A maldição dos 90% por 10% mata os clássicos cariocas

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Torcida do Flamengo no Engenhão contra o Botafogo – Foto: Gilvan de Souza

MAURO
CEZAR PEREIRA
: A tradição do futebol brasileiro sempre foi de clássicos
estaduais com duas torcidas. No Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte,
Goiânia, Salvador, Fortaleza, Belém… Raros eram os estádios onde a divisão
era como na Europa, os 90% de torcedores do time mandante com 10% do visitante.
Ou percentuais próximos disso. Com o tempo mais essa cópia barata do que
acontece lá fora foi tomando os Estados e os estádios. O futebol carioca era
uma rara resistência a tal modismo.

Os
clássicos no velho Maracanã lotado e suas tempestades de bandeiras, como dizia
o narrador Waldir Amaral; ficaram no passado. Não só pelo estupro do templo,
mas também pela opção cada vez maior de dirigentes pelo individualismo burro,
que afasta o torcedor, esvazia ainda mais as arquibancadas e sufoca rapidamente
“o maior espetáculo da terra”, como tantos se referiram inúmeras
vezes ao ritual das duas massas humanas em cada um dos lados da velha casa do
torcedor.
Jogo
com visitantes em menor número disputado entre rivais resulta num cenário mais
violento. A atmosfera é tensa para quem vai em minoria a um clássico nessas
condições, se comparado ao velho formato no qual as duas torcidas chegavam com
a mesma quantidade, ou algo próximo disso. Com o Botafogo preferindo o Engenhão
semi deserto a dividi-lo com Flamengo, Vasco e Fluminense e os vascaínos
mandando clássicos em São Januário, o golpe final foi dado.
Flamengo
e Fluminense seguiram o mesmo caminho, exceto quando se enfrentam. Os clássicos
cariocas estão morrendo aos poucos. Pela banalização vista no Campeonato
Estadual, repleto de duelos inúteis e sem graça entre os quatro grandes, e
também pela maldição dos 90% por 10%. Apenas o Fla-Flu respira com o Maracanã
aberto para tricolores e rubro-negros em idênticas condições. É o que resta de
algo tão marcante da cultura do Rio de Janeiro e seu futebol.
Botafogo
e Flamengo jogaram para 5.155 pagantes no domingo, com o preço médio do
ingresso a R$ 55,87. Como o Flamengo cobrou R$ 150 a inteira e R$ 75 a meia
entrada dos alvinegros na semifinal da Copa do Brasil, os botafoguenses
repetiram tais preços para os rubro-negros que foram ao estádio Nílton Santos,
o “Engenhão”, apenas 238. Isso mesmo, a maior torcida do país, num
clássico carioca, disputado na cidade do Rio de Janeiro, comprou 283 ingressos
para ver seu time jogar.
Podemos
apontar as causas de algo tão ridículo, dos preços altos às partidas recentes
entre os dois rivais. Da violência no Rio às brigas entre torcidas dos dois
clubes. Mas não podemos fechar os olhos para a inutilidade de um sistema que
limita uma torcida, dificulta seu acesso com preços absurdos e assume que
prefere cadeiras vazias a tentar encher o estádio. Flamengo e Botafogo vêm
fazendo isso. Os 90% por 10% e a incompetência dos cartolas asfixiam nossos
clássicos.
PS:
uma tese estapafúrdia surge nos comentários abaixo: “o Botafogo tem menos
torcida do que o Flamengo e leva desvantagem”. Ora, o New Maracanã recebe
hoje em dia, no máximo, 70 mil pessoas. Não existem pelo menos, digamos, 30 mil
botafoguenses? Óbvio que há muito mais. No passado, com públicos superiores a
150 mil pessoas, 60 mil, 70 mil alvinegros iam ao velho Maracanã ver seu time
contra o rival. Tudo depende de se fazer as coisas direito, promovendo os
clássicos e viabilizando a presença dos torcedores. Mas há quem prefira o clima
de velório com um estádio para 45 mil pessoas recebendo menos de 6 mil.

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