Botafogo x Flamengo: goleadas, decisões e craques

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Foto: Divulgação

MEMÓRIA
EC
: Faz tempo. Muito, muito tempo. Garrincha ainda jogava, e o Brasil havia
acabado de ser bicampeão mundial no Chile, seis meses antes. Em dezembro de
1962, na final do Campeonato Carioca, no Maracanã, o craque de pernas tortas,
com seus show, incluindo dois gols, e um gol contra de Vanderlei deram ao
Botafogo o bicampeonato carioca, há 55 anos na primeira grande decisão entre o
Alvinegro e o Flamengo.

Na
sequência de finais, o Alvinegro continuou levando a melhor, como na Taça
Guanabara de 1968 e no Estadual invicto de 1989, quando pôs fim a um jejum de
troféus que já durava desde 1968. A vez do Flamengo chegou em 1992, há 25 anos.
Em dois jogos, era a decisão do Campeonato Brasileiro, e o Rubro-Negro levou a
melhor: 3 a 0 e 2 a 2. A partir daí, a sorte mudou nos clássicos decisivos, e o
clube da Gávea conquistou diante do de General Severiano os Estaduais de 2007,
2008 e 2009, além das Taças Guanabara de 1995 e de de 2008 e da Taça Rio de
2009. Já o Botafogo venceu a Taça Rio de 2010.
Verdade
que o confronto da próxima quarta-feira ainda não decide a Copa do Brasil. Mas
quando os rapazes da Praia de Botafogo se defrontam com os da Praia do Flamengo,
a luta é dura. Na certa. As referências às praias para explicar as origens do
confronto têm sua razão de ser. É que, embora o primeiro jogo de futebol entre
o Flamengo e o então Botafogo Futebol Clube tenha sido disputado em 1913, no
fim do século 19 era o remo o esporte mais popular no Rio, a então capital
federal.
Frequentadores
de praias vizinhas, os rapazes de Flamengo e de Botafogo logo começaram a se
interessar por esse esporte. Assim, em 1894, foi fundado o Clube de Regatas
Botafogo (que em 1942 se fundiu com o Botafogo Futebol Clube, criado em 1904,
dando origem ao atual Botafogo de Futebol e Regatas). Para não ficar para trás,
em 1895 os jovens da Praia do Flamengo formaram o Grupo (depois clube) de
Regatas do Flamengo, em 1895.
Entretanto, foi nos gramados, e não nas águas, que os dois clubes
se tornaram protagonistas do Clássico da Rivalidade. Em 358 duelos desde 1913,
o Rubro-Negro ganhou 127 vezes, o Alvinegro, 109, e houve 122 empates,
incluindo o 0 a 0 da semana passada, no jogo de ida da Copa do Brasil. Alguns
destes triunfos foram emblemáticos, tanto para um quanto para o outro.
Diferentemente do que se parece com uma luta politica, como Flamengo x Vasco,
ou uma rivalidade um tanto fraterna quanto o Fla-Flu, Botafogo e Flamengo fazem
provavelmente o confronto mais bem-humorado da cidade. Isso se tornou ainda
mais claro depois de dois resultados de 6 a 0, um para cada lado.
O
primeiro se deu a 15 de novembro de 1972 (o Flamengo fundado a 17 de novembro
comemora aniversário no dia 15, por ser feriado). Nesse dia, pelo Brasileiro de
72, o Botafogo deu ao rival um presente de grego: 6 a 0. Em 1981, no dia 8 de
novembro, o Flamengo (que ganharia o Mundial no Japão) deu o troco pelo mesmo
placar, no Campeonato Carioca (assista no vídeo abaixo). Nos anos 70 e 80, a
geração liderada por Zico ajudou a mudar a estatística que até então favorecia
o clube da estrela solitária. Antes disso, a rivalidade se tornara mais intensa
nos anos 60, quando, graças a Mané Garrincha, o alvinegro passou a ganhar
vários troféus e quase sempre derrotava o adversário. Tanto que o goleiro
Manga, nas entrevistas antes do jogo, dizia que o leite das crianças estava
garantido quando a partida era contra o Flamengo.
Por
incrível que pareça, houve goleadas ainda mais amplas. No antigo estádio
rubro-negro, na Rua Paysandu, na década de 20, ocorreram as maiores do
clássico. Em 1926, o Flamengo ganhou por 8 a 1. Mas no ano seguinte, o
Alvinegro se impôs por 9 a 2. Mais adiante, em 1944, em General Severiano, os
alvinegros ganhavam por 4 a 2, até que aos 31 minutos da segunda etapa, o juiz
marcou um pênalti. Geninho efetuou a cobrança, a bola bateu no travessão,
quicou no gramado e voltou para o campo. Quando o juiz assinalou 5 a 2, os jogadores
rubro-negros, revoltados, disseram que não havia sido gol. Em seguida,
sentaram-se no gramado e saíram do campo por ordem de seus dirigentes. Para a
Federação, o placar foi 5 a 2. Jornalista e escritor, Paulo Cezar Guimarães
publicou em 2014 um livro sobre o episódio conhecido como “Jogo do Senta”.
Em
1969, no Maracanã, em partida que venceu por 2 a 1, a torcida rubro-negra levou
e soltou no estádio um urubu. A torcida alvinegra costumava apelidar assim os
adeptos do adversário, porque grande parte dos fãs do Flamengo era de negros.
Com essa atitude, as facções assumiram a ave como símbolo do clube, o que
permanece até hoje, inclusive em instalações como o Ninho do Urubu e a Ilha do
Urubu.
O
estádio que mais vezes sediou o clássico foi o Maracanã, com 229 partidas,
incluindo 80 triunfos rubro-negros, 66 alvinegros e 83 empates. Outros estádios
cariocas em que o clássico também foi disputado foram Engenhão, General
Severiano, Laranjeiras, Rua Paysandu, São Januário e Gávea. O duelo já foi
realizado em dez cidades, incluindo o Rio, Angra dos Reis, Mesquita, Niterói,
Volta Redonda, Fortaleza (CE), Juiz de Fora (MG), Manaus (AM), Buenos Aires e
Milão.
As
duas equipes dividem a honraria de serem os recordistas brasileiros de
invencibilidade, com 52 partidas cada. O Rubro-Negro poderia ter quebrado esse
recorde desde que empatasse com o rival em 2 junho de 1979. Entretanto, a
vitória alvinegra por 1 a 0, gol de Renato Sá, fez com que a série invicta do
Flamengo não superasse a sequência do Botafogo (no vídeo acima).
Detalhes
assim tornam ainda mais apimentado esse duelo que envolve os gramados, as
regatas, as cestas, as redes de vôlei, as piscinas e outros esportes. Mas que
não teria existido não fossem as  turmas
das praias vizinhas de Flamengo e de Botafogo, e não fossem também estes e
outras dezenas de craques que atuaram por um ou por ambos os times: Manga,
Leandro, Gonçalves, Mozer e Nilton Santos; Junior, Adílio, Zico e Zagallo;
Garrincha e Heleno de Freitas. Ídolos de diversas épocas, como Garrincha. Falar
nele é como entrar numa máquina e regressar aos anos 50 e 60. Realmente, faz
tempo. Muito, muito tempo.

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