Um Flamengo com a confiança retomada

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Willian Arão comemorando gol pelo Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

CHUTE
CRUZADO
: Por Pedro Henrique Torre

Arena
da Baixada, primeiro turno do Brasileiro. Fim do primeiro tempo, uma falta
próxima da área para o Flamengo. Mancuello para Matheus Sávio, que vai recuando
para Renê, Rafael Vaz até chegar em Muralha, que explode em um chutão. O
Atlético-PR retoma a posse. Ilha do Urubu, segundo turno do Brasileiro. Fim do
primeiro tempo. O time troca passes vastos desde Juan até Guerrero. São 53
toques no vaivém da bola, que passa por todos os atletas, inclusive o goleiro
Diego Alves, por dois minutos e 33 segundos. A bola só para com Guerrero
derrubado por Paulo André na entrada da área. Duas jogadas contra o mesmo
adversário, com um turno de diferença, que simbolizam bem a mudança de atuação
do Flamengo. Mais do que isso. De confiança.
A
terceira vitória de Reinaldo Rueda no comando do Flamengo, 2 a 0 sobre o
Atlético-PR, passa exatamente por isso. Devolver confiança aos jogadores.
Tornar o time mais leve e consciente em seus movimentos. Sabe o momento de
defender – foi o quarto jogo sem sofrer gols – e também de atacar. Está
organizado e menos exposto a falhas individuais. Talvez em busca da manutenção
da confiança alcançada com a classificação para a final na Copa do Brasil,
Rueda manteve o mesmo time, diante do possível. Réver, lesionado, foi
desfalque. Rhodolfo entrou em seu lugar. E Everton Ribeiro permaneceu no banco
de Berrío. O 4-2-3-1 que tem seu coração em Cuellar e Willian Arão, volantes de
bom passe. O time girou.
Mais à
vontade, Cuellar novamente iniciava o jogo com qualidade, buscando o passe
vertical, com o suporte de Arão mais à direita, avançando ao ataque. Era por
ali a preferência de ataque do Flamengo. Berrío, destaque na semifinal da Copa
do Brasil, estava solto. Forçava o jogo em cima de um atormentado Fabrício com
velocidade e força. O Atlético-PR, também em um 4-2-3-1, não conseguia ter a
bola para dar velocidade aos lados com Sidcley e Nikão. Guilherme,
centralizado, acabava encaixotado entre volantes e zagueiros e buscava saída
apenas pela esquerda. De pé em pé, o Flamengo protegia a sua área e rondava a
defesa adversária. Não tinha pressa. O gol não custaria a sair.
Escanteio
de Everton pela esquerda, cabeçada de Guerrero, rebote de Weverton e toque de Diego
para o fundo da rede. Com apenas 16 minutos o Flamengo fazia o jogo parecer
fácil. 1 a 0. De fato, difícil não era. Com os dois bons volantes, Diego não
retorna mais até os zagueiros para iniciar o jogo com qualidade. Permanece mais
à frente, menos desgastado, para pensar o jogo e trabalhar com o bom pivô de
Guerrero. Não era brilhante, mas errava menos do que em outro jogos em dribles
e passes. Buscava mais toques de primeira. Esperava as passagens de Arão e
Berrío pela direita para tentar enfiada de bola por baixo ou pelo alto. Um
Flamengo mais cerebral, raciocinando antes de concluir cada jogada. Mais
mortal, até.
Pois
as chances de gol, mesmo, não foram tão fartas quanto em outros tempos. Mas o
aproveitamento tem sido maior. Quando Berrío venceu Fabrício mais uma vez pela
direita e cruzou, Wanderson rebateu nos pés de Arão. Em vez do desespero de
outros tempos, de um chute afobado nas alturas, uma batida colocada no cantinho
direito de Weverton. Com 31 minutos, 2 a 0 com total tranquilidade na Ilha do
Urubu. Jogava um time só. De peito estufado, capaz de se impor ao adversário
como no lance de mais de 50 toques por todo o time que só não parou dentro do
gol porque Guerrero foi derrubado na entrada da área. Um primeiro tempo
dominante do Flamengo com quase 60% de posse de bola, de acordo com o site
Footstats.
Obviamente
Fabiano Soares faria mudanças. Sacou o inoperante Ribamar e Sidcley, com
dificuldades pela direita, para as entradas de Pablo e Douglas Coutinho. Este
último mais avançado, talvez na esperança de uma bola comprida para usar a
velocidade e ser lançado entre os zagueiros. Ocorre que o Flamengo de Rueda não
gosta de correr riscos, jogar adiantado, com espaços entre os setores. É mais
fechado, bem guarnecido na defesa. Juan, assim, joga o fino. Não tem de correr
atrás de velocistas. Apenas se antecipar, arte na qual é um mestre desde tempos
idos na carreira. Atuação de alto nível, assim como diante do Botafogo, do
camisa 4.
E
assim o Flamengo manteve o passo. Deu campo, mas não deu espaço. Chamou o
Atlético-PR aos seus domínios para encaixar um contra-ataque e matar o jogo.
Cerebral. Teve duas boas chances, uma perdida de forma inacreditável por Arão,
lançado por Berrío, e outra em chute promissor de Guerrero de fora da área. Era
um jogo até controlado, ainda que uma escapada de Nikão pelos lados com
cruzamento no vazio acontecesse. Fabiano Soares perdeu a paciência. Mesmo com
campo, avançado, o Atlético-PR não assustava. Trocou o posicionamento de Pablo
com Coutinho, talvez pela estatura, na grande área. Tentou caprichar nos
cruzamentos para ao menos diminuir o prejuízo e, de fato, entrar no jogo.
Rueda
lançou Romulo e, minutos depois, Vinicius Junior nas vagas de Berrío e Cuellar.
Manteve o 4-2-3-1, com o garoto na esquerda, Everton na direita e saídas
rápidas. Weverton fez mais três boas defesas em lances de Guerrero, Romulo e
Rhodolfo. O Atlético-PR? Não conseguia penetrar na defesa rubro-negra.
Rossetto, volante de bom passe, entrou no time para tentar esses lançamentos ou
arremates longos. Melhorou pela qualidade, mas faltava espaço para trabalhar,
principalmente pelo seu lado esquerdo, onde Rodinei e Arão fechavam bem.
Everton Ribeiro, a minutos do fim, entrou na vaga de Diego apenas para sentir o
estado do gramado da Ilha. O apito final chegara em breve.
Vitória
segura e costurada sem grandes emoções, com calma do toque de pé em pé, ainda
que os dois gols tenham saído em cruzamentos. O Flamengo afoito, pressionado,
que terminava jogos empilhando atacantes e quase em um 4-2-4 com 40 cruzamentos
ficou para trás. Neste domingo foram 25 cruzamentos em 14 finalizações, seis no
alvo. 429 passes certos trocados, 53 apenas naquele lance do fim do primeiro
tempo. Errou apenas 24. Símbolo de um time que teve a confiança de volta. E que
agora entra em campo com nervos no lugar e cabeça erguida. É este Flamengo de
Rueda.

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