Reação de técnicos a Rueda explica o atraso do futebol brasileiro

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Reinaldo Rueda e Geuvânio no Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

RODRIGO
MATTOS
: Desde que o Flamengo anunciou Reinaldo Rueda, houve uma reação de
técnicos brasileiros com declarações que demonstravam a resistência a sua
chegada. Começou com Jair Ventura, passou por Vanderlei Luxemburgo. Até uma
associação de técnicos pediu para conversar com a diretoria da CBF sobre o
assunto.

Foi
talvez a reação mais agressiva a um técnico estrangeiro. Mas o Brasil é um país
especialmente fechado a treinadores de fora, sendo a liga que menos contrata os
profissionais nascidos em outras nações. Alguns vieram após o fracasso da
Copa-2014, mas naufragaram em geral por falta de adaptação.
Mas
por que isso ocorre? Talvez o melhor paralelo com Rueda seja Juan Carlos Osorio
e sua passagem no São Paulo. Era um treinador com métodos bem diferentes do
habitual no país. Seu rodízio constante de jogadores causou incômodo em
jogadores.
É
verdade que sua saída foi mais motivada pela crise política são-paulina do que
pela resistência aos métodos. Mas a tentativa de armar um São Paulo que
privilegiasse o toque de bola e aos poucos fosse se montando, como ocorreu no
Nacional, já esbarrou no desmanche do time.
Essa é
uma questão. Técnicos brasileiros estão acostumados a montar times de curto
prazo. Sabem que chega a janela de transferência, há uma crise financeira,
resultados ruins, e tudo pode mudar.
Assim,
a maioria dos treinadores se protege privilegiando a armação da defesa do time
que lhes dá uma segurança para obter melhores resultados. A estruturação
ofensiva, em geral, fica em segundo plano porque é mais complexa.
Por
isso, é cada vez mais raro vermos times brasileiros dominantes com a bola no pé
e pressionando o rival. Talvez o último time deste nível tenha sido o Cruzeiro,
bicampeão brasileiro. O Corinthians-2015 era uma equipe que chegou a um bom
padrão ofensivo também no final do Nacional, mas, quando daria um salto, foi
desmanchada. Os outros campeões brasileiros nos últimos dez anos eram mais
pragmáticos, com futebol objetivo, porém não encantador.
Quando
chega um treinador que pode propor algo diferente deste modelo, como deve
ocorrer com Rueda e como foi com Osório, há uma resistência geral. A verdade é
que os treinadores brasileiros melhoraram depois da Copa-2014, mas ainda estão
longe do nível europeu. Aprenderam a desenvolver um tipo de jogo de forma
eficiente, mas ainda falta repertório.
Por
exemplo, o treinador mais bem-sucedido do Brasil é Fábio Carille. Seu
Corinthians é  muito bem armado para
contra-atacar. Tudo indica que Carille tem potencial para elevar seu patamar e
se desenvolver como treinador – já dá sinais em certos aprimoramentos na equipe
corintiana. Mas terá estabilidade do time? Talvez uma exceção hoje seja o
Grêmio, de Renato Gaúcho, que desenvolve mais o jogo.
Obviamente,
nosso maior expoente é Tite que já atingiu outra esfera. Este, sim, é capaz a
se equiparar com os grandes treinadores estrangeiros. Mas, se for analisar, as
ideias que implantou na seleção ainda fazem pouco eco no futebol nacional.
Falta qualidade, ok, mas falta também manter jogadores, e técnico.
No
final das contas, a reação de técnicos a Rueda é uma resistência a um modelo
implantado no país. E é extremamente saudável que essa fórmula seja questionada
para evoluirmos. Só com novas ideias é que conseguiremos elevar o patamar do
nosso futebol de clubes atual.

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