O dirigente inconsequente e o Nenê chorão

97
Nenê e Everton em Vasco x Flamengo – Foto: Reprodução

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Jorge Murtinho

Ao
contrário do que confessadamente ocorre com o Sr. Eurico Ângelo de Oliveira
Miranda, as partidas entre Vasco e Flamengo não me dizem nada de especial. Em
minha formação rubro-negra, foram bem mais marcantes os clássicos com
Fluminense e Botafogo – esses últimos, então, as pedras nos sapatos da minha
iniciação futebolística.
Não dá
para negar que, após desmedidos esforços para sapecar no jogo o carimbo de
maior rivalidade do futebol carioca, Eurico conseguiu tirar o Vasco da
coadjuvação que ocupava sobretudo junto à classe média da cidade. (Às leitoras
e aos leitores que não são do Rio vale lembrar que, dos grandes clubes locais,
o único cuja sede principal não fica na privilegiada Zona Sul é o Vasco.)
Entretanto, o preço pago por isto supera a pior das expectativas: a insensata
repetição de que ao Vasco pode acontecer de tudo, menos perder para o Flamengo,
tem contribuído para apequenar o futebol cruz-maltino.
Eurico
Miranda não pode ser responsabilizado pelas selvagerias entre os fanáticos por
Corinthians e Palmeiras, Goiás e Vila Nova, Bahia e Vitória, e tantas outras
Brasil afora – a discussão é complexa, envolve análises sociais e
antropológicas, estudos sobre mudanças no comportamento do homem quando se vê
atuando em grupos, necessidades de pertencimento, banalização da violência no
dia a dia dos nossos centros urbanos, temas que ultrapassam em muito os
objetivos do blog e a capacidade do blogueiro. Por outro lado, também é
inegável que, nos casos específicos das brigas entre as torcidas organizadas de
Vasco e Flamengo, e dos próprios vascaínos entre si ou com a polícia, Eurico e
sua estranha obsessão têm culpa no cartório.
Desde
a metade de 2015, com a chegada de Guerrero ao Flamengo, até o início do atual
campeonato, quando o zagueiro Rodrigo deixou o Vasco, as pinimbas entre os dois
marcaram os clássicos e transformaram Rodrigo em persona non grata para boa
parte dos rubro-negros. Pois eu nunca vi desta forma. Ele catimbava,
intimidava, batia, apanhava, só que me parecia um sujeito transparente. Ao
contrário do que penso a respeito de Nenê. Dissimulado, cai-cai, superestimado
e chorão.
Durante
a partida do último sábado, Nenê ergueu os braços algumas vezes, reivindicando
a marcação de pênaltis quase tão absurdos quanto o que foi assinalado no
segundo turno do Campeonato Carioca, já nos acréscimos, e permitiu ao Vasco
empatar o jogo. Também reclamou do juiz Anderson Daronco no gol anulado de
Pikachu, quando deveria se queixar com Luis Fabiano pela desnecessária entrada
em Léo Duarte: o erro do nosso zagueiro aconteceu antes da falta, que foi
indiscutível. Não satisfeito, Nenê encerrou sua entrevista à saída do gramado
com um muxoxo ridículo: “É sempre assim. Sempre contra a gente”. Tadinho. De
modo geral, somos condescendentes com os jogadores e sempre procuramos
limpar-lhes a barra, relevando o fato de que esse tipo de discurso serve ao
acirramento do ódio mútuo e, embora não pareça, ajuda a empurrar o Vasco cada
vez mais buraco adentro. Problema deles.
Um dos
maiores equívocos que nós, torcedores, cometemos é o de comparar partidas
diferentes. Temos o vício de dizer: ah, como é que o Flamengo empata com um
time que perdeu de tanto para não sei quem? Futebol não comporta esse tipo de
raciocínio. O atual líder do campeonato, com nove pontos de vantagem, empatou
em casa com o time no qual enfiamos cinco a um. A mesma Alemanha que massacrou
a seleção brasileira na semifinal da Copa de 2014 tinha cortado um dobrado
para, nas oitavas de final, eliminar a Argélia na prorrogação. Tolice achar que
o Vasco enfrenta Corinthians e Palmeiras do mesmo jeito que encara o Flamengo.
O
clássico em São Januário foi duro, pegado e tenso, Guerrero apanhando, batendo
e reclamando como sempre, o Vasco correndo em quarenta e cinco minutos o que
obviamente não conseguiria correr o jogo inteiro, nenhuma oportunidade real no
primeiro tempo. O Flamengo precisou absorver os desfalques na zaga, com Réver
vetado no aquecimento, Rhodolfo sentindo uma fisgada logo aos dezessete e a
insegurança trazida pela presença de Léo Duarte – fruto de um erro grosseiro do
nosso departamento de Futebol, já que o correto seria tê-lo colocado em campo
desde o começo da temporada, mais vezes e em partidas menos cascudas.
Conforme
se poderia prever – outra coisa que nosso altíssimo padrão de exigência costuma
ignorar é que futebol tem noventa minutos –, o Vasco não aguentou o ritmo da
marcação e as oportunidades vieram.
Sempre
que um jogo é excessivamente brigado, aumenta a possibilidade de ser decidido
por conta do talento individual. Foi o que vimos na linda jogada de Everton
Ribeiro, concluída por Everton. É justo e merecido, ainda, destacar os
trabalhos de Rafael Vaz e Márcio Araújo – dois caras bastante criticados,
inclusive por mim.
Apesar
de não ter sido uma grande exibição, foi uma vitória extraordinária. Eurico
Miranda pode falar o que quiser, Nenê tem o direito de chorar que nem criança
com cólica, e os torcedores vascaínos que acreditem no que lhes for
conveniente. Mas um time com Diego, Guerrero e Everton Ribeiro será sempre
favorito diante de outro que tem Paulão, Rafael Marques e Wellington.
Futebol
não tem tanta lógica, mas tem o mínimo.

COMENTÁRIOS: