Eficiente, Flamengo supera o Vasco em ambiente hostil

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Jogadores do Flamengo aplaudindo a torcida em São Januário – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE
CRUZADO
: Pedro Henrique Torre

O
cenário caótico ao fim, com cenas de violência na arquibancada, jogadores
acuados em campo, objetos arremessados no gramado e gás pimenta, deixou claro
que o futebol passou a última das prioridades em São Januário. Difícil cobrar
bom desempenho de uma equipe em um panorama com características tão específicas
e graves. Não houve boa nem má atuação do Flamengo na vitória de 1 a 0 sobre o
Vasco. Houve eficiência de um time que soube trabalhar com as adversidades que
surgiram no percurso – como perder três zagueiros em uma noite – e encontrou em
Everton Ribeiro o seu representante técnico. Em um contexto que deu ares de um
campo de batalha, o camisa 7 foi o responsável por lembrar a todos que ali a
prioridade deveria ser um jogo de futebol.
A
atmosfera construída em um clássico entre Vasco e Flamengo em São Januário, com
rivalidade exacerbada e por vezes incitação ao ódio ao adversário, torna o jogo
truncado, quase bélico. Há menos espaço para bola e mais para a disputa pela
simples disputa. Luta. Envolvidos pelo ambiente, os jogadores esquecem o campo
e dividem trombadas, falas ríspidas, discussões, faltas desnecessárias.
Presidente vascaíno, Eurico Miranda costuma tratar o clássico como um
campeonato à parte. Talvez seja na intimidação. Pois a disputa na técnica é
difícil entre os times. A diferença é enorme. O fósforo foi riscado cedo, com
conivência da arbitragem. Em disputa com Paulão, Guerrero foi ao chão e levou
uma raspada na cabeça com a chuteira do zagueiro. Machucado, reclamou. Mesmo
vítima no episódio, recebeu cartão amarelo de um Anderson Daronco já indicando
que estava perdido.
Na
bola, o jogo era o esperado. Um Flamengo postado no seu 4-2-3-1, com farta
posse e dificuldades para entrar na defesa vascaína, bem postada. Toques da
esquerda para a direita, da direita para a esquerda. Jogo mais cadenciado que
acelerava apenas quando Everton Ribeiro entrava em ação. Rápido, o camisa 7
rubro-negro buscava o meio e se fartava em cima de Henrique pela direita.
Buscava o drible, tentava o passe, o lançamento. Toma trombadas e evita ir ao
chão. Quer a sequência. O jogo. Era quem respirava técnica no Flamengo. Tentava
jogar, em vez de disputar. Não que os companheiros estivessem mal. Em um jogo
aguerrido, Márcio Araújo e Rafael Vaz, por exemplo, assumiram posturas extremamente
sérias. Não dava margem para erros em passes de trivela, a arrancadas sem
sentido. Certamente impactados pelo ambiente se tornaram úteis ao coletivo. Mas
e o Vasco?
Em seu
domínio, com o apoio da torcida, apostando muito no clima hostil da
arquibancada, o Vasco não se empolgou como fez contra o Corinthians. Foi dentro
de campo consciente. Tinha um plano claro. Sabia que a alternativa contra um
time reconhecidamente mais técnico deveria se fechar em dois blocos de quatro,
com Nenê e Luis Fabiano mais à frente. Ao atacar, entrava em um 4-2-3-1, com
Nenê à esquerda, Pikachu à direita. Mas Douglas, suspenso, fazia muita falta. É
o homem responsável pelo início do jogo. Sem ele, o Vasco não conseguia andar.

Bruno
Paulista, substituto, mostrou até certa técnica, com passes mais refinados do
que o padrão, mas ainda fora da sintonia.
Mateus
Vital, centralizado, era tímido. Sumiu do clássico. Um jogo maçante, chato. Zé
Ricardo antes do jogo perdera Rever, por uma gastroenterite. Depois, outro
titular, Rhodolfo, saiu com apenas 18 minutos. Léo Duarte, com 112 minutos e
três jogos na temporada, entrou. Do lado vascaíno, Bruno Paulista foi quem
abandonou o clássico ainda no primeiro tempo. Vaga do jovem Andrey. A exigência
mental de um clássico de tamanha pressão pode impactar diretamente no físico.
Há maneiras e maneiras de se jogar um jogo. De se encarar um campeonato.
Diante
de um futebol tímido na primeira etapa, o Flamengo mostrou entender que era ele
o responsável por um jogo mais técnico. É um elenco sempre cobrado pelo bom
desempenho além dos resultados. Mas ali, com características tão específicas no
caldeirão vascaíno, dançou a música como deveria. Sentiu a temperatura do Vasco
no primeiro tempo e praticamente não foi ameaçado. É forte defensivamente. Mas
pouco ameaçou, apesar de contabilizar quase 60% de posse. Na etapa final,
começou a dar as cartas. Com muita movimentação. É interessante notar uma
mudança com a presença de Everton Ribeiro na equipe.
Diego,
geralmente o eixo, o meia centralizado, se doa muito mais ao campo defensivo.
Não apenas para bloquear ajudar Márcio Araújo e Cuellar. Inicia o jogo com
qualidade e abre espaço para que Everton Ribeiro baile como quiser, da direita
para o meio, do meio para a esquerda. Talvez até um reconhecimento de que o
camisa 7, quatro anos mais jovem, tem pernas bem mais frescas para acelerar o
jogo. E por ali o Flamengo indicou que daria trabalho. Bola para Everton
Ribeiro.
Um,
dois, até três dribles rápidos, um tapa para frente a outro companheiro e o
time próximo à área vascaína. Em um lance, o camisa 7 se antecipou ao passe de
Andrey, roubou a bola e deixou Diego à vontade na frente de Martín Silva. A
conclusão ruim, em cima do goleiro, deu rebote ao próprio Everton Ribeiro, que
carimbou em cima da zaga. O Vasco sentia dificuldades. Sentia-se acuado.
Milton
Mendes já trocara o garoto Mateus Vital por Wagner, um meia mais experiente,
cadenciado, alternando Nenê com Manga Escobar, substituto de Pikachu, pelos
lados. Mas o Flamengo, bem postado, tinha boas recuperações de Márcio Araújo e
um Trauco bem mais tímido no ataque, mais preocupado com a defesa. Talvez uma
estratégia para liberar Rodinei como auxílio de luxo de Everton Ribeiro. Tática
acertada. Num avançar do lateral-direito, a rolada de bola para o camisa 7.
De
costas, era fácil supor que Everton dominaria a bola e devolveria em Rodinei ou
para outro no meio. O novo reforço, no entanto, é diferente. Quer jogar.
Surpreender. Sair do jogo truncado. Num giro espetacular, deixou Henrique
desconcertado. Avançou e, com delicadeza, passou de perna direita para a área,
pelo alto. Sim, um passe. Não um cruzamento. Certeiro na cabeça do pequenino
xará Everton, surpresa entre os zagueiros. A testada, no chão, no canto direito
de Martín Silva. Flamengo, eficiente e plástico apenas em uma individualidade,
1 a 0. O jogo como deveria ser jogado.
A
rigor, o Vasco teve uma chance em todo o clássico, em boa finalização de Luis
Fabiano fora da área, bola bem espalmada por Thiago. O Flamengo, mais leve em
campo com a vantagem, acelerou com o outro Everton, pela esquerda, que cruzou
para Leandro Damião. Sem ângulo, um calcanhar deixou Everton Ribeiro na frente
do gol. A solução, rápida, foi driblar Martín Silva, seco, e bater. Mas Rafael
Marques afastou. A partir daí, o time rubro-negro puxou as rédeas. O jogo como
deve ser jogado, diz o manual. Retardou ações, trocou bolas e evitou qualquer
exposição diante de um Vasco que, irritado, passou a colecionar faltas como no
primeiro tempo, talvez infeliz com sua própria incapacidade de incomodar o
rival com ataques perigosos. Luis Fabiano, já com amarelo, deu carrinho no
mínimo descuidado em Leó Duarte e tirou o garoto do jogo. Romulo teve de ser
improvisado na zaga. Zé Ricardo, então, perdeu as substituições e a chance de
aumentar o fôlego do time para usar os espaços do Vasco com Berrío, por
exemplo. O jogo como deve ser jogado. Restava gastar o tempo.
Sim, o
Flamengo de Zé Ricardo deve à sua torcida bom desempenho aliado ao resultado a
cada partida. Tem qualidade para isso. Jogar sempre melhor. Mais uma vez, teve
um pequeno momento pelos pés de Everton Ribeiro, cada vez mais à vontade na
equipe. Mas o clássico deste sábado pedia uma postura eficiente diante de um
ambiente extremamente hostil. A equipe rubro-negra cumpriu. Mostrou um
amadurecimento. Dançou o clássico como pedia a música. Avançou casas. Mesmo em
um cenário completamente caótico.

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