Porque a torcida do Flamengo não aguenta mais Zé Ricardo

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Faixa “Tirem o Zé Ricardo” segurada por jogadores do Flamengo – Arte: FlaResenha.com

GLOBO
ESPORTE
: Zé Ricardo tem 86 jogos pelo Flamengo, com 48 vitórias, 23 empates e
15 derrotas. Técnico dos juniores até maio do ano passado, é o profissional
mais longevo da Série A. O aproveitamento é de 64%, menor apenas que Fábio
Carille – com cerca de 70% no Corinthians. Sob seu comando, o Fla teve a sua
melhor campanha da história nos pontos corridos no Brasileiro (em que terminou
em terceiro lugar no ano passado) e foi campeão carioca invicto neste ano.

Se há
números favoráveis (veja mais abaixo), a rejeição ao trabalho de Zé Ricardo não
lhe dá nem minutos de paz desde a eliminação na Libertadores – agravada com a
pressão dos últimos dias. Nos estádios ou redes sociais, o coro de “fora,
Zé Ricardo” ecoa entre torcedores rubro-negros.
As
críticas são em cima de escalações, substituições e até opiniões colocadas em
entrevistas coletivas após empates ou numa das seis derrotas no ano. Antes do
GloboEsporte.com explicar quais principais reclamações de torcedores do
Flamengo contra Zé Ricardo, cabe lista de números favoráveis ao trabalho do
treinador.
O
compilado abaixo faz parte do anuário de 2017 do site Futdados.com entre todos
os 20 clubes que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro.
* O
Fla tem o segundo melhor aproveitamento no ano (67,38%). Corinthians tem o
melhor aproveitamento na temporada, com 72,73%.
* O
Fla tem 27 vitórias em 47 jogos, dividindo a liderança deste quesito na
temporada com o Corinthians, que também tem 27 vitórias, mas três jogos a
menos. O Rubro-Negro é o terceiro time que mais empatou; o segundo que menos
perdeu (foram seis derrotas. O Timão tem duas).
* O
Flamengo é o time que tem melhor saldo de gols (49) em 2017. É ainda o time que
mais fez gols (88) na temporada (entre os 20 clubes da Série A). Na média de
partidas, fica abaixo apenas do Grêmio, com 1.87 dos rubro-negros contra 1.91
dos gremistas.
* O
Flamengo é o quinto time que menos sofreu gol na temporada, com a quarta menor
média de gols sofridos (0,83).
Quais são as maiores queixas contra o
treinador?

Ricardo “estreia” no futebol profissional neste trabalho pelo
Flamengo. Apesar da pressão de parte da tocida e dos críticos também de dentro
do clube – está longe de ser unanimidade na diretoria -, o presidente Eduardo
Bandeira de Mello, o diretor geral Fred Luz e o diretor de futebol Rodrigo
Caetano garantem o treinador no cargo e aguentam a pressão pela demissão do
técnico.
Alguns
pontos explicam a rejeição a Zé. Uma rejeição capaz de fazer coro na Ilha do
Urubu, no sábado passado, após a vitória no último minuto, por 2 a 1, sobre o
Coritiba. Nas redes sociais, os ataques são constantes. O treinador até evitar
tomar conhecimento do que se fala na internet, como lembrou na entrevista
coletiva antes da partida contra o Corinthians.

Acompanho pouco redes sociais. Não faço planejamento ou tomo decisões em cima
de redes sociais. Semana passada vieram me mostrar, muita gente brincando de
forma pejorativa com o que aconteceu com o Ederson. Então, como vamos dar
atenção a redes sociais? Temos nossas convicções junto com a comissão. Procuro
trabalhar dentro de campo, ver o que se produz no treino e observo adversários
– disse o treinador.
Confira
abaixo alguns dos pontos mais sensíveis do trabalho de Zé Ricardo:
Insistência em jogadores rejeitados
Márcio
Araújo talvez seja o nome mais criticado pelos torcecores nos últimos anos. No
começo da temporada, ele chegou a perder a vaga para Rômulo, recém-chegado do
futebol russo. No entanto, acabou voltando logo ao time. Zé já disse diversas
vezes que confia muito no atleta.
No
scout do Flamengo, ele era o jogador que tinha a melhor média de desarmes por
partida, além da segunda colocação em números absolutos. Neste ano, nas
estatísticas por partida da TV Globo, Márcio segue liderando o quesito no
Flamengo – é o 12º maior ladrão de bolas do Brasileiro (média de 2,13. O
são-paulino Jucilei lidera com 2,88 por partida).
Outro
nome contestado é do zagueiro Rafael Vaz, que formou, ao lado de Réver, dupla
de zaga eficiente no ano passado. Este ano, Vaz perdeu a vaga para o argentino
Donatti (que deixou o clube nesta janela de transferências do meio do ano) e
depois também virou reserva de Rhodolfo, voltando após a lesão do reforço,
deixando Juan como terceira opção. Vaz foi titular nos últimos seis jogos. No
entanto, fica fora contra o Corinthians.
Gabriel
não é uma unanimidade entre os rubro-negros e não jogava há mais de dois meses
por conta de uma fratura da costela. Para irritação de torcedores, o baiano
ganhou chance no segundo tempo do jogo da última quarta-feira.
Critérios questionados
No ano
passado, Mancuello entrou no fim da partida contra o Cruzeiro e fez o gol da
virada em Cariacica. Em seguida, ficou no banco e não entrou em quatro partidas
seguidas no Brasileiro, embora ficasse sempre no banco de reservas.
Situação
parecida viveu Vinicius Júnior, que passou ao profissional depois da venda ao
Real Madrid e teve sequência como titular. Na semana passada, na vitória por 2
a 1 diante do Coritiba, Zé colocou o jovem em campo. O garoto, que sofreu o
pênalti, vinha de uma sequência de três jogos sem ser relacionado, o que gerou
novas críticas de torcedores aos critérios adotados.
A
entrada de Alex Muralha no jogo de volta da Copa do Brasil também serviu de
munição para os críticos de Zé Ricardo. O goleiro levou gol defensável na
cabeça de Copete e saiu mal do gol no quarto dos santistas. Zé justificou a
escalação com a experiência de Muralha, frente ao jovem Thiago. Agora, Diego
Alves é o dono do gol do Flamengo. Muralha é o primeiro reserva.
Inflexibilidade de esquema de jogo
Uma
crítica constante ao treinador é a fidelidade a um sistema de jogo. A rigor,
porém, a forma de atuar com pontas abertos, que atacam e marcam laterais, é
pouco modificada no futebol brasileiro. É também o modelo preferido de Zé
Ricardo, que já usou Everton, Gabriel, Fernandinho, Matheus Savio, Marcelo
Cirino, Berrío, Rodinei e Éverton Ribeiro em toda a passagem pelo Flamengo. Em
algumas partidas – como em jogos fora de casa na Libertadores -, Zé trocou
peças e escalou três jogadores, originalmente, volantes (Willian Arão, Rômulo e
Márcio Araújo).
Recentemente,
tentando adaptar a entrada de Éverton Ribeiro à equipe, para jogar próximo de
Diego, também mexeu no esquema ao colocar Cuéllar e Márcio Araújo. O colombiano
chega menos ao ataque do que Arão, mas marca muito mais que o antigo titular,
agora na reserva. Sem Diego, Zé também testou Trauco em algumas partidas como
meia de criação.
Entrevistas após as partidas
Questionado
sobre a atuação de Muralha contra o Santos, Zé Ricardo protegeu seu goleiro,
disse que “foi bem”, o que já gerou críticas imediatas ao treinador,
que, evidentemente, estava protegendo seu jogador naquele momento. O hábito de
parabenizar o time por dedicação nas partidas – mesmo em derrotas – também vira
alvo de comentários negativos de torcedores.
Nas
últimas coletivas de imprensa, Zé Ricardo tem feito análise mais críticas até
mesmo após vitórias. Muitos torcedores cobravam discurso mais enérgico em
derrotas e se revoltam com a avaliação de partidas do treinador. Contra os
goianos, o técnico disse que “o gol muito cedo” atrapalhou o
Flamengo. No contexto, ele queria dizer que houve acomodação na partida, até
ressalvando que o gol no início de jogo deveria servir de melhora à equipe.
Soluções (“invenções”?)
discutíveis
A
entrada de Matheus Sávio no segundo tempo da partida contra o San Lorenzo na
Libertadores é lembrada por muitos torcedores como “invenção” do
treinador – comparada à substituição de Vanderlei Luxemburgo na semifinal da
Copa do Brasil de 2014, quando o Rubro-Negro foi eliminado pelo Atlético-MG.
Em
entrevista ao jornal “O Globo”, no fim de junho, Zé Ricardo disse que
“não mudaria as substituições” e lembrou que naquele instante tinha
Ederson, que voltava de lesão, ou Matheus Savio, que acabou perdendo a bola no
primeiro gol e não conseguiu cortar a jogada na virada que eliminou o Flamengo.
A opção por Rodinei na ponta-direita, inicialmente, também foi motivo de
queixas num elenco com outras opções, mas o lateral teve bom desempenho e
sequência positiva, o que aliviou as críticas.
Quem
acompanha o dia a dia de Zé contesta as supostas “invenções” – termo
comum de ser usado no futebol para improvisações de jogadores ou mudanças não
convencionais – , lembrando que ele faz testes em treinamentos e orienta os
jogadores sobre as mudanças possíveis e improvisações deste tipo. “Os
jogadores nunca são pegos de surpresa com as substituições”, relata um
membro do departamento de futebol.
Sem
dois zagueiros disponíveis neste momento, Zé tem colocado Rômulo de zagueiro em
algumas atividades. O volante pode, inclusive, ser improvisado contra o
Corinthians.
Evolução de jogo
Internamente,
não só na torcida e em redes sociais, há avaliação de que, com os nomes que têm
a sua disposição, o Flamengo joga menos do que poderia e apresenta jogo mais
“pobre”, com criação ainda dependende da qualidade de um elenco de
alto nível. Esta análise reconhece que o time até consegue dominar jogos, mas
têm dificuldade de matar partidas e ganhar confrontos decisivos – na
Libertadores perdeu jogos em condições semelhantes para a Católica e
Atlético-PR fora de casa; no Brasileiro, venceu o Vasco em São Januário depois
de mais de 40 anos, mas se salvou da derrota no último minuto contra o
Fluminense, não conseguiu superar o Botafogo e empatou também contra o Cruzeiro
e o Palmeiras, em duas partidas que saiu na frente no placar.
A
defesa de Zé Ricardo, dentro do clube, lembra também que o Flamengo, se não
venceu alguns desses confrontos, foi melhor do que o adversário em todas essas
partidas – até contra o Grêmio, que perdeu com gol de Luan, no primeiro tempo.
Há a percepção de que o time segue evoluindo – talvez em ritmo inferior ao
esperado – e que o fato de adversários esperarem o Flamengo no campo de defesa
até em casa (como o Cruzeiro no Mineirão) provam a força do jogo rubro-negro.

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