A coletânea rubro-negra

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Zé Ricardo, técnico do Flamengo, fazendo embaixadinhas – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

São
fragmentos espalhados ao longo do Campeonato Brasileiro. Com eles, o Flamengo
deu a ideia de que seria um time mais competitivo e apresentaria um jogo de
melhor qualidade e menos previsível aos olhos rivais. Contra o Corinthians, por
24 minutos, Zé Ricardo deu provas de que entende ser esse um caminho viável,
embora pareça um tanto quanto inseguro para utilizá-lo desde o início. Depois
de insistir tanto em cruzamentos, mais bola no chão, troca de passes, de um
extremo ao outro do campo, aproveitando a qualidade com a bola de Diego e
Everton Ribeiro por dentro. Uma ideia convicta do que fazer com a bola. O
caminho para a redenção talvez passe por uma coletânea rubro-negra de seus
melhores momentos no campeonato.
Unir
todos eles em uma ideia e insistir, abrindo mão de alternativas que parecem
desgastadas. Modificar o desenho decorado por rivais desde de 2016 e que por
vezes causam dificuldades nesta temporada. Sim, o time continua perdendo pouco.
Mas agora empata muito, o que indica dificuldade na criação mesmo com jogadores
talentosos. São oito em 17 jogos, número alto para quem sonha ainda em disputar
o título, já distante em 12 pontos. Mas note bem: tradicionalmente no 4-2-3-1
consolidado em 2016, o Flamengo passou a ter dificuldades com o esquema para
coordenar os movimentos de Diego e Everton Ribeiro.
O
camisa 7 sai frequentemente da direita para o meio. Para evitar o choque, Diego
dá passos para a esquerda e encosta em Everton. Ou se desgasta para suprir a
falta de saída de bola com qualidade, recuando antes da linha do meio de campo
atuando praticamente como volante. Na direita, Pará avança e sente falta de
opções para tabelar e chegar à linha de fundo, como costumava fazer em 2016.
Cuellar e Márcio Araújo não se apresentam no setor, característica de Willian
Arão. Daí o 4-1-4-1 pareceu ser mais ajustado. Contra o Corinthians, o Flamengo
assustou quando adotou a formação e atacou em bloco, em vez de usar apenas as
pontas como desafogo. Lembremos do gol perdido por Diego.
Guerrero
recuou para lançar Berrío na direita. Arão avançou até a área e Diego apareceu
livre para finalizar mesmo diante do elogiado sistema defensivo corintiano. Em
bloco, o Flamengo apresenta maior capacidade para furar adversários bem fechados.
São momentos no Brasileiro que deveriam ser trabalhados para encontrar maior
regularidade, proporcionando o jogo eficiente e até mais plástico. Diante do
São Paulo, outro tira-gosto. Guerrero fora da área, entrada de Everton Ribeiro
e toque rápido para Diego, de novo sozinho na frente do goleiro. Naquela vez,
ele não desperdiçou.
Mesmo
na derrota diante do Grêmio, o melhor momento do time na partida foi quando
adotou, por alguns instantes, o 4-1-4-1. Geuvânio fez o lado direito, Everton
Ribeiro e Diego centralizados, Everton na esquerda. Atrás deles, Cuellar. Neste
jogo, porém, houve uma dificuldade: Leandro Damião era o atacante e não
conseguia reter a bola para fazer o pivô e esperar o avanço de quem vinha de
trás, como ocorre com Guerrero – suspenso no dia. Uma insistência de apenas 18
minutos. Com a necessidade da vitória, Zé passou o time ao que chamou de 4-2-4,
o que arrefeceu o domínio e deu mais caminho para a desorganização. E o Grêmio
venceu.
Mas e
a questão dos volantes? Fundamental, obviamente. Há sentido na extrema
reclamação em torno de Márcio Araújo. A grande justificativa para sua
manutenção no time é a velocidade para fechar espaços ou fazer coberturas
quando o time é atacado. Mas o camisa 8 tem falhado nisso também. No gol
corintiano, Balbuena avança até o meio de campo sem combate. Márcio, assim como
Cuellar, praticamente abandona a jogada e assiste de longe a conclusão de Jô.
Caso Diego Alves concedesse o rebote, ele não estaria lá para evitar outra
finalização. E há o desencaixe na coordenação com Cuellar que o faz cair em um
limbo na equipe.
O
colombiano recua passos para ser o primeiro volante e receber a bola. Tem mais
qualidade no passe e é o indicado para iniciar o jogo. Neste instante, Márcio
Araújo avança além do meio. Quando recebe a bola, não é atacado por não ser
visto como um perigo ofensivo pelos rivais. Tem campo e não desenvolve uma
jogada de qualidade na criação ou uma finalização de longa distância.
Tecnicamente está abaixo. Funciona melhor com Arão ao lado, quando assume
claramente apenas um papel defensivo, ou no 4-1-4-1, como o homem à frente da
defesa.
O
problema é que, neste caso, sacrificaria um dos homens do meio a voltar para
iniciar a jogada com qualidade. É incompreensível ver apenas nomes girando em
torno de Márcio Araújo. Há combinações mais técnicas no elenco, casos de Romulo
e Ronaldo. A falta de maior velocidade de ambos pode ser compensada com o
melhor posicionamento defensivo da equipe rubro-negra. Um time mais fechado,
coordenado nos movimentos à frente e para trás. Everton e Berrío têm fôlego e
capacidade para fechar os lados, ainda auxiliando o ataque. Fundamental para
evitar os seguidos gols sofridos com enfiadas de bola entre defensores, como
ocorreu diante de Palmeiras, Coritiba e Cruzeiro.
No futebol
atual, o time deve funcionar como um organismo só. Os homens à frente do
primeiro volante deveriam dar combate em Balbuena e evitar que a bola chegasse
a Jô, por exemplo. Ataque e defesa em bloco. Zé Ricardo, natural, está
pressionado quando tem um elenco deste porte nas mãos e uma eliminação precoce
de Libertadores nas costas. Indicar a busca por alternativas, pelo novo pode
ser um atalho para o aliviar do clima pesado. Há, sim, um bom senso na
arquibancada. Ou se cobrava títulos e boas apresentações com veemência em 2014
ou 2015? Em 2016 houve o reconhecimento de que o time atingiu o limite. Há
peças no Flamengo para um jogo eficiente e bem desenvolvido. Já houve indícios
de que é possível. Basta juntar relembrar as doses de melhores momentos e torná-los
uma única ideia. Aproveitar a coletânea rubro-negra.

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