jogo no Rio estará sempre na
memória
– Meu
primeiro jogo no Maracanã, contra o Juventude, sem dúvidas, foi inesquecível.
Me deparar com a torcida do Flamengo cantando “poeira para um lado, poeira
para o outro”… Eu vou contar até para os meus bisnetos isso. Aquela
sensação. Teve até um lance que eu levantei do banco e fiquei olhando a torcida.
Eu acabei esquecendo o jogo. Depois até fizeram matéria sobre isso, o pessoal
da própria Globo. Que eu esqueci o jogo para ficar olhando a torcida. E isso
impactou mesmo. Vou levar para o resto da vida.
Diversão naqueles tempos era
“videogame”
– Nosso
ambiente era muito bom. Mas não tinha tanto zoeira nessa época. Nossa diversão
era jogar videogame mesmo. Lembro que juntava eu, o Rodrigo Arroz, o Renato
Abreu, o Léo Medeiros… Ficávamos jogando nas horas livres. Até hoje converso
com o Luizão, o Léo Medeiros… Falei com o Diego Souza há um tempo também. Era
mais isso mesmo.
Renato Augusto sempre foi diferenciado
– Eu
lembro que na minha época a maior pressão em revelação ficava em cima do Renato
Augusto. Estavam todos em cima dele, até a própria mídia. Mas ele sempre foi um
cara centrado, um grande jogador. Tinha uma base familiar muito boa. Não é à
toa que está onde está hoje. Ele sempre foi um cara do bem.
As coisas mudaram no Rubro-Negro de lá
para cá
– As
coisas no Flamengo, hoje, são diferentes. Eu atribuo muito isso a essa nova
diretoria. Na nossa época os atrasos de salários eram normais. Não tínhamos a
estrutura de hoje. Acredito que não tenha mais isso de salário atrasar. Eu
sempre falo que o Galo era um time grande, mas que não ganhava títulos de
expressão. Passou, então, a contratar grandes nomes, e tudo mudou. O Flamengo
também sofreu com isso um período. Mas, hoje, tem dinheiro para investir. Tem
estrutura para contratar grandes nomes. Um trabalho de marketing é feito. Eu
acho que o caminho é este mesmo. Eu fiquei até surpreso com a queda na
Libertadores. Achei que fosse o ano do clube.
Mas a pressão continua a mesma daquele
período

Jogar no Flamengo é conviver com a pressão. Eu vejo até que a mídia, a
imprensa, tem parte nisso. Se o cara não tem uma base boa, uma estrutura boa, o
jogador se perde. Acaba não rendendo. O cara começa a se sentir mais do que é.
Tudo por ser Flamengo é muito grande.
Coração atleticano e gratidão à Raposa
– Eu
não escondo que sou atleticano. Mas eu devo muito ao Cruzeiro. Foi o clube que
me formou, que eu fiquei vinculado até os 29 anos. Todas as vezes que eu saí,
foi por empréstimo. Por mais que eu seja atleticano, eu sou muito grato ao
Cruzeiro por tudo que passei no clube.
O futuro de Minhoca não está na beira do
gramado

– Não
penso em ser treinador, não. É uma vida muito instável e ingrata. Hoje penso em
ser dirigente mesmo, seguir como dirigente. Até de um Flamengo. Quem sabe um
dia? Mas meu sonho mesmo era trabalhar no Atlético-MG. Eu tive a felicidade de
atuar pelo Cruzeiro e sou muito grato ao clube. Mas meu time do coração é o
Galo. Seria incrível trabalhar lá.

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