Falta muito?

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Torcedor do Flamengo nervoso – Foto: Pedro Vilela/Getty Images

REPÚBLICA PAZ E AMOR: Por Jorge Murtinho

Quem
tem filhos e carro certamente já ouviu a insistente pergunta. Eu diria que,
numa distância de cento e setenta quilômetros – mais ou menos a que separa a
cidade do Rio de Janeiro do balneário de Búzios – ela é feita cinco ou seis
vezes. É chato, porém compreensível.
Nós,
torcedores rubro-negros, estamos nos sentindo como a criança que vai no banco
de trás, presa a um cinto ou a uma cadeirinha, achando a viagem longa demais,
monótona demais – mesmo com promessas de tantas alegrias na chegada ao destino.
Há,
contudo, uma diferença: alimentada, vestida e educada pelos pais, conduzida em
um carro que os pais compraram a um lugar que eles escolheram, a criança tem
como opção ir ou ir. No caso dos torcedores rubro-negros, o buraco é mais
embaixo: somos nós que sustentamos a brincadeira – aderindo ao programa de
sócios, comprando ingressos, pay-per-view, camisas (inclusive amarelas),
agasalhos, copos, canecas, chaveiros, bonés, squeezes e que tais, quebrando
recordes de público e audiência, atraindo cada vez mais o interesse dos
patrocinadores. Quanto ao último item, ele certamente está ligado à qualidade
da gestão, mas pegue essa mesma qualidade de gestão e a coloque no América.
Tem
corrido o noticiário esportivo uma frase interessante: dinheiro não faz gol.
Cícero, do São Paulo, falou isso na semana anterior ao clássico com o
Palmeiras, pelo primeiro turno do Campeonato Brasileiro. O dinheiro não fez gol
e o São Paulo venceu por dois a zero. O holandês Robben, do Bayern de Munique,
disse algo semelhante antes do jogo com o Paris Saint Germain, pela fase de
grupos da Champions League. Dessa vez o dinheiro fez, e o PSG ganhou por três a
zero. (Mats Hummels, também do Bayern e pra mim o melhor zagueiro do mundo, foi
sutil feito um elefante ao comentar a declaração do seu companheiro de clube: o
dinheiro não faz gols, mas compra os caras que fazem.)
Chegamos
ao ponto.
Após
adquirirmos, às custas de muito esforço da diretoria e da infinita paciência da
torcida, a estabilidade financeira e o respeito que há muito desaparecera; após
deixarmos no passado os vergonhosos períodos de dívidas em expansão e
pagamentos a fórceps; após nos transformarmos no que deveríamos ser sempre – o
clube onde todos querem jogar –, pego carona no sarcasmo de Hummels e pergunto:
estamos comprando os caras que fazem os gols?
É
óbvio que se trata de uma metonímia, e não me refiro apenas a quem empurra a
bola para dentro. Ninguém seria tolo de exigir o Neuer no gol, o Sérgio Ramos
na zaga, o Modric no meio-campo e o Mbappé na frente, mas, com a credibilidade
e a capacidade de investimentos de que o clube hoje desfruta, esse é o melhor
elenco que poderíamos ter? O melhor goleiro, os melhores laterais, os melhores zagueiros,
os melhores em cada posição? Somos obrigados a viver quinze dias de suspense e
angústia devido ao risco do Everton não poder jogar? Gente, é o Everton.
O
Flamengo de 2017 é melhor que o de 2016, que foi melhor que o de 2015.
Reconhecer isso, no entanto, está longe de ser um atestado de que a coisa anda
às mil maravilhas. Perder a Copa do Brasil numa decisão com o Cruzeiro, em Belo
Horizonte, não chega a ser um bicho de sete cabeças. O time deles é bem
montado, tem bons jogadores, ok, é do jogo. (E, mais uma vez, dirão os
vendedores de ilusões: não perdemos, empatamos.) A grande questão é que, em
2017, cometemos falhas terríveis de planejamento. Começamos a temporada com
somente um goleiro; no que ele fraquejou, ficamos sem chão. Fomos precocemente
eliminados da Libertadores por não termos um substituto adequado para Diego.
Disputamos a Copa do Brasil sem um reserva confiável para a zaga. Apesar de sua
indiscutível limitação técnica, abrimos mão de Leandro Damião na hora errada e
tivemos de improvisar o centroavante na primeira partida da final da
competição. Mantivemos no elenco jogadores que, definitivamente, não estão à
altura do momento que vive o clube – todo mundo sabe quem são, e não há
estatística que consiga tapar o sol com a peneira. Dentro de campo, perdemos
pontos ridículos e desistimos cedo demais do Campeonato Brasileiro. E se era
para demitir Zé Ricardo, demoramos a fazê-lo.
Aparentemente,
os merecidos enaltecimentos ao trabalho de reconstrução financeira retiraram da
nossa diretoria a capacidade de perceber que, se não conseguimos ganhar nada, é
evidente que há erros a consertar. Apesar de sabermos que isso aqui é Flamengo,
falta seguir o sensato ensinamento de um tricolor famoso – Nelson Rodrigues – e
calçar as sandálias da humildade. Cultivar o hábito de ouvir. Aprender a
conviver com as críticas. Entender que ninguém é mais Flamengo do que ninguém.
Aceitar que, sendo isto justo ou não, o que faz um clube subir e se manter lá
em cima são as grandes vitórias e os títulos relevantes.
Quanto
a estarmos no caminho certo, creio que todos concordam. Só que a torcida do
Flamengo não aguenta mais perguntar: falta muito?

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