Mais uma vez a violência tomou o lugar do espetáculo.

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Vinicius Júnior, do Flamengo, se protegendo de gás de pimenta em São Januário – Luciano Belford/AGIF

ESPN
FC
: Por João Luis Jr.

Não
existe jeito certo ou jeito errado de torcer, por mais que algumas pessoas
possam tentar te dizer que existe. Tem gente que gosta de ir ao estádio, tem
gente que prefere assistir em casa. Tem gente que fica de pé, gritando o tempo
todo, tem gente que gosta de estar sentado observando meticulosamente o jogo,
sem risco de deixar de ver um passe, um chute, uma mera cobrança de lateral.
Algumas pessoas têm superstições que vão desde o lugar de sentar até a meia pra
usar, outras pessoas apenas sentam e assistem porque nenhuma superstição sua
pode interferir mais no resultado do que essa superstição do técnico do seu
time de escalar sempre o mesmo volante.
E
torcer não precisa ser sempre uma coisa boa. Afinal, quando você torce por um
time, você vai viver desde as sensações mais positivas possíveis, um gol, uma
vitória, um título, até as sensações mais terríveis, um gol contra, uma derrota
humilhante dentro de casa, uma eliminação de competição importante no último
minuto. A experiência emocional esportiva, como todo sentimento, é cheio de
versões e possibilidades, e cada um de nós também sente isso de uma forma
diferente, desde o cara que não consegue dormir depois de uma derrota até o
cara que consegue pegar no sono se a partida for chata o bastante.
Tudo é
experiência, tudo isso é torcer, tudo isso é futebol.
Mas
ainda que exista esse monte de versões do que é torcer, infitinitas leituras do
que é a experiência do futebol, tem coisas que não tem absolutamente nada a ver
com isso. Violência não tem nada a ver com futebol. Ódio não tem nada a ver com
futebol. Perder pode te exaltar, perder pode te irritar, mas, se perder te fazer
querer agredir uma outra pessoa, o problema não é o futebol, o problema não é
torcer, o problema claramente é você. Se o que você sente pelo seu rival não é
um senso de competição, uma necessidade de vencer, mas sim ódio e a vontade de
que ele desapareça da face da Terra, o problema não é o futebol, o problema não
é a rivalidade, o problema é você.
Porque
o futebol, por mais que ele pareça ser um universo em separado de todas as
outras coisas, é uma experiência social e, portanto, precisa ser vivido dentro
das regras da sociedade. Desde homofobia até violência física, uma bola rolando
e vinte e dois caras correndo atrás dela não é atenuante para absolutamente
nada. Se não seria aceitável um grupo de pessoas gritando “bicha” dentro de um
shopping, não é aceitável dentro de um estádio de futebol; se você no seu
trabalho não pode descarregar as suas frustrações agredindo pessoas, não existe
razão para imaginar que isso poderia ser razoável apenas porque um evento
esportivo aconteceu antes.
E isso
não é negar o quão especial o futebol é, o quão diferente e específica é a
paixão esportiva. É apenas lembrar que o futebol é uma parte da vida e também
uma parte da sociedade em que a gente vive, onde ele foi criado para ser uma
parte positiva, divertida, não uma fonte de violência. Ele é um campo de
catarse, de viver intensamente emoções e deixar de lado as preocupações? Claro.
Mas se a sua catarse envolve violência, se as preocupações que você deixa de
lado envolvem o bem-estar do seu semelhante, o respeito pelo próximo, então
você não ama futebol, você não ama torcer. Você ama algumas outras coisas e
está apenas usando o futebol como um veículo para isso.
[Eu
gostaria muito de conseguir usar esse espaço para falar do lindo drible do
Éverton Ribeiro, da vitória que coloca temporariamente o Flamengo em 2º lugar,
mas, quando existe violência, quando existe morte, a gente acaba lembrando que
o futebol, apesar de imenso, das maiores coisas do mundo, ainda é pequeno perto
do valor que uma vida deveria ter. O futebol infelizmente vai ter que ficar pra
outro dia.

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