Não há diferenças entre os casos de racismo de Grêmio e Botafogo

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Foto: Richard Ducker / Richard Ducker 

ZERO
HORA
: Por Léo Gerchmann

Opa!
Venho aqui a este espaço contestar veemente e civilizadamente (como tem de ser)
meu querido colega Pedro Ernesto Denardin: o episódio de racismo envolvendo
torcedor do Botafogo é rigorosamente igual ao do Grêmio em 2014, no famigerado
“Caso Aranha”, lamentável sob todos os aspectos.
Preliminarmente,
como se faz em uma petição judicial, digo o seguinte: o Direito tem o princípio
da pessoalidade. O que isso quer dizer? Reza o art. 5º , XLV , da Constituição
Federal: “Nenhuma pena passará da pessoa do condenado (…)”. Sendo
assim, a responsabilidade deve ser individual, posto que ninguém pode responder
criminalmente além dos limites da própria culpabilidade. Nem um clube… é o
Direito Penal, com suas peculiaridades necessárias! E não me venham dizer que
princípios consagrados do Direito Penal devem ser ignorados.
Uso
essa ferramenta legal para acrescentar: racismo é crime inafiançável, e que bom
que assim seja. Racistas têm de ser punidos com rigor. Mas esses criminosos
estão por tudo: na Arena, no Beira-Rio, no Niltão, na Arena da Baixada (vejam o
caso Tchê Tchê), na Vila Belmiro (o Aranha não foi xingado só por gremistas).
Como o clube pode deter um canalha racista? Pondo uma mordaça em cada um dos 20
mil, 30 mil, 50 mil torcedores no estádio? Impossível! Mas o clube pode e deve
identificar o bandido, entregar seu nome de bandeja pra polícia e ainda puni-lo
com rigor, vetando o ingresso no estádio.
E é
aqui que eu queria chegar: tanto Grêmio em 2014 quanto o Botafogo em 2017
fizeram o mesmo. O Grêmio identificou no mesmíssimo dia daquele lamentável jogo
contra o Santos. Eram quatro pessoas, uma delas curiosamente negra, entre mais
de 20 mil pessoas. Definitivamente, não é um grupo “considerável”. A
Patrícia Moreira teve até a casa incendiada, tal foi a revolta dos milhões de
gremistas contra ela. O clube procurou o presidente do Santos. Fez campanhas
contra o racismo. Convidou o Aranha para um ato de desagravo no gramado do
estádio (é evidente que ele não tinha a obrigação de aceitar, mas deveria ter entendido
que a esmagadora maioria dos gremistas rejeitou veementemente aquele episódio e
gostaria de dizer isso para ele em um evento simbólico). Enfim, o Grêmio agiu.
E agiu com a presteza exigida pela legislação.
Não
interessa se foi um ou quatro. Os casos do Grêmio e do Botafogo são idênticos.
O Botafogo não será punido? Então está mais do que na hora de um desagravo ao
“Clube de Todos”, a maior torcida gaúcha em todas as regiões e em
todos os estratos sociais. O clube que se orgulha de ser azul, preto e branco e
que alardeia essa pluralidade que vem lá dos anos 1920, com Adão Lima, e
perpassa o século com o torcedor-símbolo Bombardão (anos 1930), o Lupicínio
Rodrigues (maior nome da música popular gaúcha, negro, gremista e autor do hino
que é uma ode à perseverança tricolor), o Everaldo (sabe a estrela dourada
pespegada na nossa bandeira em 1970? Não é por algum título. É pela alma plural
que temos), o Paulo Lumumba, da desbravadora e única até hoje torcida de
homossexuais Coligay e tantos outros. Raros são os clubes, em todo o mundo, com
a história de pluralidade e respeito às diferenças que o meu tem!
A
hipocrisia de ter excluído um clube de competição por racismo, mesmo que esse
clube tenha tomado todas as medidas cabíveis, provoca o seguinte efeito: alimenta
o racismo! Sim, porque foi uma punição que seria “exemplar” (sic),
mas nunca serviu de exemplo. E o que ocorre como consequência disso? Fica claro
que o problema foi com o Grêmio e que todos os outros clubes estão livres para
deixar seus aficionados delinquirem à vontade. Vejam bem: o Grêmio tem 8
milhões de torcedores, é um clube imensamente popular. Porto Alegre tem 1,5
milhão. Você imagina que se alcance a utopia de erradicar os bandidos entre 1,5
milhão, ou os 400 mil de Pelotas? Ora, imagine entre 8 milhões!!! É o ônus de
ser um clube imensamente popular. Tem tudo que é tipo de gente, boa e má.
Só o
Grêmio deve ficar apreensivo caso algum desmiolado, racista e/ou canalha
invente de vomitar injúrias na arquibancada?
Por
favor, não vem ao caso se foi um ou quatro.
Vem ao
caso, sim, se o clube agiu com presteza. E o Grêmio agiu como o Botafogo. Em
2014, o clube e seus torcedores foram condenados, etiquetados e execrados
publicamente em razão do voto de um auditor que, no Facebook, postava a foto
asquerosa de menininha negra envolta em rótulo de Pepsi-Cola. Agora, a vida é
leve para o Botafogo, em caso, repito, rigorosamente igual.
Não
querem punir o Botafogo?
Então
quero ser redimido da calúnia que sofri ao ser chamado de racista!
Sim,
porque o Grêmio faz parte da minha identidade, e eu JAMAIS torceria por um
clube racista. Sinto-me caluniado por causa daquele rótulo abjeto!
Hipocrisia
é o adubo que faz o racismo crescer e prosperar.
E é o
que se está fazendo neste momento em que chegam a quase 40 casos de injúrias
raciais só em 2017 e em que superam a centena desde 2014.
Mas só
o Grêmio foi punido!
Foi
punido com uma pena que deveria ser “exemplar”.
Ora,
se não era exemplar, esperamos algum tipo de retratação!
Para
darem um exemplo de justa igualdade e isonomia.

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