“Xenofóbico, Jair mostra medo da concorrência”, diz Cosme Rimoli

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Jair Ventura, do Botafogo – Foto: Vitor Silva/SSPress

COSME
RIMOLI
: “Não que eu seja contra os estrangeiros trabalharem aqui, mas
estamos perdendo mercado já fora. Daqui a pouco perdemos o interno. Então do
que adianta se preparar, estudar? Venho fazendo cursos sempre, me preparando.
As pessoas tem que primeiro olhar para cá, para depois olhar para fora.

“Isso
(chegada de técnicos estrangeiros) eu não vejo de uma maneira legal. Respeito a
decisão, ele é um grande treinador, acho que pode dar certo. Mas estou falando
em nome dos treinadores, como jovem e brasileiro. Isso é muito ruim.
“Hoje
eu não posso trabalhar no exterior porque não tenho licença. E qualquer pessoa
pode trabalhar no Brasil. Então isso não é legal. Desejo sorte ao Rueda, mas
temos que repensar.
“Estão
tirando o espaço dos outros que querem trabalhar também.”
Jair
Ventura…
“A
mídia protege muito os estrangeiros e porrada nos brasileiros, essa é a grande
verdade. Se eu levasse uma caneta azul e vermelha para a beira do campo iam
dizer que eu estava ultrapassado, velho, não sei o quê. Veio para cá um
colombiano, com todo o respeito com a história dele que a gente conhece, que
não tem muita coisa de absoluta, de uma anormalidade, é um treinador normal,
trouxe uma caneta azul e vermelha e acharam legal. Aí o Joel Santana com a
prancheta virou folclórico.
“É
característica de parte da imprensa de tratar nós como cachorro vira-lata e lá
de fora é tudo buldogue. Se eu pego o Carlinhos, lateral-esquerdo, e boto para
jogar de ponta-direita, o Luxa é um Santos Dumont, professor pardal. E aí veio
o cara e fez isso em ninguém falou nada, é moderno.”
Vanderlei
Luxemburgo…
“O
Guardiola se mostra vitorioso, um dos melhores do mundo, pois alcança
resultados. Agora, trabalhar na Europa é mais tranquilo. Para mim, eles só vão
ganhar uma nota 10 quando forem ao Brasil, disputarem um Brasileirão e ganhar.
Lá, eles trabalham com os melhores jogadores, têm dinheiro e tempo para
planejar. No Brasil, o cara pode ser líder do campeonato. Se não ganhar no fim
de semana, é ameaçado de demissão.
O São
Paulo vem de trocas de treinadores. Não está nessa situação pelo clube, o clube
não tem problema. Os estrangeiros saíram e prejudicaram demais o planejamento,
porque mudam a maneira de jogar e a filosofia de trabalho. Isso mexe, sim, com
os atletas. Não é problema da diretoria, é dos técnicos estrangeiros.”
Muricy
Ramalho…
Jair
Ventura falou ontem com todas as letras o que os treinadores brasileiros
acreditam. A CBF deveria utilizar a política que era utilizada, por exemplo,
para carros estrangeiros. De 1976 a 1990, era proibida a importação de carros.
A desculpa era que a indústria brasileira deveria se desenvolver. Na verdade,
os militares aceitavam a pressão, principalmente dos Estados Unidos, e fábricas
montadas e comandadas por norte-americanos forçavam a população a utilizar
carros ultrapassados.
Era
uma maneira de deixar longe a concorrência de fábricas alemãs, japonesas,
francesas, coreanas.
Fernando
Collor abriu as fronteiras para os carros, mas diz a lenda, que estava mais
interessado no uísque Logan, que tanto apreciava, e que o obrigava a pedir
favores, para ter uma garrafa escocesa sempre à mão.
O
Brasil é conhecido no mundo como exportador de pés de obra e não de cérebros.
Os treinadores brasileiros são desprezados e estão longe dos grandes clubes
europeus. O conceito petrificado é que a Seleção conquistou cinco títulos
mundiais graças aos jogadores e não aos técnicos.
A
história fria mostra que o complexo de vira-latas, que Nelson Rodrigues tanto
clamava depois da Copa de 50, foi espantado graças a um estrangeiro. Bélla
Guttman era um austríaco nômade, que cruzou o mundo ganhando títulos e
espalhando a importância tática no jogo. Foi contratado pelo São Paulo em 1957.
Ganhou o Campeonato Paulista utilizando o 4-3-3, um absurdo na época.
Quem
era seu auxiliar? Vicente Feola, treinador da Seleção Brasileira na Suécia. E o
chefe da delegação brasileira na Copa de 58, que adorava discutir até o esquema
tático com os técnicos? Paulo Machado de Carvalho, que era diretor do futebol e
quem contratou Bélla Guttman. Não foi por acaso que a inesquecível seleção de
58 jogava no 4-3-3, forçando a recomposição de Zagallo, enquanto seus
adversários atuavam no 4-2-4.
Em
1962, Aymoré Moreira seguiu com os ensinamentos de Guttman.
Em
1970, Zagallo utilizou os esquemas versáteis de Santos e Botafogo. Os dois
times tinham craques no elenco. Pelé, Jairzinho, Paulo César Caju, Clodoaldo,
Edu, Roberto. Os dois clubes eram os que mais excursionavam naquela época e
mantinham contato com times como Real Madrid, Milan, Benfica, Bayern, Inter de
Milão, Estudiantes, Ajax.
A
movimentação constante no time de Zagallo foi uma maneira de encaixar meias,
camisas 10, nos seus times. Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino. Mas também
influência do que Santos e Botafogo faziam e que aprenderam com o intercâmbio
com técnicos estrangeiros.
Filpo
Nuñes virou folclórico no final de sua carreira. Mas na década de 60, o
argentino contribuiu muito para o futebol deste país. Outro nômade que
circulava pela América do Sul. Montou a primeira ‘academia’ do Palmeiras. O
versátil time já era chamado de carrossel pela imprensa da época, pela
movimentação constante dos jogadores. A importância de seu trabalho foi tanta
que o seu Palmeiras recebeu a honra de representar a Seleção Brasileira, com
camisa amarela e tudo, na inauguração do Mineirão. Vitória por 3 a 0 diante do
temível Uruguai.
Parreira
também já deixou escapar que a eficiência da marcação do futebol alemão foi a
base da conquista de 1994. E Felipão utilizou o líbero italiano na Copa de
2002, a última conquista brasileira.
Tite
revolucionou a Seleção atual porque passou um ano sabático estudando na Europa.
Seu time tem influência assumida do italiano Ancelotti, com toques do catalão
Pep Guardiola, dos argentinos Simeone e Carlos Bianchi. Adaptou o que
considerou melhor e o Brasil ressuscitou.
Diego
Aguirre, Bauza, Osório, Daniel Passarella, Paulo Bento, Jorge Fossati, Gareca,
Miguel Angel Portugal passaram pelo Brasil nas últimas décadas. Não
acrescentaram porque não eram grandes treinadores.
Reinaldo
Rueda é.
Mas
mesmo que seu trabalho não dê certo no Flamengo, ele tem todo o direito de
trabalhar no Brasil. Se por aqui não se exige curso específico, o problema é da
CBF. A elite do futebol europeu rejeita técnicos brasileiros porque acompanhou
o fracasso de Felipão e Luxemburgo. Técnicos que nem se deram ao trabalho de
falar bem o idioma dos clubes que trabalhavam.
Não
houve preconceito com Felipão e Luxemburgo.
Houve
fracasso.
É bem
diferente.
Jair
Ventura, com seus apenas 38 anos é a grande esperança como técnico neste país.
O que fez em um ano no Botafogo é notável. Mas sua postura protecionista é um
vexame. O mundo está aberto a treinadores estrangeiros. Ele mesmo, se continuar
com sucesso, e tiver a disposição de aprender o idioma do país onde tiver
convite, e fizer o curso que o futebol europeu exige, trabalhará sem problemas.
A
exigência do curso não é restrição, xenofobia.
É a
garantia de um treinador profissional, com conhecimentos básicos para assumir uma
equipe. Não é um preconceito contra estrangeiros. Mas uma maneira de dar
dignidade à profissão. Travar os aventureiros, os amadores, ex-jogadores sem
preparo, dirigentes e até jornalistas que nunca foram técnicos.
Se a
CBF não exige nada de especial aos técnicos estrangeiros, é apenas a velha
incompetência vindo à tona.
Quando
Jair reclama que o mercado brasileiro é para os brasileiros, fica pobre demais.
Puro
provincianismo.
Xenofobia.
Protecionismo.
Não
combina com a postura evoluída que havia demonstrado.
O
futebol brasileiro precisa de intercâmbio.
Novos
ares, novas ideias.
O
fraco nível do Brasileiro não é à toa.
Apesar
de o país ser o mais rico…
A
última Libertadores conquistada foi em 2013.
Os
técnicos deste país são fracos para a elite mundial.
E
precisam dos estrangeiros para se aprimorarem.
Mas de
qualidade, como Reinaldo Rueda.
Assim
evitam vexames históricos no Exterior.
Simples
assim…

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