Flamengo não prioriza mais o Maracanã e foca em estádio próprio

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Projeto de estádio para o Flamengo – Foto: @neocrf / Divulgação

SOCIO
ECONOMIA
: Por Renan França e Camila Nogaroli*

Alvo
de uma disputa interminável entre clubes, consórcio e o Governo do Rio, o
Maracanã virou um intrincado desafio financeiro. O estádio mais famoso do país
está sem administrador definido desde meados de 2016, e deixou de ser a casa
dos times cariocas – e de torcedores apaixonados que lotavam as arquibancadas.
De
acordo com dados levantados pela equipe do socioeconomia.org, os custos do
aluguel e da operação da arena ficaram tão altos que só é viável atuar lá em
partidas com grandes públicos. O balanço da concessionária Maracanã S.A., que
está em vias de devolver o estádio ao governo estadual, mostra que o prejuízo
administrativo nos últimos três anos é de quase R$ 150 milhões. Procurada por
telefone e e-mail, a concessionária, comandada pela Odebrecht, não enviou o
posicionamento.
Mas,
afinal, como um palco que recebeu duas finais de Copa do Mundo se tornou
impagável?
O
levantamento nos ajuda a entender os custos do Maracanã e por que há um
desinteresse em mandar jogos no estádio. Por meio do estudo de borderôs
disponibilizados pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ),
foi feita uma análise de receitas e despesas de duas partidas do Campeonato
Carioca e duas disputadas pelo Brasileirão. Nas duas competições foram
selecionados jogos em 2009 e em 2017.
Em
2009, dois anos antes de começar a reforma do estádio, Flamengo e Botafogo
disputaram a final do Campeonato Carioca. A arrecadação da bilheteria foi de
R$1,9 milhão, com um público pagante 78.393 pessoas – o preço médio (média do
valor do ingresso de todos os torcedores pagantes) para o jogo foi de R$25,38
(cerca de R$42 em valores atuais corrigido pela inflação do período).

neste ano, a receita total do Fla-Flu que decidiu o título do Carioca foi de
R$3,2 milhões. Só que a despesa da partida foi de assustadores R$2,1 milhões –
três vezes mais do que em 2009. De acordo com o borderô do jogo, foram vendidos
58.399 ingressos, a um preço médio de R$55,51. Em outras palavras, em menos de
um década, o preço médio do ingresso para uma final do Carioca aumentou R$ 30
reais para um público pagante 26% menor (embora o estádio tenha diminuído, não
atingiu sua capacidade máxima).
TORCEDORES
PROTESTAM CONTRA O PREÇO DO INGRESSO
A
análise aponta que a reclamação dos torcedores de que os clubes de futebol
cobram preços abusivos, especialmente quando jogam no Maracanã, não é lá tão
precisa. O ingresso ficou, sim, mais caro, o que afastou parte dos torcedores
mais humildes dos estádios. Mas as despesas subiram muito mais.
Como o
Maracanã pós-Copa passou a ser gerido por um consórcio de empresas, para um
time atuar na arena é preciso desembolsar cifras milionárias. Na final do
Carioca deste ano, de acordo com o boletim financeiro da partida, o custo de
alugar e operar o Maracanã foi de R$ 1,1 milhão. Outras despesas como a taxa
destinada à Federação Estadual de Futebol do Rio (FERJ), aluguel de grades, que
ficaram mais caras, entre outros, somam outros R$ 1,1 milhão. Cada clube
recebeu R$ 522 mil. A receita bruta total foi de cerca de R$ 3,2 milhões.
As
despesas atuais são tão exorbitantes que, há oito anos, os dois clubes
finalistas do Carioca levaram para casa R$ 649 mil, cobrando um ingresso mais
barato. A diferença é que, à época, o Maracanã pertencia à antiga Suderj, um
órgão do governo estadual que cobrava apenas R$ 54 mil pelo uso do estádio.
– É
possível reduzir os custos do Maracanã, mas para isso seria necessário uma
série de intervenções. Nós queremos trazer torcedores de todas as classes de
volta, mas para isso é possível montar uma equação financeira que fique de pé.
Administrar o estádio já foi uma prioridade no clube, mas hoje o projeto do
estádio próprio está cada vez mais forte
– afirma Alexandre Wrobel,
vice-presidente de patrimônio do Flamengo.
Comparação financeira entre os jogos decisivos
do Campeonato Carioca de 2009 e 2017

PANORAMA
SEMELHANTE NOS JOGOS DO CAMPEONATO BRASILEIRO
Pode
parecer absurdo, mas se cada clube que joga no Maracanã quisesse ter o mesmo
lucro do passado, o ingresso teria um preço ainda mais alto. Tome como exemplo
o jogo entre Flamengo x Goiás, em 2009, disputado na reta final do Campeonato
Brasileiro. Na ocasião, a partida teve 78 mil pagantes e uma renda de R$1,4
milhão – com preço médio do ingresso a R$ 18,70 (R$ 29,21 em valores atuais
corrigido pela inflação do período). Como as despesas ficaram em R$ 431 mil, o
time rubro-negro levou para casa R$ 1 milhão.
Neste
ano, o jogo de abertura do Campeonato Brasileiro, entre Flamengo e Atlético-MG
– o único do time rubro-negro na arena -, levou 42 mil torcedores pagantes ao
estádio. A arrecadação do jogo foi de R$ 1,8 milhão (com preço médio a R$ 42),
e o lucro do time da Gávea foi de R$ 469 mil. Renda maior, lucro menor.
Se o
Flamengo quisesse ter o mesmo lucro de oito anos atrás, deveria ter praticado
um preço médio de ingresso de R$ 64,78. Ou seja, R$ 22 a mais do que a média
paga pelo torcedores.
– Uma
parte da explicação do aumento do ingresso é o custo, mas, no caso do Maracanã,
existe a questão das gratuidades para crianças até 12 anos e adultos acima dos
65 anos. Essa carga de ingresso concedida pelo governo através de lei estadual
acaba também onerando os custos – afirma Edmilson Varejão, vice-presidente da
Secretaria Geral do Flamengo. – As entradas gratuitas poderiam servir como
forma de atrair o público mais humilde que se afastou do estádio. Mas para isso
deveria haver um critério socioeconômico de distribuição dos tíquetes.
Comparação financeira entre os jogos do
Campeonato Brasileiro de 2009 e 2017

PLANEJAMENTO DE RECEITAS QUE NÃO SAÍRAM DO
PAPEL
Durante
o período de obras do Maracanã para a Copa e a Olimpíada, planejou-se que
haveria receitas além da bilheteria para sustentar custos adicionais como o um
moderno sistema de iluminação e de som, ar-condicionado e novos elevadores e
escadas rolantes. Contava-se, então, com adicionais como venda de camarotes,
arrecadação de estacionamento em dias de jogos e recursos obtidos com a
construção de um shopping center onde funciona o parque aquático Júlio
Delamare. Nenhum dos projetos, porém, saiu do papel.
Para o
advogado, especialista em direito esportivo, Pedro Trenghouse, os custos do
estádio poderiam ser menores, mesmo sob administração privada.

Muitas vezes se fala no custo do estádio, mas que custo é esse? Será que
concessionária fez boas escolhas ao selecionar fornecedores de alimentação,
segurança e manutenção? O estádio é muito caro e poderia ser barateado. Em São
Paulo, o Palmeiras escolheu um modelo que é viável. O Maracanã precisa seguir o
mesmo caminho.
O
Governo do Rio planeja uma nova licitação para encontrar um dono que administre
o estádio e consiga gerar receitas. Com tantas prioridades urgentes, ainda não
há data para o lançamento do edital.

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