Sem apoio do Estado, Fundação acerta parceria com o Flamengo

37
Foto: Divulgação

EXTRA
GLOBO
: Sobrou a bola para fazer o trabalho que tanques de guerra e fuzis não
conseguiram na Vila Cruzeiro. Com o retrocesso no processo de pacificação e a
falência financeira no Rio, um projeto esportivo que atendia a centenas de
crianças na comunidade perdeu o apoio do Estado, mas agora ganhou o reforço da
Fundação Mané Garrincha, que fará uma parceria com o Flamengo em um trabalho de
responsabilidade social inédito no clube onde “Mané” jogou no fim da carreira.

A
diretoria rubro-negra já aprovou a contratação de uma empresa para desenvolver
um plano diretor e propor um orçamento para a área. O apoio institucional
imediato será promover aulas mensais de futebol com ex-jogadores no mesmo campo
de areia onde Adriano deu os primeiros chutes a gol.
Nos
últimos dias, o vice-presidente do Flamengo, Maurício Gomes de Mattos esteve no
local com o ex-jogador Julio César Urigueller e o neto de Garrincha, Luiz
Marques, que lidera a Fundação. A ideia é usar a estrutura do Atitude Social,
projeto que oferece esportes e outras atividades aos jovens há anos, mas que
quase fechou as portas por falta de repasse do Governo do Estado.
O
local se tornaria um polo de onde meninos poderiam sair para testes no Ninho do
Urubu. Oswaldo Fonseca, coordenador da área de responsabilidade social, confirma
que o Flamengo tem interesse em apoiar o núcleo, mas ressalta que a ideia é
embrionária.

Ainda não tem um valor dedicado à responsabilidade social. Com o plano diretor
preparado vamos verificar como sustentar, as parcerias. Queremos um projeto para
ter empregabilidade se os atletas não conseguirem ficar no mercado. E
aproveitar nossos ex-atletas — explicou o profissional do clube.
O
vice-presidente confirmou que o Flamengo está “namorando” com o projeto e já
convenceu outros dirigentes a colocar a ideia adiante no clube esse ano.
— O
sonho é ter uma parte do orçamento para cobrir esse investimento. E botando
nosso ex-atletas recebendo por esses projetos. A porta está aberta. Estamos
namorando — declarou Mattos.
Bota ainda não sinalizou apoio a neto de
ídolo, que não escolhe clube
Luiz
Marques, neto de Garrincha, chegou a jogar no Vasco, no Fluminense e no Olaria,
onde seu avô encerrou a carreira. Aos 31 anos, o herdeiro do Mané confessa que
deixou o futebol cedo pelos excessos, assim como o avô. E antes que fosse tarde
se dedicou a ajudar crianças a seguir um bom caminho usando o nome da família.
A prima, Sandra Garrincha, lhe apresentou o trabalho do Atitude Social, e a
fundação abraçou a causa há um ano, procurando ajuda de clubes e até da CBF.

Acrescentamos a marca Mané Garrincha ao Instituto. E buscamos parcerias com o
Botafogo e o Flamengo, onde meu avô jogou no Rio. Queremos patrocínio para
manter professores e complementar — explica Luiz, que consegue da CBF material
para as aulas na Penha, onde já morou. O neto do ídolo do Botafogo procurou o
clube primeiro, mas a diretoria ainda não sinalizou o apoio.
— O
nome Garrincha não precisa ser ligado ao Botafogo. Meu avô deu alegrias para
milhares de pessoas. Muitos iam a Maracanã para vê-lo sem ser botafoguense.
Mane Garrincha é do povo — diz o neto.
O
Botafogo informou, através do vice de marketing Marcio Padilha, que a intenção
do clube no momento é ajudar na divulgação do projeto, e que também programa
uma visita para avaliar o potencial em agosto.
Secretaria não pagou e não renovou
contrato
O
socorro pedido aos clubes para o projeto na Vila Cruzeiro veio depois de a
Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social do Governo do Estado
deixar de repassar, em 2015, os valores para ONG Atitude Social. Presidente da
entidade, Sandra Vieira precisou interromper parte das atividades ano passado
pois os funcionários não recebiam salários.
— Não
tinha como manter 50 funcionários. Desde que parou buscamos novos parceiros
para voltar — explica.
Ao
lado do campo de areia, um prédio de três andares ainda oferece natação, aulas
de luta, dança, música, entre outras atividades, mas com menos turmas.
— Não
tem professor. Atendíamos até oito mil crianças. Hoje tem espaço mas não tem
mão de obra. Da até lágrima nos olhos. Não posso abandonar. Vai ficar na mão de
quem? — emociona-se Sandra.
A
atual gestão da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, que
assumiu em fevereiro, informou que o convênio não foi renovado por problemas de
documentação da ONG. Sandra alega que, sem pagamentos, não conseguiu emitir as
certidões necessárias.

Queriam renovar sem pagar. O juiz está acionando o Estado — conta.

No
fim, quem paga a conta são as crianças da Vila Cruzeiro.

COMENTÁRIOS: