Vertical, infiltrador e mutável: o que esperar de Rueda no Flamengo?

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Reinaldo Rueda e Juan no Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

ESPN: Apresentado
como novo treinador do Flamengo nesta segunda-feira, Reinaldo Rueda chega ao
Brasil credenciado ao sucesso que fez no Atlético Nacional. Por lá construiu
praticamente uma dinastia na Colômbia: Libertadores, Recopa, Campeonatos
Colombianos, Copa… Não foram poucos os títulos conquistados na cidade de
Medellín. Mas, afinal, o que esperar do treinador colombiano nesta sua passagem
pelo futebol brasileiro?

O
primeiro ponto a se destacar é o choque cultural que ele pode vir a trazer ao
futebol brasileiro. E vamos tirar como parâmetro a sua passagem pelo Atlético
Nacional, onde praticou um futebol altamente vertical, intenso e até
“mutável”. Rueda pensa o jogo de uma maneira um pouco diferente da
que estamos acostumados e, sem tempo para colocar tais ideias em prática, pode
ser queimado como os “Aguirres”, “Garecas” e outros gringos
que por aqui passaram.
Demonizado
por boa parte da crítica, o tal do rodízio de jogadores fez parte do seu dia a
dia durante este período vencedor no Atlético Nacional. Juan Carlos Osório seu
antecessor, por exemplo, sofreu certa rejeição por conta disso no São Paulo.
Rueda, no entanto, não é um “improvisador nato”. Não fazia tantas
trocas, mas gostava de usar as características de seus atletas, principalmente
no meio, para levar vantagem sobre adversários.
Estas
alterações nos 11 sempre passavam pelas necessidades estratégicas do jogo. Mas
foram raros os momentos em que o colombiano escolheu usar um volante mais
marcador na sua essência – caso de Márcio Araújo. Na grande maioria das vezes,
o novo comandante do Fla sempre buscou ter meio-campistas mais construtores na
linha de 2 à frente da linha defensiva do 4-2-3-1. Na época Mejía, Sebástian
Pérez e até Alejandro Guerra (meia de origem) eram escalados na função. Cabia a
eles dar maior qualidade na iniciação das jogadas. Agora ele terá em mãos
Cuellar, Willian Arão e até o jovem Ronaldo, que teve poucas oportunidades com
Zé Ricardo.
E
esses primeiros passes na primeira etapa de construção eram importantíssimos
para a fluidez ofensiva da sua equipe. Rueda pratica um futebol apoiado. Tenta
fazer com que o portador da bola tenha sempre duas ou três opções para jogar.
No entanto, busca apoios mais longos e verticais. Por conta disso, seus
volantes tinham um forte passe de ruptura, que quebravam as primeiras linhas de
marcação. A busca era sempre achar os espaços entrelinhas, seja em Macnelly
Torres (meia, mas com boa retenção da bola) ou mesmo nos pontas que, em alguns
momentos, também circulavam por uma região mais central. Esse jogo mais direto
e objetivo, inclusive, é um dos pontos que a equipe rubro-negra, acostumada a
longas posses sem grande efetividade em 2017, 
precisar evoluir.
Ainda
dentro deste rodízio de jogadores, o treinador variava o uso de dois pontas
mais agudos (Éverton, Berrio e Geuvânio, por exemplo) com um meia mais
organizador por um dos lados do campo. O agora palmeirense Guerra, por exemplo,
fez de tudo sob seu comando. Atuou mais recuado como volante, jogou como meia
central e também como ponta-construtor – função preferida de Éverton
Ribeiro.  O jovem Marlos Moreno, mais
tarde vendido ao Manchester City e ainda sendo emprestado para equipes menores
da Europa, também cumpria mais de uma função. Com Rueda, atuou aberto pela
esquerda e também como um 9 mais móvel.
Toda
essa variação de características e escolhas para determinadas partidas pode
casar muito com o plantel que o Flamengo tem em mãos hoje. Afinal, trata-se de
um dos elencos com mais profundidade do Brasil e que, dentro destas ideias do
treinador, terá uma rotatividade interessante.
Apesar
de ter usado o 4-2-3-1 como plataforma base para sua equipe, Rueda também não
se prende muito ao sistema. Variou para o 4-1-4-1 e até para formações com três
zagueiros em partidas fora de casa. O mais importante é, independentemente da
formação, é que sempre tentou manter suas ideias centrais de jogo. O que prova
o quanto o sistema, mera referência posicional, tem perdido sua relevância com
o passar do tempo. Sua prioridade sempre foi encaixar características e fazer
com que seus jogadores se alto completassem.
Um dos
pilares do seu modelo de jogo para atacar o gol do adversário era a
infiltração. Com incessantes movimentos em profundidade e passes verticais
vindos dos volantes, o Atlético Nacional de Rueda era muito móvel na construção
do jogo. Toca e projeta no espaço, toca e projeta no espaço… Diagonais dos
pontas e corridas em profundidade dos centroavantes (principalmente com Borja,
forte nessa corrida no ponto futuro da bola) eram seus movimentos preferidos.
Era um time que acelerava a qualquer custo.
Tanto
que, parte dos gols marcados, acontecia por uma ação sem a bola muito nítida no
modelo: o perde e pressiona. O novo treinador do Flamengo nunca escondeu o seu
desejo em recuperar a bola o mais rápido possível. Perdeu a posse, ataca a
bola, agride e coloca intensidade. Por vezes a bola era recuperada ainda no
campo ofensivo e com o adversário desequilibrado, ainda tentando entrar em
organização ofensiva. Esta era uma das grandes marcas daquele Atlético
Nacional.
Por
outro lado, essa pressão imediata expunha dava uma certa exposição à linha
defensiva. Sempre que o adversário conseguia tirar essa bola da pressão,
ganhando campo para atacar, os zagueiros desgarravam em encaixes individuais
para caçar os atacantes. Por conta disso, Rueda não tinha em seus laterais
jogadores com grande liberdade ofensiva. Ambos construíam mais por trás e
tinham bons movimentos na transição defensiva, o que ajudava nessa situação com
os zagueiros, gerando boas coberturas e superioridade numérica na volta. A
situação se tornava ainda mais perigosa com Henriquez, zagueiro de pouca
mobilidade e troca de direção – casos de Réver e Juan no elenco rubro-negro.
Assim
como qualquer treinador, Rueda tem pontos fortes e fracos. A questão vai ser
tentar enxergar a realidade em que ele agora está inserido e se adequar às
características do elenco que tem em mãos. Toda essa análise tem como base seu
último trabalho, mas, num local e jogadores diferentes, não quer dizer que
todas estas ideias serão repetidas e “copiadas”. Que o colombiano
tenha tempo para quebrar de vez esse paradigma dos estrangeiros por aqui.
Afinal,
trata-se de um profissional de qualidade já comprovada. E, ao invés de vez
reclamar da falta de espaço para treinadores brasileiros, temos que encarar
essa chegada como uma nova oportunidade de trocar experiências. Nosso crescimento
também passa por isso.

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