Falta pouco. Falta só o Messi.

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Messi com a camisa do Flamengo – Foto: Divulgação

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Flavio Loureiro é um sujeito espetacular. Paulistano, casado com
uma sobrinha de minha avó por parte de mãe, pai de quatro primos muito
queridos, Flavio é gente boa toda vida e corintiano roxo. Há mais de trinta
anos ele me contou sobre a bela maneira como se deu seu batismo no incomparável
mundo dos estádios de futebol, e eu lembro com clareza da história e de toda a
emoção dele ao narrá-la. Seu pai era português, torcia para a Portuguesa de
Desportos – um timaço à época – e escolheu um clássico contra o Corinthians
para levar o filho pela primeira vez ao campo. Com jogadores inexperientes e de
qualidade técnica inferior, o Corinthians correu o tempo inteiro, lutou em cada
pedacinho do gramado, não se intimidou, saiu para o jogo, construiu lances de
perigo, fez o goleiro da lusa trabalhar, mandou bola na trave. Perdeu, mas o
empenho e a garra fascinaram de tal maneira o então menino Flavio, que naquele
dia ele escolheu o clube para o qual torce apaixonadamente até hoje, aos
oitenta e um anos.

Por
ter acompanhado, no Maracanã, vitórias empolgantes e títulos memoráveis do
Flamengo, jamais vou fazer a apologia da derrota. Entretanto, eu também
presenciei algumas partidas e decisões das quais saí do estádio triste com o
resultado, porém orgulhoso do que o time fizera. Perder ou ganhar é do jogo, o
importante é que se lute o bom combate.
No
comecinho da noite de sábado eu estava em um bar, aqui em São Caetano, e a tevê
mostrava a partida entre Corinthians e Atlético Paranaense. Embora sem
acompanhar atentamente, foi possível perceber que o líder do campeonato não se
encontrava num bom dia. Apesar disso, houve pelo menos duas ótimas defesas de
Weverton, teve bola que passou entre as pernas do goleiro e não entrou sabe-se
lá por quê, bola que cruzou toda a extensão da linha do gol, a um palmo dela,
Jô e Fágner perdendo chances cara a cara, etc. Quer dizer: mesmo jogando mal, o
time tenta, vibra, insiste, cai pra dentro, vai pra cima. As últimas
apresentações que vi do Palmeiras foram péssimas, mas em todas elas aconteceu
mais ou menos a mesma coisa.
Corte
rápido para Cruzeiro e Flamengo se enfrentando no Mineirão, ambos ocupando a
parte superior da tabela. Clássico do futebol nacional, reunindo dois dos
quatro grandes clubes que jamais desceram à segunda divisão e somam nove
títulos do Campeonato Brasileiro, sete da Copa do Brasil e três da
Libertadores. Havia, ainda, o inesperado estímulo trazido pelo empate do
Corinthians no dia anterior.
Vamos
ao jogo.
Rafael
Vaz domina livre na entrada da nossa área e se move com elegância, numa ginga
que, caso Mestre Pastinha não estivesse morto há mais de trinta e cinco anos,
agora o mataria de inveja. O movimento, lento, leva alguns preciosos segundos,
que decerto ajudarão a engordar nossa estatística de posse de bola. Corpo
aprumado, Vaz toca lateralmente até Renê, a menos de quatro metros de
distância. Renê ergue a cabeça, o que nos enche de ânimo, só que desiste de
avançar e rola para Márcio Araújo. Como a bola sempre lhe queima os pés e o
assusta, nosso dedicado volante rapidamente a devolve a Rafael Vaz. Não saímos
do lugar. Vaz repete o movimento, agora girando o corpo para o lado direito, e
com uma pose danada empurra para seu companheiro Réver. Aí vem a emoção. Um
atacante adversário se aproxima, e nosso capitão recua a bola para o goleiro
Thiago, que dá um chutão ao léu – e ao léu, no caso, é sinônimo de ao Léo, nome
do zagueiro central cruzeirense. Bocejos.
Todas
as partidas de futebol, mesmo as mais emocionantes, têm lances como esse. O
problema é que o time vem abusando do direito de repeti-los, confrontando a
nossa paciência. Contra o Cruzeiro, jogadas semelhantes devem ter ocorrido, sei
lá, quatro, cinco, seis vezes. Se o sujeito toma um goró a mais no almoço, só
mesmo o amor incondicional ao Flamengo o impede de adormecer no sofá.
Tenho
um amigo que implicava com o estilo do Barcelona na melhor fase recente do
clube. Dizia ele: “Que tiqui-taca o cacete! É tiqui pra cá, taca pra lá, taca
pra cá, tiqui pra lá e nada acontece, até que a bola chega no Messi. Aí ele
domina, não passa pra ninguém, dribla três ou quatro, faz o gol e resolve.” Não
concordo com o argumento simplista, mesmo porque naquele time jogavam outros
dois dos grandes que vi nesta década – Xavi e Iniesta –, mas a entrelinha do
desabafo radical de Ramón (esse é o nome do meu amigo) traz algo que merece
reflexão.
A
posse de bola do Flamengo, inútil por não nos proporcionar boas chances em
quantidade e não impedir que o adversário as crie – como vimos contra Grêmio e
Cruzeiro –, às vezes se transforma em um cachorro girando em torno de si mesmo
para tentar morder o próprio rabo. Tocamos, tocamos, tocamos, não chegamos a
lugar nenhum e terminamos sem os três pontos, essenciais a quem pretende brigar
pelo título. Já que não temos o Messi para resolver, cadê a vibração, o
destemor e a intensidade que, da mesma forma que influenciaram meu primo Flavio
em sua opção pelo Corinthians, já fizeram com que milhões de meninos e meninas
escolhessem o rubro-negro para torcer?
Não
existe diversão maior do que ver o Flamengo em campo. E como a expectativa é
sempre enorme, não há nada tão decepcionante quanto ver o Flamengo jogar de um
jeito monótono e improdutivo. Minto. Há sim: ouvir Zé Ricardo explicar, de
forma racional e com argumentos quase científicos, por que, mais uma vez, não
jogamos bosta nenhuma.
JORGE
MURTINHO

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