Eduardo Bandeira fala sobre futebol, política, ingressos e estádio

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Presidente do Flamengo – Foto: Fred Gomes

GLOBO
ESPORTE
: Em 90 minutos, às vésperas da final desta quarta-feira contra o
Cruzeiro, na grande decisão do Mineirão, o presidente Eduardo Bandeira de Mello
se misturou com o torcedor rubro-negro. Lamentou as críticas a seus jogadores e
até ao preparador de goleiros – classificou como bullying e paranóia -, falou
sobre planos de estádio e estudos que estão sendo feitos para democratizar o
acesso a todas classes sociais às partidas.

Lembrança
da crise na prisão de Godinho, embates com adversários políticos e também
possível saída do Flamengo para o Congresso ou a Alerj entraram na longa
conversa com o mandatário, que vai para o último ano de gestão em 2018.
Confira
a entrevista exclusiva com Bandeira abaixo.
GloboEsporte.com: Você esteve no CT no
último treino antes da viagem. Como está a concentração, o clima, para a final?
Eduardo
Bandeira de Mello: Sempre estou no CT. Nosso grupo de jogadores é extremamente
responsável e tem plena consciência do que é o Flamengo.

Vejo na sua sala o quadro da Copa do Brasil 2013 e um calendário em sua mesa que destaca o mesmo título. Como está o torcedor Eduardo para essa final: confiante?

O torcedor Eduardo quer que essa parede fique repleta de quadros de títulos do Flamengo. A nossa obrigação é essa. Correr atrás de todos títulos. Pode ter certeza que quarta-feira, respeitando muito o Cruzeiro, o Flamengo vai jogar para ganhar.
A confiança está alta?
Confiança de quem sabe que o trabalho está sendo feito, bem feito, de quem conhece os jogadores. Respeitando sempre o Cruzeiro.

Desde janeiro, você tem acumulado o cargo
de vice-presidente de futebol. O que mudou na sua rotina? Seus pares da
diretoria chegaram a sugerir a escolha um novo VP de futebol, não?
O
Flamengo tem uma administração profissional. Foi uma promessa de campanha
inclusive. Então, eu sou vice de futebol, sou presidente, mas o futebol é
tocado pelo departamento. Existem argumentos prós e contra (para escolher um VP
de futebol). Agora, eu acho que não faria muita diferença. Quando a barra pesa,
independente de ser ou não vice de futebol, essa conta vai chegar em mim. E tem
que chegar mesmo. Porque o responsável acaba sendo eu.
Como funciona hoje essa hierarquia no
futebol? Você tem participado mais, assim como Fred Luz, com o diretor Rodrigo
Caetano…
O Fred
Luz é diretor geral do clube. O departamento de futebol está abaixo dele, assim
como o de marketing, como o financeiro… Os vice-presidentes do Flamengo
formam uma espécie de conselho de administração. Traçam diretrizes, cobram
resultados. O dia a dia do Flamengo é totalmente tocado pelos profissionais.
Isso vale para o futebol, como para esporte amador, marketing…
Mas o Fred tem participado bastante do
futebol, até em contratação, viagens para negociar jogador…
Ele
sempre participou. Ele é chefe do Rodrigo Caetano. Então é natural que
participe, que acompanhe o departamento de futebol. Futebol é o assunto mais
importante do Flamengo, embora os outros todos também sejam. Mas o
Flamengo é notícia por causa do futebol.
O Flamengo foi campeão carioca, mas caiu
na Libertadores cedo. Caso não ganhe mais título algum no ano, acha que pode
ser considerado um ano ruim? O senhor já falou outras vezes que o futebol é o
calo dessa gestão, certo?
Não
acho que o futebol seja o calo desta gestão. Acho
que os investimentos estão sendo feitos no clube inteiro, e o futebol, que
sofreu no início da administração, está começando a poder ser mais investido. É
um processo. Estamos dando todas as condições para que as coisas aconteçam. Acho
que é um indício de que a coisa está andando bem.
Mas
não podemos garantir que vai ganhar todos os campeonatos. Temos que dar
condição para o Flamengo disputar em alto nível e jogar para ganhar todos os
torneios. E isso estamos fazendo. A gente pode terminar o ano com um sucesso
maior ou menor, mas o trabalho está sendo feito. Isso ninguém pode negar. O
ideal, claro, é ganhar quarta-feira, ser campeão da Copa do Brasil, ganhar a
Sul-Americana.
Vou
dar um exemplo, nosso time de basquete é o melhor do Brasil. No entanto,
perdemos para o Pinheiros nas quartas de final. Isso
quer dizer que o Marcelo Vido (diretor de esportes olímpicos) e o Neto (técnico
do basquete) são incompetentes? Pelo contrário. São os mais competentes nas
suas atividades. Mas pode acontecer. Nós encontramos o Flamengo em uma situação
caótica. Nos tivemos muitas dificuldades. O ano de 2014 foi um pouco melhor,
2015 também. A partir daí estamos investindo cada vez mais no futebol. Esse
resultado vai acontecer. Você não pode garantir que venha hoje, amanhã ou
depois de amanhã. Mas se você está fazendo a coisa certa vai acontecer.
Depois da traumática eliminação na
Libertadores, muito se falou sobre o termo ”falsos rubro-negros”. Afinal, a
quem se referia?
Essa
questão foi explorada maliciosamente. Fui a uma das coletivas no CT e
expliquei. Jamais chamei torcedores de falsos rubro-negros ou disse que quem
criticava era falso rubro-negro. Falo daquele cara que torce contra por motivos
pessoais, motivos políticos, econômicos. São poucos, muito poucos. E não existe
só no Flamengo. Quando o Flamengo perdeu do San Lorenzo, estavam comemorando os
que não gostam do Flamengo e os poucos falsos rubro-negros.
Eu já
fui oposição e nunca fui falso rubro-negro. Falso rubro-negro é aquele que quer
se beneficiar pessoalmente ou politicamente do clube. E torce para o time
perder para ver se sobra uma beirinha.
Esse
tema tentaram distorcer como também fizeram o mesmo quando falei nos meus
protegidos. Você
não protege seu filho que sofre bullying? Ao proteger jogadores que estão sendo
desrespeitados, o time todo se sente protegido. Protegido
é uma maneira de falar. Jogador que não está sendo perseguido hoje, pode ser
amanhã e sabe que vai ter apoio do presidente, dos diretores…
O Pará há pouco tempo foi perseguido, e o
senhor o protegia…
Em
2015, na reeleição, teve um rubro-negro influente que me falou: ”Estou
pretendendo votar na sua chapa, mas só vou fazer isso se mandar o Pará embora”.
Eu disse para procurar outro candidato. Ele acabou votando em mim.
O Pará
não é o novo Leandro, mas é um lateral-direito que tem inúmeras qualidades e é
reconhecido por todo mundo, em outros clubes inclusive. É raçudo, tem a cara do
Flamengo e é Flamengo desde criança.
E tem
tido um desempenho ótimo. Se jogou mal algumas partidas em 2015 e foi
perseguido, nada mais justo do que dar um respaldo. E hoje está provando ser
ótimo jogador. E pode acontecer com jogadores que estão sendo perseguidos hoje.
São ótimos jogadores.
Você fala do Márcio Araújo, do Gabriel, do
Rafael Vaz, correto?
Rafael
Vaz, Muralha, Márcio Araújo, Gabriel, Pará lá atrás…Eu já disse para o Pará
que ele deixou de ser meu protegido, já passou desta fase. Ele já não sofre
mais bullying (risos).
Após a eliminação da Libertadores, o Zé
Ricardo recebeu respaldo da diretoria. Soube que ficou abatido para demiti-lo.
Queria mantê-lo?
O Zé
Ricardo é um excelente profissional e vai demonstrar isso na sequência da
carreira dele. Você
ver uma pessoa dedicada, estudiosa, trabalhadora e que faz um bom trabalho e
acaba sofrendo um massacre, o que faz com que perca a serenidade para
trabalhar.
Acho
que o que aconteceu foi isso. O que acho que errei no Flamengo foi alta
rotatividade de treinadores. Poderíamos ter tido mais paciência com alguns, mas
não quero citar nomes. Essa coisa de trocar a cada três derrotas não vai levar
a lugar nenhum. Nós tínhamos sim a intenção de manter o Zé Ricardo para que ele
fizesse o trabalho dele, mas chegou um ponto que não deu.
Desejo
sorte para ele na sequência da carreira. Agora a realidade é outra. Rueda vai
agregar muito ao nosso trabalho, trazendo experiência internacional. Até para
as competições sul-americanas, que o Flamengo não vem desempenhando tão bem
quanto a torcida merece.
Mas esse clima de “massacre” do
Zé estava em processo até bastante tempo antes da demissão. Acha que demorou a
mexer?
É
difícil dizer em que momento a coisa aconteceu, ou se podia ter sido um pouco
antes ou depois. Identificamos como irreversível naquele momento. Foi uma
avaliação inclusive dele. Mas nada contra ele, tanto que houve a intenção de
mantê-lo conosco em outra função. Mas acho que é um treinador que vai fazer
história no futebol brasileiro.
Você não costuma se controlar quando é
xingado nos estádios. Tenta se policiar?
Tem
gente que gosta de mim e tem gente que não gosta. Quando acontece alguma coisa
assim, que é ruim para o Flamengo, predomina quem não gosta. O que não quer
dizer que não exista manifestação de carinho. Naquele Flamengo x Palmeiras, que
o time foi prejudicado pela arbitragem de maneira covarde, terminou o primeiro
tempo 2 a 2, com dois gols irregulares do Palmeiras, a torcida foi para lá,
tirou foto, gritaram meu nome.
Quando
acabou, 2 a 2 exatamente igual do intervalo, todo mundo chateado, quem foi para
lá foi o pessoal contra. Não aconteceu nada que fizesse a torcida mudar de
ideia, eram pessoas diferentes.
Mas
não foi a primeira vez que isso aconteceu. Teve
um jogo de basquete que cuspiram na minha mulher. Na Arena, o Flamengo tinha
acabado de perder para o Fortaleza e tinha sido eliminado da Copa do Brasil. Fiquei
ali da pista vendo o jogo, e dois ou três torcedores xingando o jogo inteiro.
Na hora de sair, foram para o acesso e cuspiram. É a torcida? Não. São dois,
três.
É difícil manter o sangue frio nesses
protestos?
O
ideal seria que eu fosse um lorde, de repente lá no Itamaraty conseguem
encontrar um presidente do Flamengo melhor do que eu. Procuro me policiar, mas
têm horas em que eu sou torcedor. Fiquei mais de 50 anos na arquibancada e de
repente viro presidente. O torcedor aflora de vez em quando. Em Campinas,
contra a Ponte, eu não resisti. Tinha um sujeito de costas para o campo o jogo
todo, nem via o jogo, só me xingando, xingando, xingando… A Ponte ainda faz o
primeiro gol – irregular, por sinal. Depois o Flamengo empata e vira com o
Jorge. Apontei para ele, fiz uns sinais, e a Fox estava filmando. Mas a banana
do Avaí (discutiu com quem o xingava na Ressacada) foi para um torcedor só.
Todo mundo tem seus defeitos.
O senhor reclama muito de arbitragem.
Arrepende-se em algum momento desse comportamento após as partidas?
Acho
que me exaltar é claro que não devo. Mas minhas reclamações de arbitragem são
todas fundamentadas. Raramente,
o juiz erra a favor do Flamengo, e a gente reconhece e coloca por escrito no
site. Gol anulado do Jô, por exemplo, mandei por escrito para a CBF.
Ano
passado, no jogo Flamengo x Corinthians no Maracanã, teve gol do Guerrero em
impedimento e eu mandei para a CBF. Mas o jogo do Palmeiras nesse ano foi um
escândalo. O do ano passado no Allianz foi um escândalo.
A Ilha
não vem recebendo grandes públicos e teve o quinto jogo seguido de déficit na
bilheteria. A política de preços vai ser revista?

Temos
que estar sempre antenados e ligados em tudo que pode melhorar. Não só em
relação à política de preços, como em relação a qualquer outra coisa. Vocês
acham sinceramente que a Ilha não tem lotado por causa de preço? Por que as
gratuidades não são aproveitadas aí? Não tem preço mais barato do que zero. Têm
pessoas que podem ir de graça e não vão.
Tem
alguma outra coisa aí: ou a questão do transporte ou de violência na Linha
Vermelha… Os jogos que fizemos em horários mais acessíveis lotaram, como o
jogo em Vitória de manhã. Não necessariamente não lota por causa do preço.
Daniel Orlean e Bruno Spindel (vice-presidente e diretor de marketing,
respectivamente) estão avaliando isso tudo.
Vamos
fazer sempre a melhor política que for melhor para o Flamengo e para a torcida.
Se você botar ingresso a R$ 5 na Ilha, talvez não lote pelo horário, condições
e atratividade do jogo e nos dê um prejuízo muito grande. Chegamos a situação
que chegamos com muita competência, responsabilidade… Você não pode
negligenciar a receita de bilheteria do clube, mas concordo que isso vai
merecer sempre uma atenção maior.
Considera que o Flamengo afastou o
torcedor popular dos estádios?
A
política de gratuidade é extremamente perversa. Se você tiver um milionário com
mais de 65 anos e que vai levar seus netos com menos de 12 ao estádio, eles
todos vão entrar de graça. Se a gente ficar pensando no trabalhador, no pessoal
que ia de geral no velho Maracanã, numa época em que não tinha transmissão pela
televisão e que o ingresso tinha um valor irrisório… Esse trabalhador que ia
de geral não consegue ir ao Maracanã, à Ilha ou a qualquer estádio porque não
tem dinheiro para pagar condução ou levar os filhos.
O Flamengo vai fazer justiça social
botando ingresso a R$ 5?
Não
seria muito mais coerente você ter uma política de gratuidade que privilegiasse
realmente a quem precisa? Ou que essa política de gratuidade fosse direcionada
com cadastro de rubro-negros que estivessem abaixo da linha de pobreza, por
exemplo? Ou que privilegiasse alunos da rede pública de ensino que poderiam
começar a se interessar pelos jogos? Mas não. Você tem que sustentar uma
política de gratuidade injusta e ainda assim fazer receita para cobrir seus
custos.
Antigamente
você jogava no Maracanã e pagava muito pouco de taxas. Hoje
em dia para a gente entrar no Maracanã você paga miseravelmente R$ 700 mil.
Como é que você vai colocar um preço de ingresso abaixo do preço variável?
Mas o Flamengo pode pensar em separar um
setor ou até cadastrar esses torcedores de baixa renda, como disse?
Não
adianta se a lei de gratuidade não vai por aí. Ela dá acesso a qualquer um.
Vamos tentar repensar essa lei e fazer uma coisa que seja justa para todo
mundo. Achar que vamos voltar ao tempo do Maracanã de 200 mil pessoas? Não
existe mais. Não existe mais custo variável como existia anos atrás.
Estamos
permanentemente estudando alternativas de maximizar a presença de público nos
estádios. Isso envolve estudos das mais variáveis direções. Mas depende de
muita coisa, como colaboração das autoridades, essa conversa do Governo do
Estado e com a Assembleia Legislativa para tentar reformular essa lei de
gratuidade para quem precisa é uma coisa que pode resolver boa parte do
problema.
Única
coisa que existe de barato hoje é a demagogia. A pessoa ir ao Maracanã hoje é
uma tragédia para quem é pobre. Esse infelizmente é um problema que o Flamengo
não consegue resolver sozinho.
O Flamengo segue interessado em
administrar o Maracanã, certo? Ainda há interlocução com o Governo para saber
de nova licitação?
A
interlocução nunca deixou de existir. Agora o Estado já se manifestou
publicamente que vai fazer uma nova licitação. Só que ela está demorando, e o
Flamengo não pode ficar esperando eternamente. Se ela não acontecer? Se
acontecer em condições que a gente entenda que não são as ideais para o
Flamengo, como no edital de 2012, que dizia que os clubes não poderiam
participar? Temos que nos movimentar também. Um estádio próprio, bem
localizado, como é esse terreno aí de que temos essa opção de compra é uma
alternativa muito interessante.
Você
pode fazer um estádio moderno, muito mais barato para operar do que é no
Maracanã. Se a situação do Maracanã se resolver num prazo curto e sair um
edital em que a gente consiga visualizar uma forma de colaborar, nós vamos
participar. Toda as vezes que tentamos nos colocar como candidatos a ajudar a
situação do Maracanã, nós só tivemos reação contrárias. Começa aquela coisa de
que “O Maracanã não pode ser de um clube só”.
Se vocês administrarem o Maracanã,
gostaria de tirar cadeiras de algum setor, aumentar a capacidade de público,
voltar a passar para pelo menos 100 mil?
Essa
coisa de tirar cadeira é interessante em um setor porque boa parte prefere ver
o jogo em pé. Aí a capacidade pode aumentar um pouco. Fui criado dentro do
Maracanã, morava na Tijuca. Tenho excelentes lembranças daquela época em que eu
era adolescente e ia ao Maracanã com 160, 170 mil pessoas. Exatamente por ser
adolescente eu não via alguns problemas.
Quem
vai com filho ou filha que tem vontade de ir ao banheiro no meio do jogo é muito
difícil. Tem que pesar as duas coisas. Você
está com sua filha, namorada ou mãe e presenciar coisas que presenciávamos
antigamente no Maracanã também não é uma coisa muito agradável. Claro
que, para quem tem 12,13, 14 anos, era ótimo ir naquela bagunça.
O
rubro-negro Eduardo prefere um estádio próprio ou assumir o Maracanã?

Gosto
das duas alternativas. Estádio sempre foi um sonho do rubro-negro, mas por
outro lado o Maracanã sempre foi considerado a casa do Flamengo. Depois da
última reforma ficou muito difícil em termos de custos para cuidar daquilo.
Claro que a simpatia pelo Maracanã existe pela torcida do Flamengo, ainda que
boa parte tenha o sonho próprio. Depende muito das condições. Como todos somos
cariocas, sabemos que o Maracanã sem o Flamengo e os grandes do Rio vai perder
sua finalidade. Fico sinceramente dividido, mas depende muito das regras do
jogo.
O Flamengo quer investir cerca de R$ 400
milhões se construir o estádio na Avenida Brasil?
Não
posso falar em valores, pois há uma cláusula de confidencialidade, mas o custo
de construção do estádio é nessa faixa que o Wrobel falou. É a faixa que foi
praticada no estádio do Atlético-PR, é a que está projetada no do Atlético-MG.
É uma coisa sem maiores luxos, mas com conforto, acesso e com a possibilidade
de utilização plena do estádio para atividades correlatas.
Vamos falar da Carabao. A meta de 40
milhões de latinhas vendidas parece que não vai ser alcançada. De que maneira
acompanham isso? Ano que vem a Carabao ia assumir o espaço mais nobre da
camisa.
A
dificuldade de iniciar uma operação num país estrangeiro todo mundo tem, mas
nosso departamento de marketing está trabalhando em conjunto com eles e
acompanhando tudo. Tenho muita confiança de que é uma parceria que vai durar
muito tempo.
É um tema que o senhor tem evitado, mas a
pergunta é: realmente existe a possibilidade de se candidatar, até ao Governo
do Estado, ou a deputado?
O
Flamengo tem 40 milhões de torcedores. O clube sempre foi visado, de certa
maneira, para algum projeto político. Então é natural por isso que seus
dirigentes sejam cogitados para assumir algum cargo político, até porque isso
já aconteceu algumas vezes. Márcio Braga, Patricía Amorim… outros dirigentes
do passado tiveram cargos, em outros clubes também aconteceu.
Se
você chegar no Congresso Nacional vai ver vários dirigentes de clubes lá, então
é natural que se especule isso. Mas
neste momento seria contraproducente, não seria positivo para o Flamengo, que
eu me envolvesse em qualquer coisa que não fosse a continuidade do meu trabalho
aqui.
A coluna “Radar”, da Veja, deu
nota informando que você foi a um evento com a Marina Silva com carro do
Flamengo. Não misturou o Flamengo com sua agenda pessoal política, fora do
clube?
Não
misturou de jeito nenhum. Em primeiro lugar porque eu conheço a Marina há muito
tempo. Desde que ela era ministra do Meio Ambiente e eu era chefe do
departamento de Meio Ambiente do BNDES. Contato com políticos é a coisa que eu
mais fiz desde que virei presidente, sempre pelos interesses do Flamengo.
Passei dois anos e meio enfurnado no Congresso Nacional para tentar aprovar o
Profut.
Por
obrigação eu tenho que ter contato com governador, com prefeito, com políticos
inclusive de outros estados. Isso é perfeitamente natural. O fato de eu ter ido
com carro do Flamengo foi porque a reunião aconteceu aqui a poucos metros do
Flamengo. O que eu faria? Era uma reunião, que até poderia ter interesse do
Flamengo, ainda que fosse coisa exclusivamente pessoal, mas estava aqui às 18h,
a reunião era 18h30, no caminho da minha casa.
O que
eu deveria fazer? Devo ir em casa, trocar de carro, pegar engarrafamento e
voltar para o evento? Não ganho nada do Flamengo, nunca pretendi e acho que
jamais seria o caso, mas o Flamengo coloca à minha disposição e à disposição de
alguns executivos algumas facilidades para exercício da função, mas que
eventualmente, residualmente, são usados fora.
Por
exemplo, eu tenho dois telefones aqui. Um é meu, outro é do Flamengo. Se ligar
para um e me convidar para tomar um chope, vou atender: “ah, não. Chope eu
tenho que atender no outro telefone”?
É
assim em todas as empresas. Eu trabalhava no BNDES e tocava o telefone era a
minha mulher para dizer que meu filho estava doente. Eu vou falar, “peraí,
isso é particular, não posso atender no telefone do BNDES”. Então, quer
dizer, tem internet, telefone, segurança pessoal…
Quando
saio daqui para almoçar com um amigo meu, as pessoas que querem me agredir
porque o Flamengo perdeu não vão deixar de agredir porque estou na minha hora
de almoço particular. Então isso é questão de bom senso. Quem soltou essa
notinha fez de maneira mal-intencionada. Eu vejo assim.
Ano passado um áudio de torcedor ficou
famoso, que dizia que Flamengo era melhor e mais vencedor no tempo de jogador
“bandido”, citando 2009, que não pagava em dia… O que acha dessa
manifestação de torcida?
Primeiro
que não considero Adriano, Willians e outros jogadores de 2009 bandidos. Hoje
seriam meus protegidos. Se
alguém falasse isso hoje eu ia proteger. Mas há gente de todo tipo. Tem gente
que é caloteiro em questões pessoais e acham que o Flamengo é instituição
pública, que não é de ninguém…
Teve
conselheiro do Flamengo, não vou citar o nome, que logo que conseguimos a CND,
a duras penas, e por isso conseguimos patrocínio da Caixa, ele foi lá e fez a
conta de impostos que pagamos atrasados, total de R$ 80 milhões para conseguir
patrocínio de R$ 25 milhões. Ele disse que “somos otários”, porque
estamos pagando R$ 80 milhões para ganhar R$ 25 milhões.” Isso está em ata
de reunião. Escreveu isso numa lista de e-mail de sócios. Mas para esse tipo de
coisa aí não precisa de mim, não precisa de gerente, do nosso grupo.
Teve
gente que naquele primeiro ano, com as coisas difíceis, clube ameaçado de ser
rebaixado e tudo, dizia “tem que comprar, contratar”. A gente dizia
que não tinha dinheiro. “Ah, mas futebol é assim mesmo. Você contrata e
depois não paga”.
Eu
falei “então deve ser por isso que dizem que eu não entendo de futebol,
porque entendo de pagar as coisas direitinho, de viver dentro do meu orçamento,
como sempre foi na minha vida.”
Muitos torcedores comentam que o discurso
da diretoria numa derrota, como na Libertadores, é de aceitação, que falta
indignação na diretoria, no departamento de futebol…
Não
houve aceitação nenhuma. Aquela derrota no dia 17 de maio, estamos todos, até
hoje, chateados com aquela eliminação. Simplesmente acho que não é produtivo,
nem é correto você jogar para a arquibancada e dizer “fui lá e dei uma
bronca, eu fiz, aconteci”. Você não faz isso na sua família. Se você tem
um filho com problema na escola, se precisar você põe de castigo e tudo. Se
acha que resolve com diálogo você conversa.
E não
precisa ficar dizendo para o vizinho, “fiz isso com fulaninho, olha”.
Não é bom para ele, para você, para o vizinho, para ninguém. Acho que o que
falei naquele dia da eliminação, mas, como sempre, fui mal-interpretado, foi
que temos que sentar, conversar, trabalhar e corrigir. E fizemos isso, estamos
fazendo isso. Agora, detalhes não interessa a ninguém. Interessa a nós. É uma
questão interna.
Pela expectativa natural por ser grande
jogador, você esperava mais do Conca? Foi um investimento mal feito?
Investimento
no futebol não é caderneta de poupança, que você sabe quanto vai render. Mas,
não sei, pode ser que até o fim do ano ele entre bem e tenha fim de ano
excepcional. É o que todos rubro-negros querem. Conca é um excelente jogador,
chegou ao Flamengo depois de fazer duas cirurgias seguidas, entrou em processo
de recuperação. Fizemos contrato de risco. A partir de determinado momento o
treinador achou que deveria escalá-lo. Não escalou muito porque é definição do
técnico.
A torcida do Flamengo pode ficar tranquila
sobre a renovação do Guerrero? Ele tem contrato até o meio do ano que vem.
Ele é
um dos nossos principais jogadores. Jogador no qual depositamos muita
confiança. A gente gostaria muito que ele ficasse conosco por muito mais tempo.
Mas a
torcida pode ficar sempre tranquila porque vamos sempre querer manter nossos
craques e trazer mais.
Um relatório do Centro de Inteligência e
Mercado apontava Alex Muralha com avaliação mediana. No caso, entre 5,0 e 5,9
quatro meses antes de ser contratado em janeiro do ano passado. De que forma o
senhor acompanha um relatório, uma contratação dessas? Faltou maior critério?
Pelo
que me lembro essa avaliação de que a nota dele estava um pouco abaixo se
refere ao primeiro semestre de 2015.
Era de agosto de 2015…
Sim,
mas se referia ao primeiro semestre de 2015, quando ele tinha vindo do interior
de São Paulo, era um goleiro relativamente desconhecido. O primeiro semestre em
Santa Catarina é do Catarinense, que não tem muita visibilidade. Depois, ele
fez um Brasileiro excepcional. Não fico olhando lá os relatórios do Centro de
Inteligência, mas certamente ele foi contratado porque foi recomendado como
excelente goleiro. E fez
um grande ano de 2016 também. Quando chegou no Flamengo ele melhorou ainda mais.
Foi
contratado para ser reserva do Paulo Victor e em seis meses de Flamengo ele
estava na seleção brasileira. Então, tenho impressão que nesse caso (Muralha) o
Centro de Inteligência acertou.
Você está falando que ele melhorou ao
chegar no Flamengo. Recentemente, a torcida fez mais uma campanha para pedir a
saída do preparador Victor Hugo, que ele não está no ápice da carreira, falam
do preparador de goleiros particular do Diego Alves, que é bem mais novo. Como
acompanha esse movimento?
Mas a
qualidade do treinador de goleiros se mede de acordo com o chute dele?
Ainda
assim, vai para o gol e pega um chute do Victor Hugo. De direita e de canhota.
Para mim, é mais um perseguido, se apegam a isso porque o Muralha teve uma fase
não muito boa, mas mesmo assim na saída de bola com o pé.
Dentro
do gol, em jogo mesmo, não. Aí começa essa paranoia por um goleiro que poucos
meses antes estava na Seleção. Não serve mais agora e o culpado é o preparador
de goleiros? Pelo amor de Deus. Ele treinou o Dida, treinou vários goleiros
excepcionais. Ele tem conceito excelente entre os próprios preparadores, já
conversei com alguns.
Outro dia você estava conversando com o
Flavio Tênius na beira do campo até antes de enfrentar o Botafogo…
Deve
ter por volta de 60 anos, igual ao Victor Hugo. Flavio é ruim? Não, ele é
excelente, como o Victor Hugo. Cá entre nós, se chutar forte fosse
característica para virar treinador de goleiros, seria então o Roberto Carlos o
preparador de goleiros.
O Claudio Pracownik é um bom sucessor na
presidência?
Ele é
um excelente vice-presidente de finanças, um grande rubro-negro. Certamente é
um dos nomes que têm muitas condições para ser presidente. Se ele vai poder, se
não… Acho muito cedo para falar de sucessão. Se
pegar outros vice-presidentes do Flamengo certamente outros têm condições de
sentar aqui na minha cadeira.
Qual acha que foi seu maior erro nesse
tempo?
Falei
já de troca de treinadores, mas tem muita coisa a mais. Certamente. Errei muitas
coisas. Mas eles (dirigentes) erraram junto comigo (risos). Claro que eu que
errei mais, porque a decisão é minha.
O caso do Godinho, que tinha chance de ser
investigado e preso, como foi. Isso não poderia ter sido evitado depois da
condução coercitiva?
Tudo
isso que foi falado são coisas que aconteceram antes de eu conhecer o Godinho,
antes dele ser dirigente do Flamengo. Ele está respondendo ao processo dele.
Vamos torcer para que tudo termine muito bem.
Mas
não tem nada, absolutamente nada, a ver com o Flamengo. Acho até meio covardia
ficar envolvendo o Flamengo nesse tipo de coisa. Enquanto foi dirigente do
Flamengo ele foi excelente, é um grande rubro-negro. Ele já estava afastado do
grupo. O Flamengo não tem absolutamente nada com isso.
Mas ele não financiou parte da sua
campanha de reeleição?
Sabe
quanto custa uma campanha no Flamengo?
Quanto? Chega a R$ 200 mil?
Não,
bem menos que isso. Fizemos uma vaquinha aqui entre os vice-presidentes,
ninguém deu mais que 10% do que isso (R$ 200 mil)… Agora dizer que ele
financiou a reeleição. Eleição do Flamengo é um assunto candente que movimenta
opiniões e interesses, então tem muita coisa que se fala. Na véspera da última
eleição foi divulgada pesquisa de instituto fajuto dizendo que a Chapa Verde estava
em primeiro. A gente tinha pesquisa do Ibope que nos dava 60%. Eleição acontece
de tudo. Têm umas fofocas desse tipo (de que Godinho colocou bancou a
reeleição).
Mas, nos bastidores, até no Twitter,
muitos adversários já se referiam ao Godinho como “Godinho
Lava-Jato”.
São
pessoas irresponsáveis para ter acusações desse tipo. Eu mesmo fui envolvido em
suposta denúncia que correlacionava o fato de eu ter trabalhado no BNDES ao
aporte de dinheiro de uma empresa que patrocinou o Flamengo. Saiu isso num blog
desse, de pessoas desse calibre, desse nível. Não se pode levar em consideração
isso.
Mas o Godinho está preso.
Sim,
mas quando conheci o Godinho em 2012 ele já não estava mais no grupo do Eike. A
questão do grupo do Eike foi julgada depois. Ele ainda está sendo julgado. Não
tem nenhuma conclusão ainda sobre isso.
Mas de
qualquer maneira, seja o que for, não tem nada a ver com o Flamengo. Se um
presidente, dirigente, ou eu cometi um crime há 10 anos não tem nada com o
clube. E se for pegar em todas as chapas que concorrem à presidência do
Flamengo você vai ter ligação direta ou indireta com envolvido na Lava-Jato.
Não vou acusar ninguém, mas se for ver tem também.

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