Flamengo com Rueda: sem “mágica”, só o impacto da mudança

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Reinaldo Rueda e Bernardo Redin no Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

ANDRÉ
ROCHA
: Três vitórias, um empate. Nenhum gol sofrido. Classificação para a final
da Copa do Brasil. Não há como negar que o saldo do início do trabalho de
Reinaldo Rueda no Flamengo é bem positivo.

Só que
a análise tendo como base apenas resultados e números frios carregam algumas
convicções um tanto distorcidas. A maior delas de que houve uma transformação
”mágica” no modelo de jogo em duas semanas, sem tempo para treinamentos, com
duas partidas a cada sete dias, sendo uma com time praticamente reserva. Apenas
no papo e no carisma.
É
preciso primeiro analisar o contexto. A saída de Zé Ricardo marcou o fim de um
período de desgaste absurdo, com o treinador sendo questionado em praticamente
todas as suas decisões, jogadores perseguidos e problemas claros, evidentes,
porém não corrigidos.
Tudo
isso com um clássico estadual valendo vaga na decisão de um grande torneio
nacional. Reinaldo Rueda chegou com aval de boa parte da torcida, que inclusive
fez campanha para a sua contratação nas redes sociais. Ou seja, a mobilização
estava construída.
Efeito
imediato: atletas que não vinham ganhando oportunidades renovaram o ânimo,
titulares absolutos temendo perder espaço voltaram a se concentrar. Todos
atentos, com um objetivo a curtíssimo prazo e sem terra arrasada, já que o
trabalho de Zé Ricardo, se analisado no todo, deixou ao menos uma ideia de como
aproveitar melhor as peças do elenco.
Nem
que seja por seus erros. O experiente Rueda já tinha a solução para a grande
discordância do torcedor com o comandante anterior: Márcio Araújo. O colombiano
conhecia bem Cuéllar, havia indicado o compatriota ao Atlético Nacional e a
mudança foi natural.
Rafael
Vaz foi aproveitado apenas na lateral-esquerda contra o Atlético-GO. Outro elo
fraco no banco. Alex Muralha, que iniciou a primeira partida da semifinal da
Copa do Brasil acabou expulso e deixou a vaga para Thiago. No Brasileiro, Diego
Alves é absoluto. Mais um problema resolvido.
Para
corrigir as deficiências no trabalho defensivo, soluções simples: acabou com a
saída de bola ”lavolpiana”, com zagueiros abrindo, volante recuando e
laterais se projetando e se expondo demais no caso de perder a bola. Agora a
equipe sai com jogadores mais próximos, de forma cuidadosa. Willian Arão recua
com Cuéllar para dar opção.
Os
laterais apoiam alternadamente. Com a lesão de Renê e a falta de confiança em
Trauco depois da atuação catastrófica na derrota para o Atlético Mineiro que
Rueda assistiu no estádio em Belo Horizonte, a efetivação de Pará foi o símbolo
dessa busca por mais segurança.
Rodinei
também adota posicionamento mais conservador pela direita. Mas as dificuldades
ainda estão lá, como olhar a bola e esquecer o atacante na disputa com
Guilherme no início da segunda semifinal no Maracanã. Um gol do Botafogo podia
ter mudado a história do confronto.
Ofensivamente,
a estrutura da equipe titular, até pela impossibilidade de escalar Everton
Ribeiro e Geuvânio na Copa do Brasil, se manteve como nos tempos de Zé Ricardo:
quarteto ofensivo do 4-2-3-1 com Diego centralizado atrás de Guerrero e dois
ponteiros. Um Berrío confiante com a chegada do treinador com quem ganhou tudo
no Atlético Nacional e Everton do lado oposto.
Outra
mudança básica atendendo a pedidos, ou porque saltava aos olhos mesmo: reduzir
o número de cruzamentos. A equipe rubro-negra retomou a ideia de trabalhar mais
as jogadas com triangulações pelos flancos. Rodinei, Berrío e Arão pela
direita; Pará, Everton e Diego à esquerda. De mais de quarenta caiu para 25 na
média.
Se
ganhou as infiltrações do redivivo Arão e não depende mais tanto do pivô de
Guerrero, Diego continua com dificuldades para fazer o jogo fluir mais rápido.
Apesar dos gols contra Botafogo e Atlético-PR, o meia segue atrasando boa parte
das ações ofensivas ao dominar, girar, dar mais um toque e só então soltar a
bola. Quando não é desarmado pela marcação pressionada do adversário. Mesmo
respeitando as características do jogador é algo a ser minimizado, ao menos.
Ou
seja, não há mágica. Elenco motivado, torcida apoiando, um grande treinador
dando seus toques e efetuando correções para erros grosseiros. Como um segundo
olhar na revisão de um texto ou a opinião de alguém de fora de um problema. Sem
transformações, porém. Por enquanto.
Para
usar o exemplo mais impressionante dos últimos doze meses, Tite conseguiu vitórias
fundamentais no início do trabalho na seleção brasileira, mas o salto de
desempenho veio na sequência, depois de um período maior de observação e
análise e mais sessões de treinamentos.
Sem a
intenção de comparar currículos e contextos, cabe lembrar as cinco vitórias
seguidas do Flamengo sob o comando de Vanderlei Luxemburgo em 2014 e as seis de
Oswaldo de Oliveira no ano seguinte para ilustrar e reforçar a ideia de que o
impacto de uma mudança no comando técnico pode ser algo efêmero, circunstancial.
Movido mais pela motivação e que pode ser diluído se o trabalho não for
consistente.
A
mobilização continua com a primeira final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro
no dia sete de setembro, os confrontos com a Chapecoense na Sul-Americana e até
mesmo o pequeno sopro de esperança no Brasileiro com as derrotas do líder
Corinthians.
Cabe a
Rueda seguir trabalhando para adicionar conteúdo, afinar a sintonia com os
comandados e, enfim, estabelecer sua filosofia de jogo. Consolidar uma
evolução. O início já se mostra promissor. Mas é só um começo, sem magia ou
milagre.

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