Só o Flamengo põe fim à crise no Brasil

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Guerrero, Diego, Berrio e Réver comemorando gol do Flamengo – Foto: Alexandre Loureiro/Getty Images

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Marcelo Dunlop

(Advertência:
o autor, com receio de não ser inteiramente entendido nesta crônica de batismo
no prestigiado portal República Paz & Amor, incluiu um glossário ao fim do
texto para esclarecer o uso de termos obscuros (como, por exemplo, “glossário”)
e palavras advindas do português arcaico (como “Eurico Miranda”.)
Estava
no carro voltando do Flamengo x Grêmio na quinta-feira, pensando no talento do
Leandro Damião – ou seja, em nada – quando enfim compreendi tudo. A gente aqui
achando que o clube está disputando o Campeonato Brasileiro de 2017 para valer,
sonhando com o hepta, mas na verdade o objetivo é outro, muito mais louvável.
Sim, o
Flamengo cansou de ser apenas o principal “trem pagador do futebol nacional”,
como a crônica o consagrou, e se imbuiu de uma missão ainda mais árdua:
resolver nossa gravíssima crise econômica. Segura que o papo é sério.
Me
responda, leitor mirim de Miriam Leitão, como começou toda essa pindaíba de que
padecem os brasileiros? Resposta rápida: com o mercado de combustíveis, a
partir da crise política causada, como se sabe, pelo fim abrupto do contrato
entre Flamengo e Petrobras nos idos de 2009. Deu-se a partir daí o crescente
aumento da gasosa, o que ajudou a empurrar a inflação mais do que o Márcio
Araújo no Cuéllar.
E o
que faz o C.R. Flamengo Ilimitado em 2017, com o objetivo insuspeitado de
reaquecer o setor? Aluga até 2019 um estádio a uns 20km de todos os principais
bairros do Rio de Janeiro, sem acesso pelo subterrâneo, barca ou asa delta, e
ajuda a salvar o país. Sim, são 18km da Ilha do Governador a Caxias, 19km até o
Maracanã ou o Centro, 25 até Copacabana e mais de 30 para a Barra. Tática mais
genial que os anúncios do posto Ipiranga.
Não
foi a primeira vez, claro, que a instituição rubro-negra intervém para ajudar
com soro caseiro à nossa economia desarranjada. Lembram da crise do açúcar em
1822, não? Quem não lembra. Especialistas da PUC-Rio garantem que a treta
financeira só foi dar uma melhorada mesmo em 1895, quando nasceu o Mais
Querido. E o Milagre Econômico de 1968? Seria coincidência ter ocorrido um ano
após a chegada do menino Zico à Gávea? Se ainda estiver em dúvida, reveja os
índices da hiperinflação brasileira dos tempos de Sarney e Collor, que
começaram a amansar, “por acaso”, no ano do penta em 1992.
O que
parece coincidência e bravata, na verdade, explica-se pelo tal “desânimo” ou
“otimismo” do mercado. Sim, economia é abstração, é consumo e investimento
baseados na confiança e boa vontade. E como pode um país se manter submerso na
crise quando um terço dele está gastando rios até com um Cavalinho do Mengão de
pelúcia, um bem supérfluo que custa 50 mangos na porta do estádio? Numa
recessão desse tamanho, só o Flamengo consegue fomentar tantos empregos e
subempregos, do vendedor de salsichão ao Eurico Miranda.
Assim,
esqueça Henrique Meirelles e outros bolhas. O que pode salvar o Brasil mesmo
são as ações e decisões rápidas dos doutores Diego Ribas e Paolo Guerrero. Há
apenas um singelo problema. Para que o ousado plano econômico de Bandeira de
Mello & equipe funcione, é preciso que o escrete brilhe e honre o Manto;
que o torcedor saia do estádio de peito inflado, e não como se deu nessa
quinta-feira.
Para
provar o que digo e não soar como pilhéria, cito um cronista meio esquecido, o
Henrique Pongetti. Em 1964, no jornal “O Povo”, Pongetti reproduziu o papo que
teve com um diretor estrangeiro de uma “poderosa indústria metalúrgica do
Estado da Guanabara.” O jornalista mandou (e a nobre doutora Marizabel Kowalski
registrou, em bela tese presente na internet):
– Pode
responder com franqueza: o operário brasileiro é inferior em rendimento ao seu
equivalente de países de grande tradição industrial?

Absolutamente! O operário brasileiro assimila os ensinamentos com uma rapidez
espantosa, e produz tanto como seus melhores colegas estrangeiros, desde que
obtenha a mesma assistência moral e material. Paz de espírito, paz do coração,
paz do estômago. Mas é emotivo, e pode produzir menos sob o impacto de um
acontecimento qualquer, sem ligação direta com seu destino ou de alguém de sua
família.
– Por
exemplo…?
– Uma
derrota do Flamengo. São como greves emocionais sem interferência de
sindicatos: mais lágrimas do que suor; um grande e respeitável sofrimento…
Senhores
José Ricardo & membros do time, ilustríssimos irmãos flamengos, atenção
portanto: o resto da temporada não tem nada a ver com a busca de mais taças
para a nossa sala de troféus. Trata-se de atuar e empurrar o time pensando na
estabilidade econômica de um gigante chamado Brasil, quase tão imenso e
complicado quanto nossa humilde Nação Rubro-Negra.
* Glossário:
Eurico Miranda:
vice-rei de São Januário. Acompanhado invariavelmente por um segurança e um
charuto, ambos acesos. Dizem que foi convidado a sair do PP, então partido de
Maluf e Bolsonaro, pois sua figura queimava o filme dos colegas, vê se pode.
Imbuiu: não, nada a ver com
Buiú, vá abrir um dicionário.
Maracanã: arena parecida com o
Coliseu, só que mais arruinada.
Pilhéria: chiste, piada.
Exemplo: “Gosto do Ramires, seria um baita reserva para o Márcio Araújo.”
Sarney: um Eurico de bigode.

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