Discussão no Flamengo não se contém a saída de Zé Ricardo

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Zé Ricardo, ex-técnico do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

TRIVELA:
Por Leandro Stein

A
situação já tinha chegado a um limite, isso parecia bem claro a todos. Restava
saber o quanto a corda aguentaria ou o quanto a diretoria do Flamengo iria
esticá-la. Enfim, arrebentou neste domingo, após a decepcionante derrota para o
Vitória na Ilha do Urubu. Depois de pouco mais de 14 meses, Zé Ricardo deixou o
cargo de técnico do Flamengo. Que se apregoe a continuidade no trabalho dos
treinadores, por vezes as situações chegam a um ponto insustentável. Era o caso
dos rubro-negros. Afinal, não pesava contra ele apenas a sequência de
resultados ruins do time. A soma de fatores era vasta – alguns, por sua própria
culpa, outros não. E em um clube no qual a mínima faísca já serve para estourar
a bomba, o investimento no elenco que não dava resultados foi o estopim. O caos
visto no estádio neste domingo só guardou as cenas finais do que já estava
condenado a acabar.

Ricardo assumiu o time principal do Flamengo já contornando uma situação
difícil, após a saída de Muricy Ramalho, e se deu bem inicialmente. Todavia,
especialmente desde o início do ano, a confiança no treinador foi ruindo. Em
alguns momentos, demonstrou ser um técnico que possui boas ideias de jogo.
Porém, o que passava ao time já não surtia mais efeito. E a cobrança se tornou
maior à medida que os reforços chegavam. Com um elenco recheado de opções, o
Fla não emendou as vitórias que se esperava. Mais se exigia de Zé Ricardo e
menos ele parecia capaz de fazer, diante de todo ambiente conturbado. Em certos
momentos, suas escalações pareciam mudar apenas por conta das críticas pelo
excesso de “teimosia”, mas sem necessariamente atender as suas ideias. Algo que
se sentiu, por exemplo, na derrota para o Vitória, a derradeira de sua passagem
– e justamente Willian Arão abriu caminho para o revés.

falhas de Zé Ricardo e certos erros pareciam recorrentes – como nas
substituições para mudar o jogo, algo que especificamente irrita os torcedores.
Outros entraves são mais amplos, como a montagem do próprio elenco. Por mais
que as opções sobrassem ao treinador, elas eram muito mais vastas em alguns
setores do que em outros. Além disso, a falta de sequência de atletas (por
inúmeras razões) atrapalhou principalmente a definição de um padrão, com os
substitutos sem necessariamente as mesmas características dos titulares. Diante
dos desequilíbrios, o comandante não soube encontrar as soluções, e isso ficava
mais latente na falta de resultados, ainda que alguns dos tropeços tenham sido
mais obra dos detalhes do que de atuações ruins dos rubro-negros em si. De
qualquer maneira, sobretudo depois do que aconteceu na Libertadores, a pressão
não considera o acaso para derrubar um treinador. Muito menos uma diretoria que
pretende aliviar sua barra também por falhas que cometeu.
Assim,
diante da necessidade de uma resposta à torcida e de um elemento que abrandasse
minimamente a crise, a demissão do treinador era a solução mais óbvia e um
tanto quanto inescapável. O ponto é: o que o Flamengo vai querer da vida nos
próximos meses? Os objetivos do clube precisam ser claros, sem ceder à pressão
pelo investimento feito sobre o elenco. O Campeonato Brasileiro, infelizmente
para os torcedores, parece ser um sonho bem distante. A classificação para a
Copa Libertadores é a meta. Enquanto isso, há duas competições de mata-matas
pela frente, ambas palpáveis. O problema é encontrar um equilíbrio entre o que
se torna obrigação e o que realmente esse grupo pode conquistar, dentro de seu
real potencial e do tumulto atual.
O
principal problema do Flamengo não é o técnico. Não é um jogador pegado para
Cristo e não são as lacunas no elenco. Não é uma diretoria específica – embora,
historicamente, elas contribuam para isso. O grande desafio do Flamengo é saber
a dimensão de sua realidade e encontrar as soluções que surtam o efeito
necessário. O gigantismo rubro-negro tem grande valia, obviamente. Mas também
infla a noção das coisas de maneira exagerada. Nisso, a expectativa se torna
muito maior do que a realidade. A consequência? Pressão, crises e decisões
erradas.
O
primeiro passo para o Flamengo seria colocar os pés no chão e ignorar um pouco
a cobrança, traçando metas factíveis. Neste momento, diante de todo o cenário,
o ideal é descolar a vaga no G-6 do Brasileirão e, quem sabe, arranjar uma taça
na Copa do Brasil ou na Copa Sul-Americana – o que parece ótimo, mas não é o
fim do mundo se não acontecer. Mas, acima de tudo, o objetivo é dar uma cara
que este time atual não tem. Se isso acontecer, os outros passos são
consequência.
Só que
aí vem os problemas. O embate com o Botafogo na semifinal da Copa do Brasil é
areia movediça. O histórico de vexames nas competições continentais, somado ao
favoritismo inerente pelo dinheiro gasto na montagem da equipe, tornam a Copa
Sul-Americana mais perigosa à pressão do que favorável. E persiste uma clara
ansiedade para que o Fla se transforme em uma máquina de jogar futebol que a
maioria absoluta dos times brasileiros não é – e quando os resultados são bons,
muitas vezes não “jogam bonito”. Além do mais, qualquer processo de mudança
precisa de tempo. Exatamente o que inicia o ciclo vicioso, porque calma parece
algo que não se pede na Gávea.
A
cobertura intensa da mídia em geral, que sensacionaliza muita coisa
desnecessariamente, é talvez o maior impeditivo para a calmaria – mas, claro,
atendendo a uma demanda do público, não só de quem torce, mas também de quem
consome a desgraça. A raiva vende, tanto de quem espera o melhor quanto para
quem só quer ver o circo pegar fogo. O Flamengo precisa tentar ser alheio a
este turbilhão na tomada de decisões, o que é difícil, quando justamente se
tenta jogar para a torcida na tentativa de contornar os entraves – ou se tenta
calar quem torce contra. Parte das contratações feitas nos últimos tempos (e
não só neles, mas vamos nos concentrar nesta fase atual) soam neste sentido. E,
entre tudo o que gira, às vezes até a boa fase costuma atrapalhar neste cenário
confuso. A história do ‘cheirinho’ – que os flamenguistas deveriam ter
sumariamente ignorado, quando o momento se pedia outras coisas – se encaixa
como um exemplo.
Obviamente,
há também uma parte cultural que não se pode negar. A empolgação e o bom-humor
em relação aos melhores momentos são parte da identidade do Flamengo.
Entretanto, há uma linha tênue entre isto e o oba-oba, a superestimação do
real. E, quando se ultrapassa o limite, a fagulha já implode tudo. Justamente o
que se vê agora. Nem mesmo um goleiro que chegou há três partida e vinha de um
período sem jogar conta com a paciência – em vaias, aliás, pra lá de
desmedidas. Vale ponderar, contudo, que a relação ácida do torcedor com o time
não é exclusividade do Fla, à medida que seu papel como “consumidor” ganha ênfase.
Pelo preço que se cobra nos ingressos, vende-se a ideia de um espetáculo em
campo que não é sempre o padrão do futebol – e quando isso não vem, a corneta
vira Procon. É preciso também um pouco de autocrítica e a consciência que este
espetáculo muitas vezes foi proporcionado pela própria torcida, mas que nem
sempre vai se refletir no time.
Neste
novo momento, o Flamengo (e os rubro-negros de uma maneira geral, estejam em
cargos diretivos dentro do clube ou não) precisam se afastar desse pandemônio.
É pensar quem vai ser o novo técnico, seja ele uma solução temporária até o
final do ano para que outro treinador mais referendado, de fato, inicie o
trabalho na próxima temporada ou o bombeiro que apague o fogo e consiga cumprir
os objetivos, mas com perspectivas maiores. Esse é o debate necessário no
Flamengo, e não as respostas para abrandar os ânimos de A ou B. A manchete
“crise na Gávea” vai seguir nos jornais e continuará aparecendo vez ou outra,
mas não dá para reger as atitudes apenas por isso.

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