Vinicius Junior, Paulinho e o gosto pelo desgosto

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Foto: Divulgação

CHUTE
CRUZADO
: Pedro Henrique Torre

Não é
incomum ouvir relatos de tempos idos em que torcedores iam ao estádio ou
ligavam a tv não apenas para acompanhar o próprio time. Lembra do avô do seu
amigo, palmeirense dos bons, que ia ao Pacaembu assistir ao Pelé? E aquela
história do seu tio, rubro-negro doente, que entrava no Maracanã para curtir a
Máquina Tricolor dos anos 70? O vascaíno que ficava encantando com o Zico. E o
amigo botafoguense que parava tudo para assistir ao Romário em qualquer um dos
outros três clubes cariocas defendidos pelo atacante? Todo mundo tem um caso
parecido para contar.
Havia
gosto pelo futebol. Prazer em assistir belos lances, jogadores que davam
esperança de um drible surpreendente, um chute mágico. Fosse no seu ou em outro
clube, a graça no fundo era a paixão pelo esporte. Prazer. Compartilhar a
sintonia. Um sentimento de harmonia que perdemos nesse mundo bélico, dividido,
individualista. Querem um exemplo? Bastou o vascaíno Paulinho brilhar contra o
Atlético Mineiro para um fenômeno besta invadir as redes sociais. Os torcedores
do Vasco quase não citavam o seu xodó. Preferiram provocar a revelação do
rival, Vinicius Junior. Do outro lado, os rubro-negros respondiam desdenhando,
muitas vezes, de Paulinho. Previsões definitivas sobre molecotes que ensaiam o
início de belas carreiras.
É
curioso. Os próprios garotos são companheiros da Seleção sub-17. Torcem uns
pelos outros. Sorriso de orelha a orelha. Querem jogar bola, ser felizes. Com
17 anos recém-completados – um há 12 dias, outro há nove – ainda mantêm aquele
prazer que parece se dissipar conforme a cultura da disputa fica mais enraizada
no mundo dominado por redes sociais. O meu vale mais do que o seu. O seu não
presta. Não poderiam vascaínos e rubro-negros, por exemplo, curtirem as duas
promessas? O chapéu de Vinicius Junior, o golaço de Paulinho. Admirar os
lances. Curtir o prazer que o esporte pode proporcionar. Mas não parecem gostar
de futebol. Gostam apenas de vencer uma disputa, por menor que seja. E perdem
tempo.
Pois
na velocidade do mundo atual, as chances de vermos os garotos de perto têm
prazo de validade. Vinicius Junior já está negociado. Não vai completar 20 anos
dando balão, caneta e outros malabarismos em campos brasileiros. Paulinho
também não deve durar muito em São Januário. Em um futebol no qual os
dirigentes trabalham, em maioria, pela segregação, com a nefasta ideia de
torcida única é compreensível que os torcedores olhem mesmo para si, dentro de
uma bolha no qual só o seu pode valer 50 milhões de euros. Criam aversão ao
outro, à convivência. A imprensa, na esteira do frisson, compartilhar a
polêmica vazia em troca de mais cliques e engajamento, contribuindo para a
pobreza de ideias. E perdem a chance de admirar garotos deixam o futebol mais
rico. Aproveitem. Em breve, vascaíno, Vinicius Junior pode estar no que você
chama de “meu Real”. Paulinho, rubro-negro, quem sabe no “meu Chelsea”.
Desarmem-se. Curtam o futebol. Deixem de lado esse gosto pelo desgosto.

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