Todas as paçocas do mundo

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Berrio durante Santos x Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

FUTEBOLZINHO:
O Flamengo se classificou para a semifinal da Copa do Brasil. Não foi uma
classificação bonita. Foi um sufoco de maluco. Ainda bem que metemos 2 gols nos
caras no jogo de ida. Na Vila Belmiro o Flamengo conseguiu tomar em apenas 90
minutos mais gols do que tinha tomado durante todo o mês de julho e apresentou,
para extrema preocupação dos observadores mais atentos, a mesma tremedeira que
assolou o time na macabra noitada no Nuevo Gasómetro em maio. E não existe pior
encarnação do Flamengo do que o Flamengo que treme. Aquele Flamengo que ao se
aproximar do triunfo esquece quem realmente é, se dobra ante a pressão e
entrega docilmente todas as paçocas do mundo. Afasta da Nação esse cálice, pai.
Ganhar, perder, eventualmente empatar, são coisas do jogo, mas, por favor, sem
tremer. O Flamengo, classificando-se ou não, vencendo ou não, não pode tremer.

Não
tremer nem sempre é o suficiente, às vezes é preciso jogar alguma bola. Na
noite da Vila Belmiro o Flamengo jogou muito pouca bola. Algumas atuações foram
abaixo da crítica, Diego, a despeito da enfiada diabólica para Berrío em nosso
primeiro gol, segue jogando mal e fazendo a bola correr demais nos momentos
errados, imprimindo uma dinâmica equivocada que desanda o time todo. Vaz nem
vou comentar, tá de miolo mole, pedindo pra sair. Mas ninguém mandou pior que
Zé Ricardo. A barração de Tiago e a escalação de Muralha foram desastrosas. Zé
Ricardo conseguiu arrasar com dois goleiros com apenas uma burrada.
Aliás,
Zé Ricardo alcançou o limite no quesito dar mole. E posso falar com isenção,
defendo ferrenhamente a manutenção dos treinadores ao longo das temporadas.
Demissões só ao fim das competições, como já ensinaram as grandes equipes na
Europa. A entrada de Gabriel no 2º Tempo mesmo com Vinicius Jr, Mancuello, Conca
e sei lá quem mais no banco evocou a funesta substituição de Everton por
Matheus em recente Copa do Brasil. Soou provocativa até. Zé Ricardo está
bulindo com forças elementais da natureza das quais obviamente ignora a
extensão do poder destrutivo. É melhor que não fique de bobeira e conserte
rápido as trapalhadas que anda fazendo. É hora de esquecer as lealdades e ser
fiel apenas ao compromisso com a vitória. Não seria inédito na história do
Flamengo demitir um treinador às vésperas de uma final de Copa do Brasil.
Enfim,
o jogo foi ruim, o placar não traduziu com fidelidade o que aconteceu em campo,
mas em compensação o pós-jogo está espetacular. É por causa do que aconteceu
depois que o juiz apitou o fim do jogo que os sorrisos voltaram a iluminar os semblantes
rubro-negros. Nem todo rubro-negro se emociona com a arcoirizada mal vestida se
rasgando por nossa causa. Só os normais. E os rubro-negros normais passaram um
alegre dia seguinte ao jogo assistindo embevecidos aos patéticos ataques de
pelanca de dirigentes dos Santos e de alguns jornalistas que se indignaram com
a não marcação de um pênalti contra o Flamengo. Notem que foi pênalti
inexistente a olho nu, que até o colérico David Brás tem consciência que jamais
aconteceu.
Mas já
disseram por aqui antes, o futebol brasileiro não acontece numa bolha ética.
Ele acontece num país convulsionado, oprimido pela violência e por governantes
ladrões sem o menor escrúpulo. Impressionante seria se o futebol não refletisse
em seu espelho cada ruga, imperfeição, espinha, verruga e cratera moral que
enfeiam a cara do Brasil atual.
Seguindo
o mau exemplo do Fluminense em 2016, dos advogados de Temer em 2017 e da
Comissão de Ética do Senado Federal desde sempre, entre outros arautos da moral
relativizada, os dirigentes dos Santos mobilizaram suas milícias jurídicas para
pugnar em defesa do direito do Santos para roubar ou, suavizando os termos, ser
beneficiado por erros de arbitragem. Ora, quando se questiona a aplicação
correta das leis ou das regras em nome de um suposto respeito a regimentos,
regulamentos ou regrinhas lavradas por algum burocrata, está se defendendo
apenas o salvo conduto para delinquir que as elites plutocráticas nacionais
consideram ser um direito que seus filhos podem herdar. E a exemplo do que ocorre
nas esferas politicas, aparecem do nada serelepes representantes do 4º Poder
dispostos a dar eco e referendar qualquer safadeza urdida pelas cúpulas
dirigentes. É uma vergonha pela qual o tempo se encarregará de fazer as devidas
cobranças.
Contudo,
o Flamengo avança. No perrengue, no sufoco, contra tudo e contra todos. O ano
não tem sido fácil pra quem fecha com o certo. Nós bem que merecemos essa
molezinha de pegar o Foguinho na semi. Chega de sofrer. Partiu Tetra!
Mengão
Sempre
Arthur
Muhlenberg

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