Defesa do Corinthians vai combater eficiência aérea do Flamengo?

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GLOBO
ESPORTE
: “A melhor defesa é a defesa bem feita.” Esse poderia ser o
lema para o Corinthians, líder do Brasileirão-2017. Em 16 jogos, sofreu apenas
sete gols. Se não levar nenhum neste domingo, na Arena Corinthians, vai igualar
um recorde: apenas dois gols sofridos nos nove primeiros jogos como mandante,
marca estabelecida em 2013 pelo próprio Corinthians. Já para o quarto colocado
Flamengo vale mesmo a máxima “a melhor defesa é o ataque”. É a
segunda equipe que mais finalizações fez na competição até aqui. As equipes se
enfrentam neste domingo, às 16h, em São Paulo, e a missão da até aqui histórica
defesa corintiana, será parar o ataque que mais gols marcou a partir de jogadas
aérea: 14. Quando se sabe que o Corinthians não levou gol em 12 de seus 16
jogos nesta Série A, é natural acreditar se tratar de uma defesa que não tem
pontos fracos, mas quando são reunidos os dados de todas as competições que
disputou na temporada, um padrão salta aos olhos: dos últimos 11 gols que o
Corinthians levou, oito (73%) foram conquistados a partir de jogadas aéreas dos
adversários, exatamente uma das especialidades do Flamengo.
Embora
tenham características distintas, ofensivamente os números de Corinthians e
Flamengo são próximos. Porém, ainda que a equipe carioca seja a segunda com
mais finalizações no Brasileirão, é do Corinthians o segundo melhor ataque da
competição, com 26 gols; o Flamengo vem logo atrás, em terceiro, com 24 gols.
Está
na eficácia defensiva a melhor explicação sobre por que então o Corinthians
venceu 12 jogos até aqui, e o Flamengo, “apenas” sete, abrindo um
abismo de 12 pontos de vantagem na classificação após 16 rodadas. O Flamengo
levou praticamente o dobro de gols.

A
marca é curiosa porque o Flamengo é a terceira equipe que menos finalizações
permitiu aos adversários no Brasileirão, foram apenas 164. Só Chapecoense (138)
e Pameiras (158) foram menos atacadas. O Corinthians aparece apenas na 14ª
colocação: os adversários conseguiram fazer 229 conclusões, mas em média apenas
três de cada cem tentativas entraram no gol corintiano. É a melhor marca do
campeonato. Contra o Flamengo, entraram oito em cada cem, quinta melhor marca.
Um
motivo para essa diferença toda é que o Corinthians ainda não levou gol em
contra-ataque no Brasileirão, mas o Flamengo já tomou cinco, em quatro jogos
diferentes que terminaram empatados: um contra o Atlético-MG (1 a 1), um contra
o Avaí (1 a 1), um contra o Fluminense (2 a 2) e dois contra o Palmeiras (2 a
2). Esses oito pontos perdidos após contra-ataques são parte importante nos 12
que separam o Flamengo da liderança.

Falar
em ponto fraco de uma defesa histórica é cair em polêmica. Mas os dados apontam
que se quase ninguém conseguiu furar a defesa do Corinthians neste ano, obteve
mais vezes sucesso quem o atacou a partir de jogadas aéreas. A defesa antiaérea
corintiana é um ponto forte quando comparada com as outras 19 equipes do
Brasileirão: o Corinthians só levou quatro gols assim. Apenas duas equipes
sofreram menos que isso: Botafogo (um) e Atlético-MG (dois). O Flamengo está
empatado no quesito, também só levou quatro gols a partir de jogadas aéreas.
Mas quando comparada com si própria, as bolas aéreas têm um peso
desproporcional. Esses quatro gols representam 57% do total de gols sofridos. O
número não parece significativo, mas só porque contra o Atlético-PR, na última
partida disputada em casa pelo Brasileirão, o Corinthians atuou com dois defensores
reservas e sofreu dois gols em troca de passes rasteiros. Antes dessa partida,
o atual campeão paulista tinha sofrido apenas cinco gols, sendo quatro em
jogadas aéreas (80%).

O
Espião Estatístico considera como aéreas jogadas com bolas curtas levantadas
sobre pelo menos um adversário, cruzamentos, escanteios, faltas cobradas pelo
alto, lançamentos e laterais longos em direção à área que sejam finalizados com
qualquer parte do corpo, buscando o gol de forma direta, depois de uma
assistência mesmo que feita com o pé ou após uma rebatida adversária ou da
trave. Dentro desses parâmetros, para entender se o jogo aéreo adversário
realmente vem representando um problema para a defesa corintiana, analisamos
também os gols sofridos em outras competições, não apenas no Brasileirão. Dos
últimos 15 gols que o Corinthians levou, dez foram marcados a partir de jogadas
aéreas (67%). Sua defesa quase impenetrável tem sido menos infalível quando
atacada pelo alto: de cada três gols que sofreu recentemente, dois foram marcados
a partir de jogadasa aéreas.
A
informação é significativa porque o Flamengo é o time do Brasileirão que mais
gols fez a partir de jogadas aéreas. Os 14 gols que conseguiu em bolas erguidas
sobre a área adversária representam 58% dos gols que a equipe conseguiu o
Brasileirão. Analisadas do mesmo modo as outras competições, fica clara a
importância dessas jogadas para o Flamengo: sem contar faltas diretas e
pênaltis, dos últimos 11 gols marcados, seis foram aéreos; dos últimos 26,
foram 16; dos últimos 32, foram 19. Tudo isso aponta para um padrão: de cada
cinco gols que o Flamengo marca, três são aéreos (sem contar um gol de falta
direta e dois de pênalti)..
Além
de recorrer muito à jogada aérea, o sucesso ofensivo do Flamengo se deve também
ao volume de ataque. É a segunda equipe que mais finalizações fez na competição
(241), em um ranking no qual o Corinthians ocupa apenas a 15ª colocação (187).
A maior diferença entre eles aparece no segundo tempo das partidas. No
primeiro, a diferença é pequena (94 a 100) a favor do Flamengo (6% a mais), mas
quando comparados os números da segunda metade dos jogos, a vantagem (93 a 141)
do Flamengo dispara (52% a mais).

Apesar
de o Flamengo ter finalizado 52% mais no segundo tempo, foi o Corinthians quem
conseguiu mais gols na segunda metade do jogo (15 a 13). Com tantos jogos
consecutivos sendo disputados em meio e final de semanas, uma dúvida que surgiu
foi “por que o Flamengo finaliza tanto mais no segundo tempo?”. Entre
os torcedores há quem acredite que o time do Flamengo não sabe cadenciar o jogo
e por isso ataca como se não houvesse amanhã. Só que não. O time ataca tanto no
segundo tempo por pura necessidade. É o placar que impõe isso à equipe. De
todas as finalizações no segundo tempo, apenas 30% das feitas pelo Flamengo
foram construídas com o time em vantagem no placar, enquanto o Corinthians fez
52% de suas finalizações no segundo tempo quando vencia. O Corinthians não fez
nenhuma, zero, finalização no segundo tempo estando em desvantagem no placar.
Está sempre administrando o placar. Já o Flamengo fez 21% de suas conclusões
quando perdia. Sem vantagem no placar, o Flamengo tem de atacar mais, e o
percentual de finalizações que viram gol cai (de 12% no primeiro tempo para 9%
no segundo). Com confiança para se defender, a eficiência do Corinthians quando
vai ao ataque no segundo tempo cresce (de 12% no primeiro tempo para 16% no
segundo). É o adverdário que tem de se expor. O Corinthians marcou cinco gols
em contra-ataques, três deles no segundo tempo. O Flamengo também marcou cinco
em contra-ataques, mas três no primeiro tempo.

Os
próximos gráficos ajudam a entender porque os jogos do Flamengo são tão mais
tensos. Quando o primeiro e o segundo tempo são segmentados em intervalos de 15
minutos, fica muito parecida a distribuição dos gols conquistados por
Corinthians e Flamengo.

O
gráfico é tão linear que fica evidente como os ataques de Corinthians e
Flamengo têm desempenhos muito parecidos em relação a gols marcados. Mas o
gráfico, até meio sem graça, é importante por servir de referência para
entender o que distancia as duas equipes no campeonato: a eficiência de suas
defesas.

Somados
casa e fora, na prática o Flamengo ao final das partidas do Brasileirão
confirmou o resultado obtido no primeiro tempo (7V, 7E, 2D). Mas os dois
gráficos deixam bem evidente uma característica: na volta do intervalo, tanto
Corinthians quanto Flamengo sofrem mais nos 15 minutos iniciais do segundo
tempo. Iniciantes na profissão, talvez os técnicos Fábio Carille, do
Corinthians, e Zé Ricardo, do Flamengo, ainda não tenham encontrado a melhor
forma para despertar seus atletas antes de voltarem ao gramado após o merecido
descanso de 15 minutos. A questão talvez não seja tanto se substituem bem ou
mal, mas como mexem com os ânimos dos atletas no vestiário para a segunda
etapa.

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