Rueda leva o Flamengo à final ao engessar o Botafogo de Jair

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Reinaldo Rueda, técnico do Flamengo – Foto: Cris Dissat / Fim de Jogo

CHUTE
CRUZADO
: Pedro Henrique Torre

Natural
que muitos desconfiem da capacidade de um técnico recém-chegado de impactar na
maneira de jogar de uma equipe. É necessário conhecer as características dos
jogadores no dia a dia, suas possibilidades em campo e ainda convencê-los de
que mudar em pleno voo é uma boa possibilidade. Tempo, no português claro. Pois
Reinaldo Rueda é a exceção que confirma a regra. O técnico colombiano foi o
grande responsável pela chegada do Flamengo a mais uma final de Copa do Brasil
– a sétima. Na vitória de 1 a 0 sobre o Botafogo, no Maracanã, Rueda não jogou
um jogo. Jogou, sim, o confronto. E engessou o rival para avançar à decisão do
torneio.
Pois
no jogo de ida, sua estreia, o colombiano optou por um Flamengo bem mais
consciente do que o que era comandado pelo antecessor Zé Ricardo. Desejava
bloquear o Botafogo em sua casa. Impedir seus avanços pelos lados, travar sua
saída e deixá-lo sem fôlego. Aprendizado das derrotas com o Atlético Nacional
neste ano pela Libertadores. Conseguiu. Mas pouco jogou para sair com a
vitória. No Maracanã, a estratégia defensiva foi repetida. A ofensiva,
azeitada. Não é a ideal, longe disso. Não foi uma grande atuação do Flamengo.
Foi, sim, uma atuação eficiente e organizada.
Ao
contrário do Botafogo. Em 180 minutos conseguiu apenas um chute na meta, de
Matheus Fernandes, ainda no Engenhão. No início de jogo no Maracanã, o time de
Jair Ventura começou de maneira interessante. Tentou pressionar o rival em seu
campo, adiantou-se mais. Conseguiu um bom lance, em cruzamento de Roger para
Guilherme cabecear por cima do gol com minutos de jogo. Mas rapidamente se
retraiu em seu 4-4-2 tradicional como se reconhecesse a própria incapacidade de
criar.
E o
Flamengo tomou o jogo para si. A primeira preocupação de Rueda, claramente, era
manter a boa consistência defensiva que impediu os contra-ataques do Botafogo.
A ausência de Pimpão, suspenso, o ajudou. Guilherme, o substituto, é mais
habilidoso, mas menos voraz e agudo. Rodinei manteria o passo ao resguardá-lo.
Na esquerda, a maior dificuldade. Bruno Silva continuava por ali para infiltrar
na área e dar velocidade à saída de bola alvinegra. Sem Renê, Pará, mais
marcador do que Trauco mesmo improvisado, resolveu a questão. Parecia tudo tão
óbvio. E, de fato, foi.
Isso
porque o Botafogo tem elenco limitado e não apresentou alternativa capaz de
surpreender Rueda, desconcertá-lo em sua estratégia. Tem uma fórmula pronta e
de boa eficácia em quase toda temporada. Mas não nesta quarta-feira. Ficou
engessado. E o Flamengo, mais solto. Na primeira partida, Arão e Cuellar
alternavam como o primeiro homem a receber a bola dos zagueiros e iniciar o
jogo.
Desta
vez repetiam a estratégia de troca de posição, mas estavam claramente mais
alinhados num 4-2-3-1. E, na frente, tinha Guerrero. O peruano dá mais opções
de jogo, permite ser o eixo para que a bola vire de um lado a outro. Papel que,
fundamentalmente, deveria ser de Diego. O camisa 35, no entanto, vive má fase
técnica. Tenta muito, erra na mesma proporção. Seja em passes ou jogadas. Mas
era melhor o Flamengo. Mantinha a posse, girava a bola e tentava acelerar nas
pontas com Everton e Berrío. Mas a zaga botafoguense rebatia bem. Apenas um
chute rasteiro de Guerrero, na entrada da área, deu verdadeira emoção no
primeiro tempo marcada pela incoerência da péssima arbitragem de Wilton Pereira
Sampaio, responsável por cartões amarelos sem sentidos a Guerrero e Roger.
A
arquibancada do Maracanã pulsava em maioria esmagadora rubro-negra. Era quase
um pedido que o time acompanhasse a batida e fosse mais incisivo. O empate sem
gols mandava ambos para as penalidades. Um gol do Botafogo complicaria a vida
do Flamengo, mas parecia improvável diante de tanta timidez ofensiva. Então o
bloco rubro-negro ganhou terreno. O Flamengo avançou para tocar bola no campo
do Botafogo, que não conseguia sair da arapuca, pressionado.
Com a
defesa mais bem postada, o espaço para contra-ataque alvinegro, a única bala do
time de Jair, não existiu. E lá foi o Flamengo rondando a área do Botafogo.
Cuellar iniciava o jogo e lançava aos lados. Em segundos a bola chegava a uma
das pontas e era tocada para o meio ou cruzada. Uma tentativa clara de
intimidar o adversário, avisar que estava chegando. Um Flamengo organizado e
consciente como no primeiro jogo, mas mais incisivo. Tinha pressa, mas não
desespero. Em finalização de Guerrero, um pênalti de Marcelo, ao amortecer a
bola com as mãos, foi ignorado. Mas o Flamengo avançava, descia. O gol não
demoraria.
E até
Rodinei, tímido no ataque e preocupado com Guilherme, se sentiu à vontade para
chegar na intermediária. Enxergou Berrío na direita e o colombiano, que tentava
acelerar o jogo e se enrolava com a bola, fez jogada genial. Um drible da vaca
de letra em Victor Luís, que só entendeu o que acontecera quando o camisa 28
disparava já na área para rolar maciamente para Diego que chegava no embalo. O
toque rasteiro morreu dentro do gol e o Maracanã explodiu em uma alegria
contida dentro da apreensão. E se entregou, definitivamente, à festa.
O
preço da falta de alternativa de Jair Ventura foi alto. Com 1 a 0 contra no
placar e sem a bala única do contra-ataque, o Botafogo não soube mais o que
fazer. E se encolheu. Ficou nervoso, passou a errar passes. Bruno Silva, sempre
tão presente, era nulo. A entrada de Vinicius Junior na vaga de Berrío, jogando
Everton para a direita, apenas acirrou a situação. O endiabrado garoto causou
pânico em Luis Ricardo, que tocava para a lateral bolas dominadas e perdia a
passada da marcação. Então outro preço chegara ao Botafogo: Jair ao olhar para
o banco não tinha uma alternativa para criar jogadas. Camilo fora liberado para
o Internacional. Valencia não estava inscrito. A limitação era cruel.
Leandrinho
foi o escolhido, na vaga de Matheus Fernandes. Ao mesmo tempo, Rueda sacou
Réver, machucado, e colocou Vaz em campo. Nenhuma mudança. Na zaga rubro-negra,
Juan jogava de terno em sua partida de número 300 pelo clube. Foi praticamente
imbatível nas antecipações sobre o solitário Roger e muito bem no jogo aéreo.
Entregue, Jair tentou espelhar o 4-2-3-1 rival com Vinícius Tanque e Gilson em
campo. Faltava qualidade no ataque e o sistema defensivo, avançado com a
necessidade do gol salvador, estava em pane. Com espaço, o Flamengo trocou bola
e teve ótimos contra-ataques. Marcelo, por duas vezes, salvou o Botafogo de
levar o segundo gol, desarmando Vinicius Junior e Everton. A arquibancada, a
essa altura, já se derretia em marchinhas de carnaval.
E lá
foi o Flamengo rumo a mais uma final de Copa do Brasil, a sua sétima. Terá pela
frente o Cruzeiro, algoz da decisão de 2003, a partir do dia 7 de setembro. São
duas semanas de trabalho para Rueda. Um colombiano que chegou criticado e deu a
resposta a Jair Ventura em campo. Não foi apenas um jogo, mas um confronto de
um time só. Sim, faltou muito para o Flamengo ter atuações soberbas. Por isso,
talvez, o Botafogo tenha sido tão decepcionante no confronto. Diante de um
rival em crise, com troca de técnico, não soube como fazer frente ao ficar
engessado sem sua principal arma. Rueda, quem diria, deu a senha ao Grêmio de
como travar o Botafogo na Libertadores e avançar em um mata-mata. Em pouco
tempo, o colombiano mostrou seu cartão de visitas.

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