Chelsea e Real: estratégias diferentes para inspirar times do Brasil

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Eduardo Bandeira de Mello, Presidente do Flamengo, segurando troféu de campeão
Foto: Gilvan de Souza

ANDRÉ
ROCHA:
Antes de qualquer ponderação é preciso explicar o óbvio, quase desenhar:
a intenção do texto não é comparar a qualidade dos elencos dos milionários
clubes da Inglaterra e da Espanha. Apenas as estratégias na gestão dos elencos.
Mas também entendendo que é possível fazer uma proporcionalidade entre a
capacidade dos clubes brasileiros citados e o nível do futebol jogado no país.

O
Chelsea fez uma temporada 2015/16 para esquecer e não se classificou sequer
para a Liga Europa. A prioridade absoluta era a Premier League, com as copas
nacionais em paralelo da forma como os ingleses as vêm tratando nos últimos
anos: escala reservas e só busca o título se não tiver algo mais importante em
disputa. Ou seja, o que o tem restado ao Arsenal de Arsene Wenger.
A
estratégia de Antonio Conte foi clara: depois de encontrar a formação com
melhor relação desempenho/resultado, insistiu com ela e rodou bem pouco o
elenco. Com a repetição de jogos e semanas livres para os treinos que funcionam
mais como ”polimento” após uma pré-temporada mais forte e longa que as do
Brasil, a variação do 5-4-1 para o 3-4-3 ganhou ainda mais fluência. Os atletas
passaram a executar as jogadas de memória, sem pensar muito e a equipe sobrou
no Inglês.
Já vem
sendo o trunfo do Corinthians na temporada. Equipe que ganhou corpo no
Estadual, mas vacilou na Copa do Brasil com a eliminação para o Internacional.
A arrancada espetacular no início do Brasileiro já sinaliza que a Sul-Americana,
consequência da temporada irregular em 2016, ficará em segundo plano. A menos
que abra uma vantagem na competição nacional tão confortável que permita
inverter a lógica e poupar para um duelo decisivo no torneio continental.
O Real
Madrid queria voltar a vencer o Espanhol depois de cinco anos e quebrar a
hegemonia do rival Barcelona. Mas sem perder de vista a Liga dos Campeões,
historicamente um alvo de conquista do maior campeão do torneio. A solução de
Zinedine Zidane, depois de observar o desgaste de seus jogadores na temporada
anterior, especialmente da estrela Cristiano Ronaldo foi simples, até um tanto
antiquada: definir titulares e reservas. Treinar, condicionar e entrosar para
que ambos estivessem prontos quando necessário.
Mas
sem tapar os olhos para o desempenho e praticar a meritocracia. Tanto que Isco
virou titular e Gareth Bale iniciou a decisão da Liga dos Campeões no seu País
de Gales no banco. As partidas em que a equipe reserva seria utilizada foram
definidas dentro de um planejamento, não necessariamente na partida do Espanhol
que antecedia um duelo importante pela Champions.
O
resultado: as duas taças em Madrid e todos voando no fim da temporada. Os
titulares pelo descanso e os suplentes pela motivação e por conta do ritmo de
competição. A dosagem certa para o futebol atual, que exige do atleta um enorme
esforço mental – concentração absoluta para as tomadas de decisão corretas – e
físico, com um aumento exponencial nas ações de alta intensidade – em especial
os piques curtos para dar opção e receber a bola ou pressionar o adversário.
Flamengo,
Palmeiras e Atlético Mineiro, pelo alto investimento em seus elencos e, por
conta disso, não podendo descartar nenhuma competição na temporada, podem
pensar em algo parecido. Envolvidos em três campeonatos, se tentarem insistir
com os titulares em todos haverá esgotamento e desvantagem contra adversários
que não estão na mesma maratona de jogos a cada três dias.
Já com
equipes mistas, poupando apenas aqueles que os exames apontam próximos de estourar
os músculos, o entrosamento sempre fica comprometido. Os famosos rodízios não
têm dado muito resultado prático por conta da falta de sintonia entre os
setores muito alterados.
Parece
mais racional definir antes e escolher as partidas mais acessíveis. Não como o
Grêmio fez, poupando contra Sport e Palmeiras fora de casa porque tinha jogos
considerados prioritários no meio da semana. Pontos jogados fora que hoje fazem
falta na luta para se aproximar do líder Corinthians.
É
lógico que sempre é mais inteligente deixar alguns titulares no banco para
alguma eventualidade. Mas mesmo concentrando e fazendo parte da logística da
partida, não deixa de ser um repouso para pernas e mentes. Em clubes tão
pressionados por conquistas é um alívio. Cobrar presença em todos os jogos para
justificar os altos salários parece pouco inteligente. Porque o atleta não está
cansado a ponto de não poder exercer seu ofício. A ausência é apenas para que
ele mantenha o alto rendimento. Não são máquinas.

passou da hora dos clubes brasileiros deixarem de se preocupar tanto com
decisões políticas, pautadas por reações de torcida e imprensa. Não há como
controlar os resultados, por isso planejar para minimizar os equívocos parece
sempre a melhor escolha. Inclusive surpresas agradáveis podem acontecer. Como
os titulares do Real Madrid derrotados pelo Barcelona no Santiago Bernabéu, mas
não deixando o rival se aproximar da liderança exatamente pelos pontos
conquistados pelos reservas, inclusive em jogos longe de Madri.
Ninguém
por aqui conta com uma seleção mundial no elenco. Mas o Brasileiro também não
tem o nível do Espanhol – as competições internacionais mostram que Barça e
Real não sobram por falta de rivais à altura, mas por estarem numa prateleira
acima no futebol mundial pela competência dentro de campo.
Com a
disputa ainda no primeiro turno é possível corrigir a rota e definir o
planejamento. O Corinthians parece cada vez mais consciente que o ”modo
Chelsea” é o norte a seguir, mantendo a base e investindo em recuperação e
treinamentos pensando no Brasileiro.
Já os
que gastaram para rechear seus elencos precisam definir um caminho para não
correrem o risco de terminar 2017 sem taças importantes para ostentar. O Real
de Zidane ganhou a Espanha e a Europa com inteligência. É possível fazer
parecido, mesmo sem tanto talento disponível.

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