Ausência do Flamengo no FIFA é um erro

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Time do Flamengo na Ilha do Urubu, no PES – Foto: Reprodução

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre


pouco mais de uma década fiquei por algum tempo em Oxford, interior da
Inglaterra. Já até contei aqui um pouco sobre meu carinho pelo clube da cidade,
o Oxford United, uma paixão nos games que me fizeram comprar uma camisa. A
ideia era fazer um curso e acabei me hospedando na casa de uma família local.
Luke era um garoto de oito anos, torcedor ferrenho pelo Chelsea. Cortinas com Lampard
estampado, quarto azul, lençol de Drogba. Tudo era sobre o clube londrino.
Volta e meia ele me desafiava no videogame. O jogo escolhido era Fifa. Ele,
claro, pegava o Chelsea. Eu alternava com clubes brasileiros. Na primeira vez
que nos enfrentamos, perguntei já pronto para a resposta negativa:
“Vou
com o Flamengo, você conhece?”
“Claro!”,
disse Luke, arrancando o controle da minha mão, entrando no menu de clubes
brasleiros e parando a seleção em cima do escudo do clube rubro-negro.
Depois
daquele tempo em Oxford, nunca mais vi Luke. Na última vez em que voltei por aquelas
bandas, há três anos, ele não estava em casa quando bati na porta. Nem sei se o
inglesinho ainda lembra do Flamengo. Também conhecia o Cruzeiro, que era azul
igual ao Chelsea, entre outros. Por qual razão? Simplesmente por ter os clubes
brasileiros no seu videogame. Ali, a um passo, entre um jogo e outro do Chelsea
virtual, ele viajava pelo mundo e conhecia os diversos clubes. Lembrei de Luke
quando fui testar neste sábado a versão beta online de Pro Evolution Soccer
2018, disponível na PlayStation Network.
Não, o
PES 2018 não é um jogo ruim. Pelo contrário. É bom. Somos sortudos de ter tanta
qualidade gráfica e outros caprichos por aí atualmente. Quem viveu a época de
Atari, Nintendo e Super Nintendo, sabe. A gente se divertia com pouco. Mas
muito bem, o PES 2018. A versão beta disponível do jogo pouco mudou em relação
às últimas versões e ainda está bem aquém do Fifa. Há uma fluidez melhor dos
movimentos – embora ainda um tanto quanto mecanizados – mas a impressão que
tive é que os jogadores ainda são lentos, parecem correr com um saco de
cimentos entre as costas. E parecem fazer força demasiada para chutar ou lançar
a bola. Mas certo, isso tudo é bem subjetivo. Eu curtia
muito mais o jogo da Konami até PES 2013, quando revirei a casaca depois de
abandonar Fifa lá por 2003. Mas o que me fez lembrar de Luke é a abrangência
mundial de um jogo e de outro.
Flamengo
e Corinthians, os dois clubes mais populares do país, assinaram um contrato de
exclusividade com a Konami por dois anos, em meio a promessas de mundos e
fundos. Já confirmaram ao UOL Jogos que não estarão em Fifa 18. Nunca entendi
muito bem essa preferência por um game que, apesar de bem bacana também, tem
uma abrangência bem menor no mundo todo. A intenção, creio, deveria ser
divulgar as marcas e os jogadores dos clubes mundo afora. Dar a outros tantos
Lukes, no interior da Inglaterra ou da Rússia, a chance de jogar com Guerrero e
Jô, por exemplo. “É só comprar o PES 2018”, dirá você. Claro. Mas e se a
preferência for por Fifa, como acontece na maior parte do mundo? Não há
liberdade alguma de escolha. O assunto, porém, vai além disso.
No
Twitter, comentando o assunto, a seguidora Karoll me mandou o link do site
VGChartz, com alguma legitimidade no ramo. Lá indica que Fifa 17 vendeu mais de
dez milhões de cópias em 2016, ano em que foi lançado. É o segundo no ranking
global, atrás apenas de Pokemon Sun/Moon, que tem 12 milhões. A gente vasculha
mais um pouco e acha outro site com dados de que Fifa 17 vendeu 20 vezes mais
do que PES 2017. E a preferência de Flamengo e Corinthians foi dada ao PES,
enquanto a maioria dos rivais vai para o Fifa. O torcedor rubro-negro que jogou
muito com Diego Maurício e Willians em tempos bicudos não vai poder escalar
Diego, Guerrero e Everton Ribeiro no jogo da EA Sports. Uma frustração. Mas
qual o motivo disso? Há um tanto de mistério em torno da razão correta.
Em
2015, quando ainda trabalhava na ESPN Brasil, apurei que o que pegava mesmo era
grana. A EA Sports oferecia R$ 30 mil para o Flamengo em troca da licença por
uma edição do jogo. A Konami, por sua vez, acenou com R$ 450 mil. No lançamento
da parceria, no Maracanã, também exclusivo no jogo, comentei com um executivo
da Konami o valor publicado na matéria. Ele garantiu que não era aquilo, não
teriam como pagar aquele valor por apenas um clube. Mas, convenhamos: o
Flamengo, por exemplo, pagaria metade de um salário do Guerrero com esse
montante. Seria, mesmo, questão de grana? Não valeria a pena topar liberar a
imagem do clube em um jogo de abrangência mundial? Pelo visto, acharam que não.
Brigas na Justiça prejudicam demais
Também
no Twitter, fui alertado sobre outra reportagem da ESPN publicada em 2016.
Abordava um suposto calote da EA no Flamengo em 2011, ou seja, bem antes da
administração Bandeira de Mello assumir o clube. Brigas judiciais também
ocorrem sobre a licença de jogadores. Messi está em todos os jogos e o Sassá,
do Cruzeiro, por exemplo, pode não estar. No restante do mundo, as produtoras
assinam contrato com a Fifpro, que representa os atletas, principalmente, no
futebol europeu. No Brasil não há uma entidade que faça o mesmo. A negociação
deve ser individual. Muitos atletas preferiram processar a produtora dos games
por valores bem abaixo de suas remunerações mensais nos clubes do que aparecer
no jogo. Falta de visão sobre o impacto em sua imagem ou apenas briga pelo
direito adquirido? Um poucos dos dois, creio.
A
questão é que mesmo com a promessa de tratamento especial dada pela Konami a
Corinthians e Flamengo, as atualizações do elenco são falhas. Não é raro ver m
atleta que já deixou o clube meses antes no elenco e com face genérica. Fifa
tem sido bem mais competente nisso, ainda que na última versão os clubes
brasileiros tenham contado com jogadores genéricos. Foram 12 milhões de cópias
do jogo da EA Sports pelo mundo. Flamengo, Corinthians e até o Maracanã
poderiam aproveitar para surfar nas duas ondas. PES 2018 também é um bom jogo e
tem força na América do Sul. Um mercado, aliás, que será visto com mais atenção
em Fifa 18. Pelos relatos – neste ano não tive a sorte de testar o Beta do
game, como no ano passado – os jogos no Monumental de Nuñez, estádio do River
Plate, por exemplo, terão os tradicionais papeis higiênicos pelo campo, na área
do goleiro, e cantos do hinchas. Um ambiente mais sul-americano.
Há uma
divisão também na Europa. O mundo dos negócios é forte, seja lá ou cá. O
Barcelona fechou parceria no último ano com a Konami. Seus craques estamparam a
capa de PES e o Camp Nou foi exclusivo do game. Mas o clube catalão não ignorou
a abrangência do Fifa e também acertou a licença. Está em ambos, PES 2017 e
Fifa 17. E, convenhamos, por mais que Flamengo e Corinthians sejam mundialmente
conhecidos, a escala global do Barcelona de Neymar, Messi e Suárez atualmente é
incomparável. O Real Madrid, no entanto, é mais ligado à EA. Na última versão
de PES, o clube não foi licenciado, embora todos os jogadores estivessem lá com
seus dados originais. E Cristiano Ronaldo será capa de Fifa 18. A briga
continua. PES 2018 promete brigar mais forte. Mas, no fundo, é difícil entender
a exclusão dos dois clubes mais populares do Brasil de Fifa. Perdem todos.

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