Contra Corinthians, Flamengo evoluiu mais que no ano inteiro

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Miguel Trauco durante Corinthians x Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: Foi rico em reflexões o bom clássico que terminou no 1 a 1
entre Flamengo e Corinthians, em Itaquera, jogo que embora tenha mostrado um
Flamengo com ótimos momentos no segundo tempo, não reduziu a diferença de 12
pontos para o líder do campeonato. Uma destas reflexões diz respeito à maior
das controvérsias que cerca o ano rubro-negro: a alucinante pressão sobre o
técnico Zé Ricardo.

Embora
seja necessário levar em conta as dificuldades de um calendário que reduz a
quantidade de treinos, as mudanças de elenco com o ano andamento, é pertinente
discutir se este Flamengo poderia ter evoluído mais no ano. É natural, em
especial por ter um elenco acima da média nacional e uma base que ficou de
2016. Mas é recorrente ouvir que Zé Ricardo “não está à altura do tamanho do
Flamengo”. Se a frase se referir ao repertório, ao desempenho do time, até cabe
a polêmica. Mas o jogo de Itaquera ofereceu a prova definitiva de que o
entendimento do DNA, da identidade ofensiva que tradicionalmente se cobra do
Flamengo, este não lhe falta. Algo que exige ousadia num país em que a grande
maioria dos times especula.
Imaginemos
um técnico jovem, superexposto à pressão num país que demite sem parar, diante
de 45 mil torcedores rivais no estádio do time que, de longe, lidera o
Brasileiro. Que outra situação pareceria mais propícia a fazer recuar um
treinador com tal perfil? Zé Ricardo não abriu mão da busca pelo protagonismo,
uma de suas convicções. E este foi o maior mérito do Flamengo que, mesmo em
Itaquera, transformou a partida num confronto de ideias. De um lado, um time
ultraconservador, eficiente numa ideia de jogo predominante num país que vem
consagrando como virtude máxima o chamado “saber sofrer”, como se fosse utópico
esperar que o líder do campeonato sofresse menos em diversos jogos. De outro
lado, um rubro-negro que tentou ter a bola e ter iniciativa.
O
início de jogo parecia animador para o Flamengo, que mantinha a bola no campo
contrário e chegara a ter uma chance. Até que surgiu o erro grosseiro da
arbitragem ao invalidar o gol de Jô. O lance, todo ele legal, não teve efeito
no placar, mas teve efeito moral. O Flamengo se desnorteou: manteve o domínio
da bola, mas sem qualquer profundidade ou penetração. E aí surge outra
reflexão.
Ao
tentar jogar no campo contrário, o Flamengo tem falhado em dois pontos
cruciais: falta de pressão após a perda da bola na frente e desajuste na última
linha defensiva. O segundo ataque do Corinthians resultou no segundo gol de Jô,
o primeiro válido. Balbuena lançou o atacante às costas de uma defesa sem tanta
velocidade. O Corinthians era melhor até ali e impunaha ao Flamengo um gol num
tipo de lance recorrente, que já vitimara o rubro-negro contra Coritiba,
Palmeiras e Cruzeiro.
O
Flamengo do segundo tempo teve, além do atrevimento, da coragem, uma posse de
bola mais segura. Talvez pela entrada de Willian Arão no lugar de Cuéllar, dono
de um primeiro tempo nada inspirado. O fato é que perdia-se menos bola no
ataque e o Corinthians não contragolpeava. Faltava, ainda, a infiltração pelo
centro. O Flamengo repetia o número exagerado de cruzmentos como desfecho de
qualquer jogada. Dados do Footstats indicam que 41 bolas foram lançadas na área
rival. Mas, no clássico deste domingo, cabe um parêntese: penetrar pelo centro
da defesa do Corinthians é algo que poucos fizeram neste Brasileiro.
O fato
é que o segundo tempo premiou quem buscou o jogo diante de quem especulou.
Guerrero já perdera ótima chance em passe de Diego e Juan obrigara Cássio a
grande defesa antes de Zé Ricardo colocar Berrío e ganhar agressividade. A
mudança, com a saída de Trauco, fez de Éverton o lateral-esquerdo. E funcionou.
Éverton Ribeiro, em tese deslocado para o lado esquerdo, juntava-se mais a
Diego pelo centro e deixava o corredor para Éverton passar.
O gol
de empate, de Réver, veio num escanteio, mais uma bola área, mas o controle de
jogo do Flamengo contra um rival tão forte já era mais do que suficiente para
justificar o placar. E criou uma mistura de sentimentos na torcida: foi
positivo ver o time se impor, mas o resultado até poderia ser melhor num jogo
que ainda teve gol quase feito perdido por Diego e bola na trave em desvio
contra a própria meta de Pedro Henrique.
Quanto
ao líder do campeonato, uma tese se reafirma. Por mais que se confie em sua
capacidade de defender, não há jogo totalmente controlado quando a bola circula
tão perto da própria área por tanto tempo. O Corinthians já escapara em outros
jogos, como contra o Cruzeiro, e continua sem perder. No fim do clássico, Jô
ainda teve a chance de vencer o jogo no momento mais improvável. Mas é justo
esperar que o melhor time do Brasileiro fique mais tempo longe de sua própria
meta.
Quanto
ao Flamengo, a formação do segundo tempo pode ter oferecido um caminho,uma
alternativa tática que crie soluções para um time cheio de ótimas intenções e
comprometido com o protagonismo dos jogos. Mas que precisa ser mais
contundente.

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