Craques que eu nunca deveria ter vaiado

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Craques que eu nunca deveria ter vaiado

PERON
NA ARQUIBANCADA
: Como torcedor, eu me arrependo de ter vaiado dois dos maiores
jogadores da história do nosso futebol: Zico e Paulo Cézar Lima (ou o Paulo
Cézar Caju). A razão dos apupos não era a qualidade dos jogadores, mas apenas
pelo motivo tolo de ambos jogarem em clubes cariocas.

Nos
anos 1970, o bairrismo entre paulistas e cariocas – que ainda existe – era
muito mais exacerbado. Para quem estava em São Paulo tudo o que acontecia
errado no nosso futebol era culpa dos cariocas – o inverso também ocorria.
Os
paulistas alegavam que os clubes do Rio de Janeiro eram favorecidos
politicamente, ajudados pela arbitragem e influenciavam nas convocações para a
seleção. Quem estava na chamada “Terra da Garoa” desprezava qualquer destaque
que surgia no futebol carioca. Por exemplo, para os paulistas, o futebol jogado
no balneário era muito mais lento e em São Paulo era muito mais difícil jogar,
por ser muito mais competitivo.
Até
havia aqueles que comentavam que a imprensa carioca promovia seus clássicos e
jogadores, enquanto a crônica paulista era muito mais crítica. Surgiam versões
que os principais atletas só jogavam bem no Maracanã. Assim, para nós paulistas,
Zico começou a ser tratado como o maior exemplo de jogador que só era “craque”
quando jogava no principal estádio do país.
Não
importava se fosse com a camisa do Flamengo ou da seleção, o camisa 10 do
Flamengo era vaiado em São Paulo e uma eventual má atuação do jogador do
jogador já era o suficiente para que se falasse que Zico só atuava bem em seu
palco favorito, contra os timecos do Rio de Janeiro.

Paulo Cézar Lima, durante boa parte de sua carreira, nunca escondeu sua
antipatia por São Paulo. Também pudera o jogador sempre tomava vaias homéricas
quando vinha jogar na capital dos paulistas.
Além
do já citado bairrismo, Paulo Cézar também era considerado como mascarado,
metido e arrogante. Por aqui, poucos entendiam – e também não queriam – que o
habilidoso atacante freqüentasse a alta sociedade carioca, namorasse belas
mulheres, desfilasse em carrões importados e tivesse posições políticas e
falasse abertamente sobre racismo. O que, para época – final dos anos 1960 e
década de 1970, – era um absurdo um jogador de futebol ter tais atitudes.
Para
quem ficava apenas no aspecto esportivo, Paulo Cézar Lima era considerado um
protegido dos cariocas. Por muito tempo, aqui em São Paulo era considerado um
crime o fato de Paulo Cézar ser titular da seleção, enquanto o habilidoso Edu
(Santos) ficava na reserva.
Para
os paulistas, ele também foi um dos principais culpados pela má campanha do
Brasil na Copa do Mundo de 1974. Para muitos, ele já vendido para o futebol
francês, não jogou com total dedicação naquele mundial, inclusive perdeu um gol
feito na partida contra a Holanda, quando a partida estava empatada [os
holandeses venceram o Brasil por 2 a 0 e se classificaram para a final].
Zico,
felizmente, foi reconhecido como craque pelos paulistas ainda durante sua
carreira. As conquistas da Copa Liberadoras e do Mundial, com a camisa do
Flamengo, e ser um destaque da grande seleção que disputou a Copa do Mundo de
1982 ajudaram, mas uma atuação de gala, em uma vitória do Flamengo sobre o São
Paulo (4 a 3), no Morumbi, em 1982, foi fundamental para que Zico conquistasse
finalmente os paulistas.

para Paulo Cézar, mesmo ele jogando um curto período de tempo no Corinthians, a
“paz” com os paulistas só aconteceu algum tempo depois do final de sua jornada
como jogador. Ele veio morar em São Paulo e os paulistas finalmente entenderam
o jogador e o cidadão Paulo Cézar Lima, que também se recuperou de vários
problemas pessoais e hoje é uma das pessoas mais lúcidas quando comenta a
situação do nosso futebol.
Sigo
arrependido de ter vaiado – lógico que não só foram apupos – Zico e Paulo Cézar
Lima. Confessar nossos erros pode diminuir a culpa, mas nunca expia o pecado.
Portanto, pense bem antes de vaiar um craque, pois além do arrependimento
eterno, ele vai te punir da pior maneira possível: fazendo um gol no seu time.

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