Flamengo e Botafogo: caminhos opostos que se cruzam na semifinal

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Guerrero em Flamengo x Botafogo pelo Brasileirão 2017 – Foto: Buda Mendes/Getty Images

ANDRÉ
ROCHA
: Um time que, ao menos em tese, pode tudo no futebol brasileiro. Mas que
parece não fazer muita questão, ou não saber muito bem como chegar ao topo.
Outro que constrói suas vitórias e só tem chance de ir longe exatamente por
querer muito.

O
Flamengo do elenco milionário, ainda que não possa escalar as contratações mais
recentes na Copa do Brasil. O Botafogo dos recursos limitados, perdendo peças e
se virando com o que tem. Os rubro-negros que venceram o Carioca e estão fora
da Libertadores. Alvinegros que pelejaram no torneio continental desde as fases
preliminares e, por isso, foram obrigados a priorizá-lo, deixando o estadual um
pouco de lado.
A
equipe de Jair Ventura achou no gol de Joel Carli logo aos quatro minutos de
jogo no Nilton Santos a solução para não ser obrigado a propor o jogo e fugir
da maneira de atuar com a qual se sente mais confortável. Início com
intensidade, marcação no campo de ataque e apoio da torcida para sair na frente
o mais rápido possível.
Deu
certo. Ainda mais contra um Atlético Mineiro exposto, que adiantou as linhas,
teve 62% de posse e efetuou 34 cruzamentos. Mas de 11 finalizações apenas duas
foram na direção da meta de Jefferson. Já o Botafogo teve 22 desarmes corretos
contra apenas oito do oponente e acertou quatro finalizações no alvo, num total
de dez.
Assim
construiu os 3 a 0 com gols de Roger e Gilson, um em cada tempo, já perto do
final para não dar chances de reação ao adversário. Até quando vai às redes o
time parece fazer na hora certa, sabendo o que quer.
O Flamengo
também deu essa impressão, ao abrir o placar cedo na Vila Belmiro com o gol de
Berrío completando belo passe de Diego – mais um que ele encaixa com precisão
em contragolpe, com espaço. Mas, ao contrário de Jair Ventura, Zè Ricardo não
consegue compensar coletivamente as limitações de seus comandados.
Ou dos
que escolhe, como a inexplicável opção pelo retorno de Alex Muralha no gol,
deixando Thiago no banco. Como se os 2 a 0 da Arena da Ilha não fossem
reversíveis. Ou a Copa do Brasil, já nas quartas de final, fosse um torneio
menos importante para um time que está 12 pontos atrás do líder Corinthians no
Brasileiro.
Mesmo
fazendo o segundo gol com Guerreiro no início da segunda etapa, após sofrer o
empate com Bruno Henrique e ter corrido o risco de levar a virada no pênalti
assinalado por Leandro Vuaden e depois invalidado com a ajuda do quarto
árbitro, que observou que Rever tocou na bola na disputa com Bruno Henrique, o
Flamengo conseguiu se complicar.
Porque
a reunião de elos fracos sempre pode comprometer, ou ao menos complicar. Rafael
Vaz vacilou e cedeu escanteio bobo, empate com Copete. Márcio Araújo perdeu
duas disputas na proteção da retaguarda, a bola sobrou para Victor Ferraz
marcar 3 a 2 e fazer a remontada parecer possível no modo ”briga de rua” do
time de Levir Culpi. Jogo aberto com 29 finalizações – 16 do Santos e 13 do
Fla.
A
noite na Vila Belmiro só não foi histórica para o alvinegro praiano pelo
cansaço de quem sempre teve que subir a ladeira na partida e porque o gol de
Copete, em nova hesitação de Muralha, saiu no último minuto dos quatro de
acréscimo. No 39º cruzamento na área do time carioca, que perdeu força nos
contragolpes com a entrada de mais um elo fraco: Gabriel. Com Mancuello e
Vinicius Júnior no banco. A vaga veio mesmo no gol ”qualificado”. Ou por não
ter sido vazado no Rio de Janeiro. Com Thiago na meta.
Mesmo
classificado, o Flamengo novamente deixou o campo num jogo eliminatório
exalando fragilidade, sem transmitir a mínima confiança. O que os argentinos
chamam de ”pecho frio”. Exatamente o contrário do ”cascudo” Botafogo. De
Jefferson que voltou com autoridade à meta, de Matheus Fernandes, 19 anos com a
serenidade de um veterano no meio-campo. Do Roger da bela história de vida com
Giulia, sua filha deficiente visual. Do incansável Pimpão.
De uma
força mental que parece inabalável no mata-mata. Na semifinal da Copa do Brasil
e com classificação encaminhada para as quartas da Libertadores. Subindo e
descendo no Brasileiro, mas com campanha digna, na disputa do G-6. Sem recursos
generosos, sem holofotes. Mas com aquilo que é difícil definir e, na falta de
um nome, chamam de alma.
O que
o Flamengo vai precisar tirar de onde até agora não se viu para chegar à sua
sétima final de Copa do Brasil. Porque, até pela rivalidade fortalecida
recentemente nos bastidores, o Botafogo vai deixar tudo em campo nas duas
partidas. E não é pouco.
Os
caminhos opostos vão se cruzar no clássico carioca que vale vaga numa decisão
nacional. No papel há um favorito. No espírito, outro. Como balanços e
relatórios de finanças não entram em campo, o Bota hoje parece mais forte.

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