Um Flamengo sem equilíbrio para disputar o título

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Éverton Ribeiro quase marcando em Flamengo x Grêmio – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE
CRUZADO
: Por Pedro Henrique Torre

No mundo pós-catástrofe da Libertadores, oscilar tem sido uma rotina
do Flamengo. Não há um equilíbrio nas atuações, o retomar de um padrão. Diante
de adversários menos qualificados, como Bahia e São Paulo, é possível deixar o
campo vitorioso mesmo quando abaixo do padrão. Já contra de rivais do mesmo
patamar, como o Grêmio, é difícil triunfar sem bom futebol. Desorganizado, o
time acabou abatido por 1 a 0. Perdeu não só a invencibilidade na Ilha do
Urubu, mas um jogo-chave na campanha do Brasileiro. Indício de um time que
precisa, também, de equilíbrio psicológico.

Geralmente
em jogos de grande peso, nos quais a importância de um triunfo emana claramente
da arquibancada, este Flamengo sente dificuldades. A partida derradeira na
Libertadores, diante do San Lorenzo, foi assim. Talvez por isso a bola queimou
um pouco nos pés rubro-negros no início da partida, gerando erros de passes. A
disputa no meio seria intensa e o controle do jogo passaria por ali. Foi onde o
Flamengo não se encontrou.
Cuellar
e Márcio Araújo se revezavam entre avanços e o resguardar da defesa. Diego,
sozinho e centralizado, acabava engolido – e por vezes caçado – por Michel e
Arthur. Vivia noite ruim, de decisões infelizes. As pontas ficaram isoladas.
Everton sufocado e, no outro lado, Everton Ribeiro tentava driblar a todos
sozinho. Em alguns momentos combatia três e até quatro gremistas de uma só vez.
No ataque, Guerrero fazia enorme falta. Enquanto peruano faz o pivô, domina e
dá sequência às jogadas, Damião mostra dificuldades. A bola batia no ataque e
voltava ao domínio rival. Um Flamengo sem diálogo. Muito em conta do
posicionamento perfeito do Grêmio.
A
equipe de Renato Gaúcho preza muito pela técnica, vasta troca de passes,
movimentação dos volantes e de Ramiro e Luan. Mas sabe se defender bem.
Organizado, o time não dava espaços para o Flamengo crescer em casa e dominava
a partida, saindo com facilidade para o ataque, escondendo a bola entre os
passes diante de um Flamengo que tinha dificuldades para encontrá-la. Principalmente
com Luan. É um meia ou um atacante? Joga atrás de Barrios, mas também se
esconde bem dos volantes e entra na área. Nesse espaço, o Grêmio conseguiu ser
eficiente e abrir vantagem.
Muito
em conta do nível abaixo do recomendável de algumas peças do elenco
rubro-negro. Ainda mais em um duelo deste porte. Em bola levantada na esquerda,
Rafael Vaz deixou a área para cobrir a lateral. No buraco, Luan penetrou diante
de Márcio Araújo, que tinha a possibilidade de desarmá-lo. Mas a furada impediu
também o combate de Cuellar, ao seu lado. O gremista avançou, contou com a
sorte no bater de bola em Trauco e chutou fraco para o gol. Thiago, no entanto,
aceitou. Em três pontos contestados do elenco rubro-negro, o Grêmio saltou na
frente.
Sofrer
o primeiro gol, ironicamente, serviu como um alívio para o jogo do mandante. O
Flamengo teve mais espaços diante do um Grêmio mais recuado. Avançou casas,
tentou colocar a bola no chão e girar o jogo. Durou pouco. Rapidamente, com a
dificuldade de sempre diante de adversários bem fechados, passou a alçar bolas
na área. Com uma dupla de zaga tão segura como Geromel e Kannemann, ficou
difícil. A solução foi tentar a aproximação, dos lados para o centro, e
arriscar chutes de fora da área. Everton Ribeiro e Cuellar exigiram boas
defesas de Léo, enquanto Everton acertou a trave. Parecia promissor para o
segundo tempo.

Ricardo não mudou. O time melhorou apenas o ímpeto ofensivo. Tentou trabalhar
mais a bola, entrar na área, finalizar. Mas duas finalizações no meio do gol,
no goleiro do Léo, tiraram a paciência do técnico, que surpreendeu. Sacou
Márcio Araújo e colocou Geuvânio em campo. Pareceu indicar o time do 4-2-3-1 a
um 4-1-4-1, com Geuvânio na direita, Everton na esquerda, Diego e Everton
Ribeiro pelo meio, à frente de Cuellar. O Grêmio era mais defensivo do que de
costume, mas sem desespero. Nem mesmo quando Vaz quase marcou de cabeça, em
cobrança de escanteio. No minuto seguinte, em vacilo de Diego, Fernandinho
roubou a bola e tocou para Luan se enrolar. Chance de ouro perdida. A ansiedade
de Zé Ricardo aumentou e o Flamengo começou a esfarelar.
Vizeu
e Mancuello nas vagas de Cuellar e Trauco não indicavam um time mais ofensivo.
Mas, sim, mais desorganizado. Era difícil até entender o posicionamento
rubro-negro. Diego manteve a pegada de recuar demais até a defesa. Parece
cansado nos últimos jogos. Dividia com Mancuello a responsabilidade pelo meio,
enquanto quatro jogadores tentavam o ataque desesperadamente. Um jogo pobre,
bagunçado. Um tudo ou nada que dependeria de individualidades, como ocorreu
contra o São Paulo e o Vasco, por exemplo. Nem sempre acontece. Renato Gaúcho
reforçou a defesa com um terceiro zagueiro o fim. Temia o empate em uma bola
vadia alçada na área. Tinha sentido com o receio.
Os
números transpareciam a desorganização rubro-negra. Foram 35 cruzamentos na
área. O Grêmio, por sua vez, fez só cinco em toda a partida. 21 finalizações
rubro-negras. Ansiosas, sem direção e algumas com boa participação do goleiro
Léo. Apenas quatro gremistas para resultar em um gol. Vitória merecida aos
gaúchos, castigo compreensível aos cariocas, agora a 12 pontos do líder
Corinthians. Antes de pensar em disputar o título, arrancar para a glória, o
Flamengo deveria pensar em si. Pôr fim à oscilação, praticar um jogo coletivo e
eficiente para arrancar resultados. Parecia estar retomando o padrão anterior à
eliminação da Libertadores. Não está. Só a partir daí poderia evoluir. Falta
muito a um elenco tão farto.

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