Flamengo é exemplo do que deveria fazer o Governo.

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Eduardo Bandeira de Mello, atual Presidente do Flamengo – Foto: Cris Dissat / Fim de Jogo

MERCADO
POPULAR
: Eduardo Bandeira de Mello foi eleito presidente do Flamengo em 3 de
dezembro de 2012 com 1414 votos, contra 914 da então presidente Patrícia
Amorim. O novo mandatário do clube, representando a “Chapa Azul”, se elegeu com
uma proposta de controlar o endividamento do clube e colocar as contas em dia.

Por
alguns anos – pelo menos até 2015 – o torcedor flamenguista conviveu com times
medianos. Ainda assim, em 2013, o Flamengo conseguiu beliscar uma Copa do
Brasil em final contra o Atlético Paranaense. Nesse período, porém, destaca-se
que o clube reforçou sua posição patrimonial: os passivos totais saíram de
assustadores R$866 milhões, em 2012, para R$578,5 milhões em 2016, como bem
mostram os balanços do clube.
Com as
finanças mais sólidas, o Flamengo pôde reforçar seu elenco. Se, em 2013, o time
contava com jogadores do nível de Luiz Antônio e Frauches, hoje o torcedor
vislumbra um “11 inicial” com Guerrero, Diego, Réver, Éverton Ribeiro e
Rhodolfo.

Hoje o
Flamengo gasta porque pode e tem dinheiro em caixa para tanto. Seus rivais, que
não fizeram a lição de casa, contam com elencos mais modestos, muitas vezes com
um “excesso” de garotos da base que subiram em um momento complicado do time.
Os elencos sofríveis parecem ter ficado para trás, e hoje o Flamengo briga em
todas as frentes que disputa.
E o que isso tem a ver com o governo?
É
amplamente conhecida a crise fiscal pela qual o Brasil passa. Há pelo menos 20
anos, os gastos do governo central vêm crescendo mais rápido do que o PIB. Como
resultado, eles saíram de cerca de 14%, em 1997, para perto de 20% do PIB, em
2016. O governo, ciente de que tal sistemática é insustentável, se viu obrigado
a aprovar a chamada “PEC do teto de gastos”, colocando uma camisa de força no
governo e impedindo que a sanha gastadora tivesse prosseguimento.

O
chamado “resultado primário” do governo central (isto é, as receitas do governo
excluídas das despesas, antes do pagamento de juros) saiu de um superávit de
2,5-3% do PIB, antes da crise de 2008, para um déficit perto de 3% do produto,
e não deve voltar ao campo positivo até meados da próxima década.

Como consequência, a dívida bruta, como % do PIB, vem em
trajetória explosiva há pelo menos 3 anos, com algumas projeções indicando uma
aproximação dos 3 dígitos ao longo dos próximos anos.

A
situação de hoje se deve não apenas ao ímpeto gastador dos últimos anos, mas
também a fatores estruturais que remontam à Constituição de 88. Por força da
lei, há diversos mecanismos que obrigam elevações automáticas do gasto. Tome
como exemplo a vinculação do piso previdenciário ao salário mínimo; as
vinculações orçamentárias da saúde e da educação; o funcionalismo público,
irredutível e indemissível, entre tantas outras. Some a isso o rápido
envelhecimento da população brasileira e o leitor terá ideia do tamanho do
problema fiscal brasileiro.
É um
erro acreditar que a irresponsabilidade com as contas públicas é uma maneira de
beneficiar os mais vulneráveis e menos favorecidos. Muito pelo contrário: a
solidez fiscal é que permite a expansão dos programas sociais e dos gastos que,
ao fim e ao cabo, de fato chegam aos mais pobres. Não é o “neoliberalismo” quem
sucateia o Estado, mas sim o populismo fiscal que, quando numa crise – como a
de agora – se vê obrigado a cortar gastos na boca do caixa, sem planejamento e
atacando exatamente aqueles que pretendia ajudar, justamente por estes não
terem poder político e de lobby para manterem seus interesses no orçamento.
Em
termos de atividade, Carlos Góes mostrou como um ajuste fiscal traz
benefícios de longo prazo. Um país muito endividado, como o Brasil, pode colher
bons frutos ao controlar seus gastos. A sinalização de maior zelo com as contas
públicas leva a uma queda do chamado “prêmio de risco” – o que significa que os
investidores têm menos receio de emprestar ao governo -, derrubando os juros e,
por consequência, gerando mais crescimento à frente. A maior sustentabilidade
fiscal reduz os juros reais estruturais, beneficiando investimentos e
atividade.

Conclusão
Tanto
o governo quanto a população brasileira deveriam aprender com o Flamengo – que,
diga-se de passagem, não o time para qual torço, antes que o leitor desconfie
de algo. Os anos de paciência com times fracos e sem grandes ambições renderam
frutos ao torcedor. Se o time do Flamengo ainda não se encaixou – e o técnico
Zé Ricardo busca soluções para tal -, também é verdade que, hoje, o torcedor
pode sonhar com grandes conquistas.
O
ajuste fiscal promovido pela gestão Bandeira de Mello colocou o Flamengo numa
trajetória que, se mantida, parece muito virtuosa à frente. Não se trata de
defender o atual presidente do clube, mas de reconhecer o mérito de sua gestão.
A lição que o rubro-negro deixa é uma só: o ajuste dói hoje, mas traz ganhos
amanhã; o não ajuste, por outro lado, condena-nos à mediocridade sem fim.

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