Elenco do Flamengo exige técnico de nome? “Bobagem”, diz Kfouri

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Zé Ricardo, técnico do Flamengo – Foto: Pedro Vilela/Getty Images

LANCE:
Por André Kfouri

1 – O Flamengo é o único
time brasileiro que tem a intenção – e a capacidade – de controlar todas as
partidas negando a bola ao adversário. Uma ideia que deve ser admirada e
aplaudida como proposição de futebol, ao invés de ser avaliada impacientemente
apenas conforme os resultados que alcança.
2 – A repressão
resultadista age contra o crescimento de equipes que optam pelo caminho
tortuoso da posse, independentemente do oponente e do local. Os participantes
da tomada de decisões no futebol do Flamengo devem ser firmes na continuidade
do modo de atuar que pautou os objetivos e a formação do elenco do clube.
3 – É essa maneira de jogar
que faz com que o Cruzeiro, em casa, aguarde o Flamengo na linha do meio de
campo nos minutos iniciais do jogo. Mas não só isso, é claro. Há também um
componente estratégico do time mineiro, configurado para recuperar a bola numa
situação em que a defesa adversária tenha boa porção de campo às costas.
4 – Nas ocasiões em que a
primeira linha de marcação do Cruzeiro pressionou a origem da saída de bola, o
Flamengo não teve nenhuma dificuldade para evoluir até o campo de ataque.
5 – Após duas chances
cruzeirenses, uma com exibição dos recursos técnicos de Thiago Neves e outra
com um cabeceio de Léo, uma tabela entre Everton e Guerrero ameaçou o gol
defendido por Fábio. O que tem separado o Flamengo da validação de seu futebol
é a conversão desse tipo de jogada.
6 – Ao final do primeiro tempo no
Mineirão, o Cruzeiro foi competente para interromper a circulação do Flamengo
nas proximidades da área. A contundência de movimentos ofensivos é crucial ao
futebol de posse, algo muito mais complexo de fazer do que de dizer, embora
haja quem pense que a capacidade de frequentemente trocar passes até o gol
adversário seja uma questão simples.
7 – Essa confusão aparece porque
só se enxerga a falta de profundidade e/ou infiltração. Ocorre que outro
conceito fundamental do jogo elaborado é a ideia de “viajar junto”, ou seja,
quando um time se move e move a bola como um bloco único. Há momentos na
maioria das atuações do Flamengo em que a equipe se fragmenta, o que a impede
de se impor numericamente e facilita o trabalho de marcação.
8 – Com 32% de posse e
razoável presença no ataque, o Cruzeiro jogou como pretendia, pois se defendeu
com eficiência e manteve a ameaça que deixou a defesa do Flamengo em alerta
constante.
9 – Exemplo: grande passe
de Romero para a finalização de Éber na área. Thiago impediu o gol cruzeirense
no primeiro ataque da segunda metade, jogada que sugeriu um posicionamento mais
avançado do time dirigido por Mano Menezes.
10 – Mas a jogada pelo lado
voltou a dar frutos ao Flamengo. Acionado por Guerrero, Rodinei encontrou
Everton na segunda trave. O cabeceio raspou no poste e entrou, colocando o
Flamengo em vantagem e inaugurando um novo jogo no Mineirão.
11 – O placar durou seis
minutos. Outro bom passe, de Diogo Barbosa, criou o empate para Sassá, que
tinha acabado de substituir Élber. Com dois lances de infiltração pelo centro
da defesa para o passe profundo, o Cruzeiro conseguiu produzir dois gols.
Thiago evitou o primeiro.
12 – A chance da virada se
materializou no contragolpe em que Sassá ignorou Sóbis, livre, e chutou muito
mal. Foi a única oportunidade dessa natureza no trecho final, pois o Cruzeiro
se manteve adiantado para tentar ganhar o jogo contra a defesa posicionada.
13 – Empate frustrante para
ambos, porém coerente com o que o jogo mostrou. O Cruzeiro soube jogar de duas
formas diferentes e ser competitivo com ambas. O Flamengo novamente alternou
boas e más versões de seu plano, o que acionará as críticas a Zé Ricardo por
parte de quem – às vezes, com claro preconceito por se tratar de um
profissional iniciante – acha que a qualidade do elenco exige um técnico “de
nome”. Bobagem.

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