“Vascaíno é ensinado a odiar Flamengo desde berço”, diz André Rocha

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Bandeiras da tocida do Flamengo no Maracanã – Foto: Celso Pupo / Fotoarena

ANDRÉ
ROCHA
: Muito já se falou e escreveu sobre o que ocorreu em São Januário no
sábado antes, durante e depois do clássico. Obviamente há a disputa política de
um Vasco que há tempos necessita de uma terceira via forte além de Roberto
Dinamite e Eurico Miranda.

Um
clube que preferiu voltar ao passado com medo do futuro e que ainda não
consegue vislumbrar um amanhã. Que acreditou que recuperaria protagonismo pelo
simples retorno de um dirigente típico do século passado no futebol brasileiro.
Com o rebaixamento veio o choque de realidade e, com ele, a exacerbação de uma
cultura de ódio que é passada, intencionalmente ou não, ao torcedor cruzmaltino
desde a infância.
Este
blogueiro conhece porque vem de uma família de vascaínos e convive com vários
desde sempre. O discurso é simples e direto: o Vasco é o clube popular de
verdade e todos os seus títulos são conquistados com muito mérito, enquanto o
rival Flamengo só tem a maior torcida do Brasil e construiu suas vitórias por
ser protegido. Por CBF, Rede Globo, arbitragens…Em toda conquista há uma
conspiração.
Algo
que não faz o menor sentido, até porque todos os clubes cariocas historicamente
já foram favorecidos por primeiro estar na capital federal, depois pela
proximidade geográfica da CBD, depois CBF. Antes mesmo da popularização dos
aparelhos de televisão, a Rádio Nacional contribuiu para a formação de torcidas
nacionais. Do Flamengo, sim. Mas também de Fluminense, Botafogo e do próprio
Vasco.
Como
todo trabalho de convencimento, algumas informações não são passadas porque
desconstroem as teses de doutrinação.
Como a
manobra no regulamento do Campeonato Brasileiro de 1974, primeiro conquistado
pelo Vasco, para que a final contra o Cruzeiro que seria realizada no Mineirão pela
melhor campanha do time celeste ao longo de todo o campeonato fosse transferida
para o Maracanã. Na partida vencida pelo time carioca por 2 a 1, a arbitragem
de Armando Marques é contestada até hoje pelos cruzeirenses por conta de um gol
anulado do volante Zé Carlos aos 43 minutos do segundo tempo e o apito final
sem nenhum acréscimo dentro de um jogo com muitas paralisações.
Também
não revelam que alguns períodos vencedores do clube coincidem com a proximidade
da CBD, comandada pelo Almirante Heleno Nunes de 1975 a 1980, vascaíno assumido
e considerado responsável pela convocação de Roberto Dinamite para a Copa do
Mundo de 1978 na Argentina. Também da CBF no final dos anos 1980, a ponto de
Eurico Miranda ter sido o primeiro diretor de futebol da entidade no início da
gestão de Ricardo Teixeira.
Ou a
famosa aliança com a FERJ que vem desde os tempos de Eduardo Vianna, o Caixa
D’água, e retomada agora com Rubens Lopes no retorno de Eurico Miranda à
presidência. Períodos que coincidem com conquistas do clube. Ou seja, ninguém
tem telhado de vidro e história ilibada e sem manchas ou dúvidas. Infelizmente.
Mas o
vascaíno é ensinado a odiar o Flamengo desde o berço, a vasculhar a história do
rival em buscas de fatos reprováveis e frutos de conspirações. Por
consequência, muitos sabem pouco da trajetória do próprio clube. A ponto de
questionar o título carioca deste ano do Fla sem vencer nenhum turno, sem saber
– ou fazendo questão de esquecer – que a conquista estadual de 1982, tão
celebrada sobre o multicampeão time de Zico, também foi construída sem ganhar a
Taça Guanabara e a Taça Rio, mas por chegar ao triangular final pela melhor
campanha geral. Questão de regulamento.
O
clássico de sábado foi a gota de sangue num copo transbordando. O vascaíno
percebe seu time de coração afundado por seguidas gestões incompetentes e
irresponsáveis que ocasionaram três rebaixamentos no Brasileiro, as páginas
mais vergonhosas de uma história gloriosa. O último sob o comando de um homem
envelhecido, mas que faz questão de manter sua imagem de inquebrantável. E
forte nos bastidores para afrontar o tal favorecimento ao rival.
No
início houve um bicampeonato estadual e a sensação de que os tempos de
rivalidade em igualdade de condições, ou aquela aliança vitoriosa com a
federação carioca, tinha voltado. Mas a Série B em 2016 e a nítida mudança de
patamar do Flamengo, com dívidas equacionadas, melhor estrutura e, numa cultura
nacional sem fronteiras pela internet, rivalizando mais com os grandes
paulistas e com o Atlético Mineiro do que com os tradicionais clubes locais
fizeram explodir um ressentimento.
Foi o
que se viu em São Januário, com bombas atiradas no campo, relatos de agressões
a policiais mulheres, jornalistas e proibição de filmagem da festa da pequena
torcida rubro-negra após a vitória por 1 a 0. Um triste cenário que retrata o
desespero por ver um dos clubes mais tradicionais do país se apequenando por
buscar sua grandeza de volta pelo caminho errado.
Equivocado
e falimentar também o Rio de Janeiro depois da falsa bonança pelos
investimentos para as Olimpíadas. Associado aos escândalos na Petrobrás e à
redução de arrecadação dos royalties do petróleo fez explodir a maior crise da
história da cidade e do estado.
Como
diz o velho ditado,”em casa que não tem pão todos gritam e ninguém tem
razão”. Assim como em São Januário, onde há crise existe ódio. E na dita
”Cidade Maravilhosa” ele está em toda parte.
De
quem se acha vítima de um golpe eleitoral. No país, a nível estadual e também
municipal. Enganado por políticos, presos ou soltos. Que querem os recursos
surrupiados repatriados para estancar a sangria nos cofres públicos e salvar a
dignidade de quem trabalhou e trabalha, mas no fim do mês está sem salário.
Do
desemprego pelas portas fechadas. Seja porque não há dinheiro ou paz em locais
sitiados pelo tráfico de drogas. A violência desmedida que aprisiona e revolta.
Sem paz até nos shopping centers que eram o último refúgio. Cenário capaz de
relativizar até as belezas naturais e os cartões postais. O Rio da zona sul,
sempre privilegiada, que também revolta os que moram no subúrbio e na baixada
fluminense.
Para
responder à violência, só a truculência. Espalha-se, então, o fascismo e o
preconceito como resposta. Não por acaso é o reduto eleitoral do deputado que
quer ser presidente defendendo ditadura militar e lembrando com saudades de
torturadores. Representante de quem detesta as diferenças e defende a
segregação até na praia, antes o mais democrático dos símbolos cariocas. Junto
com o Maracanã, outro gigante esquecido e afundado nesta lama fétida de
corrupção e descaso.
Este é
o Rio de Janeiro da cultura do ódio. Diário, cravado no cotidiano. Em toda
parte. O que eclodiu em São Januário foi apenas uma faceta dele. Da cidade que
continua linda como no verso de Gilberto Gil. Mas chora e se rebela com quem a
mira com mais interesses escusos que carinho e cuidado. Uma pena.

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