Flamengo terá de aprender a esperar pelo time de Rueda

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Reinaldo Rueda – Foto: Divulgação

RODRIGO
MATTOS
: Não há clube brasileiro em que a troca de técnico não seja traumática,
resultado de derrotas e tropeços que levam a uma crise. Foi assim no Flamengo
que se perdeu em campo e demitiu Zé Ricardo. Com o time afundando, a diretoria
rubro-negra decidiu ousar e trazer o colombiano Reinaldo Rueda.

Contribuiu
para isso a negativa inicial de Roger, a escassez do mercado brasileiro e uma
corrente dentro da diretoria do clube que estava cansada das mesmas soluções
para o futebol. Era preciso apostar no diferente, no fora do contexto, para
tentar fazer um time caro andar. E, de lambuja, atendia-se o pedido da torcida.
Apostas
ousadas fazem sentido quando há por trás dela uma ideia do que se espera no
melhor cenário. No caso de Rueda, o Flamengo espera a construção de identidade
de jogo que se ensaiou com Zé Ricardo e que perdeu o rumo no meio do caminho.
O
técnico colombiano é conhecido pelo seu Atlético Nacional que tocava a bola,
dominava adversários e encantou a América do Sul. Mas aquela equipe era a
conclusão de um projeto iniciado com Juan Carlos Osório em 2012, com sequência
de Rueda. Quatro anos. Aprimorou um grupo de jogadores que permitia até trocas,
mas que o DNA ficava.
Como
já disse em entrevistas, sua inspiração é o Barcelona, e seu modelo de técnico
Vicente Del Bosque, campeão do mundo pela Espanha em 2010. Diante disso, está
claro que vai privilegiar o futebol de posse e toque de bola. Além do Nacional,
as seleções de Honduras e Equador, que treinou em Copas, exibiam a mesma
característica, e tiveram uma herança pela sua passagem.
É essa
a ideia de parte da diretoria do Flamengo que vê Rueda como um projeto que terá
mais efeito em 2018. Dirigentes do clube se mostraram bastante pacientes com Zé
Ricardo que ficou mais de um ano no time. E, neste sentido, o colombiano
chegaria no tempo certo porque teria um final de ano para consolidar sua
formação.
Mas há
muitas pedras no caminho. De imediato, o Flamengo tem um mata-mata contra um
rival Botafogo hoje mais seguro de seu jogo. E está fora até do G6 do
Brasileiro. O técnico colombiano terá de decifrar como fazer o time jogar de
forma minimamente confiável em dois dias. E, pelo que se viu diante do
Atlético-MG, não será tarefa fácil já que a equipe rubro-negra está perdida.
Depois
disso, não haverá tempo para treinos ou pré-temporadas como de hábito no
Brasil. Todas essas dificuldades que fazem a maioria dos bons técnicos
nacionais optarem pela segurança de defesas bem armadas e contra-ataques. Como
exemplos mais bem-sucedidos estão aí o Corinthians e Botafogo.
São
estilos de jogo válidos, eficientes e belos em determinados momentos. Mas, de
uma certa forma, mais fáceis de construir do que o jogo de posse de bola e
domínio do Atlético Nacional de Rueda. O próprio Osório, da mesma linha, teve
dificuldades para implantar este estilo quando esteve no São Paulo. Na Europa,
é mais viável porque há mais tempo e mais estabilidade de elenco.

Feitas
todas essas considerações, a chegada de Rueda é bem-vinda por acrescentar
repertório ao futebol nacional ainda que ele não seja um Bielsa ou Sampaoli,
mais inventivos. Mas poderá propor um jogo diferente do o que se vê na maioria
dos times do país. O problema é o contexto em que chega ao clube.
Há um
mito que diz que a palavra crise significa oportunidade em chinês (em mandarim,
na realidade). É de certa forma um mito como mostrou em seu blog o escritor
Sergio Rodrigues, autor do ótimo ”O Drible”. Isolada, a palavra crise tem
sentido mais negativo: ”momento crucial de perigo”. Só quando aliada a um
complemento a palavra de fato se transforma em oportunidade.
O
Flamengo abriu uma janela para o novo em sua crise. Mas resta saber se está
pronto para enfrentar seu momento de perigo antes para que essa ideia tenha
chance de florecer.

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