Bandeira descobre que Presidir o Flamengo não é comandar BNDES

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Eduardo Bandeira de Mello, Presidente do Flamengo – Foto: Matheus Palmieri

COSME
RIMOLI
: Todo o meticuloso planejamento, feito para a mais surpreendente
recuperação econômica não vale para o futebol. A diretoria do Flamengo demitiu
Zé Ricardo sem ter um substituto em mente. Primeiro mandou embora, pressionada
pela torcida, pelos conselheiros. E só depois pensou no futuro do time. Na nova
filosofia de trabalho a ser adotada.

Pode
ser a modernidade de Reinaldo Rueda, a ilusão de Jorginho, a nostalgia de Paulo
César Carpegiani, a insegurança de Eduardo Baptista, a instabilidade de Roger,
a utopia de Fernando Diniz.
Eduardo
Bandeira de Mello havia dito bem claro em uma palestra na USP. A solução para o
futebol não estava em demissões de treinadores. Deixou claro que seu clube seguiria
com Zé Ricardo. Dois dias depois, o demite. Sem qualquer coerência.
O
mandou embora porque pensando no seu grupo político, nas eleições de 2018.

Ricardo nunca foi bem aceito como treinador na Gávea. Com o projeto de
reestruturação econômica sendo muito bem feito, Bandeira de Mello foi
pressionado a buscar jogadores. Percebeu que, se o time não conseguisse
resultados, seu grupo não seguiria no poder.
E
jogadores importantes passaram a chegar para o Flamengo. E Guerrero passou a
conviver com Diego, Everton Ribeiro, Diego Alves, Conca, Geuvânio, Rhodolfo,
Trauco, Berrío, Rever. E mais a revelação de R$ 164 milhões, Vinícius Júnior.
A
expectativa era que, como passe de mágica, os jogadores se entrosariam e
passariam a mostrar futebol fabuloso. Algo que Leco e Pinotti também imaginam
no São Paulo. Só que a montagem de uma equipe é muito mais complicada, exige
tempo. Buscar um time sob pressão, em plena disputa de três torneios, é algo
que beira a mágica.
O
Flamengo disputa a Copa Sul-Americana, o Brasileiro e a Copa do Brasil. O time
está na segunda fase da competição continental, em quinto no Brasileiro e na
semifinal da Copa do Brasil. Foi campeão carioca de 2017.
É um
rendimento mais do que aceitável.
De
longe.
Não na
efervescente Gávea.
Nas
últimas sete partidas, apenas uma vitória.
A Ilha
do Urubu, na Ilha do Governador, deveria ser o grande caldeirão rubro negro.
Para os adversários do Flamengo. Não para o próprio time. Foi o que aconteceu,
ontem, contra o Vitória.
Os
torcedores que lotaram o acanhado espaço tinham uma certeza. Passariam uma
manhã de sol e alegria. Começariam o domingo com um afago na autoestima. O
adversário era o fraquíssimo Vitória, na zona do rebaixamento. Três pontos
garantidos.
Pressionado,
criticado, ofendido por onde quer que fosse, Zé Ricardo tomou uma decisão
lógica. Tirou o limitado Márcio Araújo do time. Ótima decisão. Mas errou feio
ao deixar apenas um jogador com potencial de marcação. Willian Arão. Diego,
Everton Ribeiro e Everton ficaram sacrificados. Com cuidados defensivos
excessivos, para tentar compensar a ausência de um protetor da zaga.
O
rodado Vagner Mancini agradeceu o presente. E seu time explorou à vontade os
contragolpes. Não havia cobertura dos lados do campo. Os badalados meias
flamenguistas tinham de marcar e ao mesmo tempo tentar superar a retranca
baiana. O resultado foi uma caótica derrota por 2 a 0.

Ricardo se suicidou.
Eduardo
Bandeira de Mello mesmo assim não queria demiti-lo. Mas a pressão foi
insuportável. Conselheiros importantes já estavam pedindo a cabeça, em uma
bandeja de prata, de Rodrigo Caetano. O diretor de futebol é o braço direito do
presidente no futebol. E precisava ser salvo. Bandeira de Mello tomou a decisão
que não desejava.
Abandonou
a racionalidade.
E
mandou Zé Ricardo embora, sem imaginar em um substituto.
Por
isso, ele, Rodrigo Caetano e membros da diretoria passaram a noite pensando em
um nome. Pronto para chegar, assumir o time e, principalmente, ter o respeito
dos conselheiros, da imprensa, da torcida.
O
plano de jogo, a filosofia, a harmonia com o elenco.
Nada
disso foi levado em consideração.
E
Reinaldo Rueda passou a disputar o privilégio com Jorginho, Carpegiani, Roger,
Fernando Diniz.
O
treinador campeão da Libertadores de 2016, pelo Atlético Nacional, já está
recuperado. No início do ano, se submeteu a uma operação no quadril, em
janeiro. Voltou a trabalhar em março. Foi contrário, mas não pôde evitar a
debandada de jogadores. Seu time foi desmanchado. O resultado não foi bom. E
acabou demitido em junho.
Decepcionado
com o futebol colombiano, foi estudar na Alemanha. Seu sonho era assumir uma
equipe europeia. O convite não apareceu. Os representantes do treinador são
acessíveis. O Corinthians chegou a tentar contratá-lo no final do ano. Mas
desistiu diante da cirurgia.
Lógico
que há o grande entrave chamado adaptação. Mas dos nomes citados, ele é o
melhor treinador disparado. Resta saber se a direção do Flamengo dará respaldo
para que o técnico conheça como funciona o futebol brasileiro. Ainda mais
estando em disputa uma vaga na Libertadores de 2018. Ela é fundamental na busca
da permanência do atual grupo político no poder.
Roger
foi uma decepção no Atlético Mineiro. Incoerente. Capaz de deixar o time sem
poder algum de marcação. Jorginho não consegue manter a estrutura tática
básica. Muda de ideia, acreditando que os jogadores possam alterar sua maneira
de atuar diante de adversários diferentes. Carpegiani ficou para trás. Está
ultrapassado, seus times não sabem o que é intensidade. E Fernando Diniz segue
escravo do tike taka de Guardiola, do Barcelona de cinco anos atrás.
Além
desses nomes sondados, há antropofagia.
Ou
seja, sabotar algum clube com treinadores contratados.
Fábio
Carille, Renato Gaúcho, Levir Culpi, Cuca, Abel Braga…
Os
dirigentes estão à busca de um técnico com perfil diferente de Zé Ricardo.
Querem um nome ‘consagrado’, ‘cascudo’. A situação não está fácil. E a
expectativa é enorme.
Sem Zé
Ricardo, há a chance de Felipe Melo ser contratado.
O
ex-técnico flamenguista não queria o polêmico volante.
Parte
da diretoria adora o jogador.
Por
enquanto, o auxiliar Jaime assume o time.
Bandeira
de Mello teve de engolir a palavra empenhada 48 horas antes.
Mais
uma lição ao presidente que endireitou as finanças do clube.
É
muito mais fácil ser executivo do BNDES, onde trabalhou por décadas.
Ser
presidente do Flamengo é infinitamente mais difícil.
O
mundo do futebol espera a sua decisão.
A
escolha do novo técnico, a que jurava não fazer, na quinta passada…

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