Governos não devem gastar com estádios

52
Criança na torcida do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

FOLHA
DE SÃO PAULO
: Por PVC

Construir
estádios dá margem para corruptos meterem a mão na grana, como se sabia antes
das obras da Copa do Mundo e da Olimpíada. Mas arenas não são a única forma de
ladroagem, neste país em que Joaquim Osório Duque Estrada e Francisco Manuel da
Silva poderiam ser substituídos por Ary do Cavaco na autoria do Hino Nacional.
Se você não sabe, Ary Alves de Souza é o autor de “Gente Bacana”, do
refrão “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.
Não é
para tomar dinheiro público que o Flamengo anuncia a opção de compra de um
terreno na zona norte do Rio, onde pretende erguer sua casa. É por causa da
paralisia do governo fluminense, incapaz de anunciar uma nova licitação para o
Maracanã ou de simplesmente cobrar da dona atual da concessão que cuide, e pare
de fingir que cuida, do ex-maior estádio do mundo.
Ladrões
são ladrões, roubem em reais ou em francos suíços, tirem do povo na merenda, no
metrô, em obras olímpicas, sedes administrativas para governos de Estado,
sítios ou apartamentos.
O
único remédio para a corrupção é a prisão.
Ela
não é exclusividade brasileira, como se percebe no escândalo de Carlos Arthur
Nuzman, envolvido em duas redes gigantescas de propina. A brasileira, com o
governo Sérgio Cabral, e a do Comitê Olímpico Internacional.
No
futebol, só pilantras sul-americanos foram detidos e acusados por autoridades
norte-americanas por uma questão geográfica. Platini e os dirigentes da África
não pegam aviões para Miami. Já os dirigentes brasileiros…
Em
1980, o Brasil tinha 22 Estados, quatro territórios e o Distrito Federal. Hoje,
parece haver 26 Estados, o Distrito Federal e a Flórida.
Corrupção
há no esporte do mundo todo, como confirma a prisão do presidente do Munique
1860, Karl Heinz Wildmoser, acusado de desviar dinheiro da obra do Allianz
Arena, em 2004. Se na Copa da Alemanha houve picaretagem, imagine quando se
ergueu o maior estádio do mundo, no Rio de 1950.
No
Brasil, aceitou-se por décadas construir arenas com dinheiro público. Lógica
fascista adotada no Estado Novo, na sequência dele e na ditadura militar.
Também na Itália de Mussolini. Milan e Internazionale seguem jogando em San
Siro, municipal.
Assim
foi com o Pacaembu, o Maracanã, o Mineirão, o Castelão, a Fonte Nova…
Antes
de Getúlio Vargas, o Fluminense construiu as Laranjeiras, o Palmeiras comprou o
Parque Antarctica, o Santos fez a Vila Belmiro e o Vasco ergueu São Januário.
Hoje,
na Itália, a Juventus mostra que ter um estádio próprio é bom. “Dá
identidade ao clube, orgulho à torcida e dinheiro”, diz o presidente do
Palmeiras, Maurício Galiotte. Nem Palmeiras nem Corinthians exploram tudo o que
podem em suas novas casas. Mas é por conhecer o potencial que o Flamengo também
quer uma arena.
O que
fazer, então, com o próprio da municipalidade?
Com o
Maracanã? E o Pacaembu? Ambos precisam servir ao esporte, como foram concebidos.
Num
país que não oferece educação e saúde, o Estado não deve gastar na manutenção.
Tem obrigação de cuidar rigorosamente da escolha e da vigilância de quem vai
administrar. Coisa que o governo do Rio nunca fez com o Maracanã.

COMENTÁRIOS: