Por que a dificuldade em se propor o jogo só cresce no Brasil?

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Diego durante Cruzeiro x Flamengo – Foto: Pedro Vilela/Getty Images

ESPN: Lá
se foram três anos do 7 a 1 e alguns paradigmas, aos poucos, vão sendo
quebrados no futebol brasileiro. É possível ver, mesmo que ainda sem a
velocidade ideal, alguma evolução no esporte por aqui. E existe um
movimento  de ruptura neste momento que
fomenta determinadas discussões sobre o futebol no Brasil. Uma delas, e que
começa a ganhar corpo nos últimos meses, é sobre a crescente dificuldade de se
propor o jogo. E o nosso parâmetro, como não poderia ser diferente, é o
Campeonato Brasileiro de 2017.

Então
vamos lá. Primeiro é bom ressaltar que essa reflexão fica ainda mais importante
ao olharmos sob o ângulo do que é a cultura do futebol no Brasil. O jogar bem
para nós está diretamente ligado ao fato de ter a bola, de se construir através
do refinamento técnico de nossos jogadores. Toques rápidos, tabelas, dribles…
Propor o jogo é o futebol ideal e chega a ser “obrigação” para
qualquer brasileiro, principalmente quando se trata de equipes de maior
expressão ou poderio financeiro.
Por
conta disso somos predispostos a torcer o nariz para equipes
“defensivas”. Vemos na retranca algo a ser combatido.  Sinceramente, não vejo nenhum problema em
acreditar e executar tal estratégia. Simplesmente por que jogar bem, ao meu
ver, está ligado à execução da proposta e das ideias, desde que elas existam. E
sabemos que é rotineiro ver equipes que nem um plano parecem ter. Nestes casos
o buraco é muito mais embaixo.
É
possível jogar bem e ter o controle de um jogo sem a bola. Neste caso, equipes
apostam em uma postura mais reativa, que nada mais é que não tomar as rédeas do
jogo, mas sim responder às ações do oponente. Tento sempre enxergar o futebol
de uma forma mais democrática, entendendo que existe espaço para todos e
diferentes formas de se ganhar uma partida ou campeonato. No entanto,
precisamos nos preocupar quando já não enxergamos com tanta clareza estas
diferentes ideias de jogo. Já que elas são tão normais. A situação fica
alarmante quando caminhamos (TODOS!) para a mesma direção.
Vivemos
sim um período de grande dificuldade em ter a bola. São cada vez mais raras as
equipes que conseguem atuar de forma propositiva em solo brasileiro. Vemos,
progressivamente, os gols sendo construídos por meio de contra-ataques. Não
podemos confundi-los com ataques rápidos, que são uma situação diferente. Neste
caso, temos um exemplo que tem acontecido muito: induz o adversário a defender
uma zona do campo, tira essa bola da pressão e ataca com velocidade no lado
oposto, já com o adversário desequilibrado. Apesar de ser uma construção mais
trabalhada, ainda se trata da velocidade a qualquer custo. Os dois gols na
partida entre Cruzeiro e Flamengo, no último domingo, são grandes exemplos do
quanto falta espaço e repertório para se criar através de uma posse mais
trabalhada.
O Grêmio
talvez seja a equipe que melhor lida com a posse por aqui. Com um jogo de
passes envolventes, seguidos movimentos de apoio, mobilidade e muita
infiltração, o time de Renato Gaúcho é quem mais se aproxima do Jogo de
Posição, conceito turbinado por Pep Guardiola desde os tempos de Barcelona. Usa
vários fragmentos da ideia geral, talvez até mais próximo do conceito de Ataque
Posicional (que é um braço do Jogo de Posição), mas como ponto principal do seu
modelo a necessidade de ter a bola.
Líder
do Brasileirão, o Corinthians ainda vive um momento de implantação de ideias.
Iniciou o ano de uma maneira mais pragmática, preocupado primeiro em se
defender bem. Temos também que levar em consideração que isso se deu muito pela
necessidade de resultados imediatos, já que Fábio Carille, antes de tudo,
precisava de segurança para ao menos pensar em construir alguma coisa no cargo.
Atualmente, os alvinegros desenvolvem melhor essa construção ofensiva. Se
baseia nas triangulações e ataque aos espaços para superar as defesas
rivais.  Por conta de partidas como
contra Palmeiras e Grêmio, ambas fora de casa e quando optou estrategicamente
por dar a bola ao adversário, ainda sofre com o rótulo de retranca, coisa que
já se distanciou a bastante tempo.
O
exemplo do Corinthians já nos traz um primeiro ponto importante sobre esta
discussão. Sempre pressionados a entregar vitórias (e para ontem!),
independentemente de como elas venham, nossos treinadores buscam os atalhos.
Dançam conforme a música e se preocupam primeiro em se defender bem, já que ao
menos o empate está garantido nesta ótica. Mesmo que sem desempenho, os
resultados podem aparecer e dar sustentação para caminhos mais longos à frente
dos clubes. Quando não aparecem, rua! Ou seja, a nossa cultura imediatista, de
alguma forma, interfere diretamente na qualidade do nosso jogo.
Flamengo,
Atlético-MG e Palmeiras, os maiores investimentos do país, ainda buscam suas
identidades e oscilam justamente por não terem dominado totalmente essa fluidez
ofensiva quando estão com a posse. No caso dos paulistas, temos que levar em
conta a ruptura de um trabalho no meio do percurso. Trocar Eduardo Baptista por
Cuca foi como substituir água por vinho. O mérito nem é sobre um ser melhor que
outro, mas sim da imensidão de diferenças de as ideias entre eles. Então, temos
um segundo ponto que entra nessa reflexão sobre propor melhor o jogo em
território nacional. Os clubes, a cada contratação e demissão, comprovam que
não sabem nem o tipo de futebol que querem praticar. Sem modelo, sem norte…
Agora
vamos aos pontos mais técnicos do assunto, que não estão diretamente ligados à
má gestão e a cultura do nosso futebol. Está cada vez mais evidente que o
futebol é algo cíclico. Novas ideias surgem, novos antídotos são criados. Se
cria uma posse de bola mortal, aparecem organizações capazes de dizimá-las.
Retrancas ganham, são furadas e depois perdem. Se joga com linhas defensivas de
três, quatro e agora até cinco… Tudo dentro de se criar e resolver problemas,
que é o que explica bem a lógica do futebol em si. E ainda com o
“agravante” de que a velocidade e os números de ações por minuto só
crescem na modalidade. É óbvio que, com o futebol mais veloz, as jogadas de
gols tendem a ser mais rápidas. Mas existe alguns pontos a serem discutidos ainda.
Eis
que sempre surge a velha expressão: “Destruir é bem mais fácil do que
construir!”. Não vejo deste modo. Encaro apenas como coisas distintas e
que, sem conhecimento e conteúdo, nenhum treinador consegue desenvolver. Ambas
são difíceis de fazer com máxima eficácia, mas são bem diferentes de serem
trabalhadas. Defender, no futebol praticado atualmente, está muito atrelado ao
conceito de se controlar espaços. Naturalmente acabam por ser movimentos mais
mecânicos e combinados. Flutuação do bloco defensivo, linhas de coberturas,
maneiras de induzir os adversários a atacar de uma certa forma ou lado… Todas
ideias que, bem estimuladas e repetidas, costumam surtir efeitos mais
imediatos. É mais racional e menos emocional.
Preocupados
com seus empregos e em ter mais “tranquilidade” para atacar, os
treinadores brasileiros absorveram mais rapidamente estas “fórmulas”
para proteger suas metas. Hoje, definitivamente, defendemos muito melhor e de
uma forma muito mais organizada se olharmos para cinco temporadas atrás. Tite,
atual treinador da Seleção Brasileira e que sempre buscou na escola italiana os
exercícios e comportamentos defensivos, talvez seja uma das maiores referências
e inspirações no que se refere ao trabalho de linha defensiva no país. Junto de
Mano Menezes, que também domina estes conceitos da linha de quatro,
praticamente criou uma identidade para o Corinthians, que atualmente colhe seus
frutos. De certa forma, isso virou uma influência por conta de todos os
resultados atingidos. O problema é que, em várias situações, as influências são
mal compreendidas.
Vemos
por todos os cantos ideias, seguidores e execuções de maneiras totalmente
diferentes. Afinal, as referências no futebol podem ser as mesmas, mas a forma
como você as trabalha são sempre distintas. Temos sempre que levar em conta
vários fatores do futebol, tanto internos quanto externos. Para quebrar
qualquer argumento de que existe uma “cartilha da vitória”, temos
logo de cara o fato de que os atletas nunca são os mesmos. Nós, como indivíduos,
não somos. Então não adianta copiar nada. Você pode sempre ter uma referência e
trabalhar dentro dela, mas os resultados serão sempre heterogêneos.
Atualmente
Tite é um treinador mais completo. Já se colocou, mais uma vez, à frente do
tempo por aqui. Agora compreende melhor os nuances da construção ofensiva. Seu
trabalho à frente da Seleção e no Corinthians de 2015, já nos mostra um maior
equilíbrio entre as diferentes fases do jogo. Um caminho que, mais cedo ou
tarde, os outros treinadores vão começar a desbravar, já que atacar nos remete
a outros conceitos e particularidades. Nem mais fácil nem mais difícil.
A
palavra criar, por si só, nos explica muita coisa. Atacar, gerar espaços, achar
o improvável dentro de todo um sistema organizado, exige muito do senso
imaginário dos jogadores. Do aleatório, da sua capacidade de improvisação para
diferentes situações que terá pela frente. Serão frações de segundo para
escolher uma decisão dentro de centenas possíveis. E isso sempre dentro de um
contexto coletivo, com a necessidade de escolher a mesma coisa que o
companheiro e, principalmente, que pegue seu oponente desprevenido. Trata-se de
um conceito bastante complexo e que tive contato faz pouco tempo, chamado de
Comunicação no Futebol. É uma ideia teorizada e aplicada na Periodização do
Futebol, do holandês Raymond Verheijen.
Comunicar
os atletas dentro de campo, em diferentes setores, exige tempo e muita
repetição. Qualquer que seja o treinamento escolhido, trabalhar essa conexão é
imprescindível. Principalmente por se tratar de uma comunicação não-verbal. Os
movimentos, os sinais corporais, as reações dentro de um momento do jogo…
Tudo isso pode e deve ser estimulado no dia a dia. Mas é praticamente
impossível adquirir tamanha sintonia já que raramente é possível trabalhar com
um só elenco durante toda uma temporada. Por aqui se constrói e se desfaz um
plantel a cada seis meses. E sem falar na realidade do nosso calendário onde
vivemos no ritmo do joga, recupera, joga, recupera…
Todos
estes argumentos usados até aqui, apesar de relevantes, também não podem servir
como muletas para treinadores que não buscam esse algo a mais. Sabemos que
alguns profissionais que vivem sentados nos nomes e nas conquistas passadas.
Claro que cada caso é um caso, mas ter todo esse cenário difícil pela frente
não pode ser uma desculpa definitiva para os problemas no dia a dia. Cabe a
cobrança e o questionamento sobre o que tem sido desenvolvido em seus
respectivos clubes. Para isso, é necessário um melhor entendimento do jogo de
todos que o cercam: imprensa, gestores, dirigentes, torcedores,
jogadores… 
Consegue
perceber o quão complexo é toda essa discussão? O número de fatores que implica
na qualidade do jogo que praticamos no Brasil? De como é impossível apontar um
só vilão dentro de todo um universo caótico como este?  Cabe a nós, cada vez mais, pensar melhor o
futebol e tirar nossas próprias conclusões. Afinal, você está contente com a
qualidade que assiste de quarta e domingo? Eu não.
Me
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