Futebol não é coisa para pobre?

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Torcedor pobre do Flamengo no Estádio Ilha do Urubu – Foto: Yuri de Castro

EL
PAÍS
: Por Breiller Pires

Atual prefeito de Belo Horizonte, o ex-presidente do Atlético-MG,
Alexandre Kalil, é taxativo ao manifestar sua opinião sobre o alto preço dos
ingressos cobrado pelos grandes clubes brasileiros. Como chefe do Executivo da
capital mineira, ele vetou um projeto de lei que previa a venda de 30% da carga
total de bilhetes a preços populares nos estádios de BH. Em entrevista ao EL
PAÍS, o ex-cartola justifica a posição: 

“No mundo inteiro, futebol não é coisa
para pobre. Doa a quem doer. Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e
entrada a preço de banana estragada só existem no Brasil. O Atlético coloca
ingresso a 20 reais e não lota o estádio. Futebol não é publico, não é forma de
ajuda social”.

Ele se
vangloria de ter presidido o clube na partida que não só garantiu o primeiro
título de Libertadores do Atlético, mas também a maior renda de uma partida de
futebol realizada no Brasil. A final contra o Olimpia no Mineirão contou com a
presença de 58.620 torcedores, que pagaram em média 250 reais pelo ingresso, e
arrecadou mais de 14 milhões de reais. No entanto, em tempos de futebol pobre
do time, foi o próprio Kalil quem consagrou a prática de colocar ingressos a 5
reais para atrair a massa alvinegra, como em 2008, quando o clube amargou o 12º
lugar no Campeonato Brasileiro. “Isso foi em outra época”, argumenta o
ex-dirigente.
Seu
pensamento, porém, reflete a posição de boa parte dos dirigentes brasileiros,
que surfaram na onda das novas arenas construídas para a Copa do Mundo e,
praticamente em sincronia, inflacionaram o valor de entrada nos estádios. Mas o
movimento de elitização das arquibancadas se inicia bem antes da Copa, no
rastro da instituição do sistema de pontos corridos pelo Campeonato Brasileiro,
em 2003. Com mais jogos garantidos no calendário, surgiram as exigências de
elencos numerosos para resistir à maratona de jogos na temporada e de estrutura
moderna para preservar atletas de alto rendimento. Assim, os clubes aumentaram
os custos de seus departamentos de futebol e, consequentemente, tiveram de
repassar parte da conta ao torcedor. Se no início dos anos 2000 os jogadores
mais bem pagos do futebol brasileiro raramente ganhavam mais de 100.000 reais,
atualmente há equipes com cacife para desembolsar aproximadamente 1 milhão de
reais por mês a um só craque. Uma gastança justificada, em parte, pela evolução
das receitas. O Atlético-MG, por exemplo, saltou de 58 milhões de faturamento
anual em 2008, ano do primeiro mandato de Kalil como presidente, para 316
milhões de reais na última temporada.
E as
contas a pagar têm sido a resposta pronta da cartolagem: sem ingresso caro, não
há com bancar um time competitivo, repetem os executivos. Filosofia seguida à
risca nos dois clubes de maior torcida do país, Flamengo e Corinthians. Nem
mesmo o boom dos planos de sócio-torcedor, que passaram a representar parte
considerável da receita dos clubes e, ao mesmo tempo, restringiu ainda mais o
acesso aos estádios, frearam a crescente insatisfação de seguidores que sentem
a fidelidade ao time do coração pesar no bolso. Desde a inauguração da Arena
Corinthians, em 2014, as principais organizadas alvinegras têm protestado
contra a escalada dos preços para frequentar as arquibancadas. Recentemente,
foi a vez dos rubro-negros subirem o tom depois de o Flamengo estrear em sua
nova arena, a Ilha do Urubu, cobrando preços entre 100 e 360 reais.
Embora
ambos os clubes contem com planos de sócio pretensamente populares, as
modalidades mais baratas garantem apenas preferência na compra de bilhetes, e
não descontos. Torcedores do Flamengo que pagam 30 reais mensais pelo plano
mais acessível, por exemplo, ainda tiveram de desembolsar mais 140 reais para
assistir à última partida do clube como mandante no Brasileiro, diante do
Grêmio. A lei da oferta e da procura não parece ditar o ritmo de inflação dos
ingressos. Corinthians e Flamengo acumulam taxas de ocupação de 63% e 49%,
respectivamente. Faz sentido ter tantos lugares vazios nas arquibancadas com
valores de bilheteria tão altos? Para Amir Somoggi, consultor de marketing e
gestão esportiva, “se o clube mexer no preço, não consegue mais subir quando a
demanda for maior”. Ele aponta uma alternativa para ajustar a precificação à
ocupação do estádio: adaptar ao mercado brasileiro o modelo da venda antecipada
de carnês de ingressos para toda a temporada, tal qual o praticado por equipes
de ligas norte-americanas e europeias.
A
realidade é ainda mais cruel com torcedores de baixa renda que sonham torcer
pela seleção em território nacional. Os ingressos mais baratos nos últimos
compromissos do Brasil pelas Eliminatórias da Copa do Mundo custavam 200 reais
(inteira). Para comparecer ao jogo nos setores “populares”, o trabalhador
brasileiro que recebe um salário mínimo (937 reais) teria de torrar 21% de sua
renda mensal em uma só noite. Os preços dos camarotes vão muito além. Na partida
entre Brasil e Paraguai, na Arena Corinthians, a entrada VIP saiu pela bagatela
de 1.000 reais. Todos os 44.378 ingressos colocados à venda foram
comercializados, cravando a terceira maior renda da história do futebol
brasileiro: 12,3 milhões de reais. A segunda foi registrada também em partida
recente da seleção, contra a Argentina, no Mineirão: 12,7 milhões de reais.
Enquanto
clubes e federações seguem colhendo frutos da elitização, apesar dos clarões
cada vez mais constantes nas arquibancadas, a reação dos torcedores excluídos
pode ultrapassar as barreiras do mero não comparecimento. De acordo com
Alexandre Kalil, o que explica a dificuldade dos clubes com as baixas taxas de
ocupação é a selvageria recorrente nos estádios, mas ela pode estar diretamente
relacionada, como adverte o professor e doutor em sociologia do esporte,
Mauricio Murad, ao encarecimento dos ingressos. 

“Excluir do espetáculo o
torcedor das camadas mais pobres, que sempre esteve vinculado ao futebol, já é
por si só uma forma de violência”, afirma o especialista em comportamentos de
torcidas. 

“Há a falsa ideia de que a elitização diminui a violência no futebol.
Pelo contrário. Como a violência não escolhe renda ou classe social, levar para
dentro do estádio um público restrito, pasteurizado, significa espalhar a
maioria pelo resto da cidade. E é justamente isso que dificulta o combate a
grupos violentos.”

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