Há sintomas de que o Flamengo fará progressos com Rueda

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Reinaldo Rueda, técnico do Flamengo, irritado – Foto: Buda Mendes/Getty Images

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: Não é comum uma só noite oferecer tantas reflexões como a
abertura da final da Copa do Brasil. Algumas excedem Flamengo e Cruzeiro, são
mais amplas. Por exemplo, notar como a mobilização em torno de um jogo
tornou-se fenômeno típico dos meios de semana. No Brasil, os domingos de
futebol acontecem às quartas-feiras. Ou numa quinta.

É uma
conquista a valorização de que a Copa do Brasil goza hoje em dia. O ruim é a
sensação de que o Campeonato Brasileiro se tornou um evento secundário, mesmo
sendo, em tese, o maior produto do futebol nativo.
Somados,
os três últimos jogos da Copa do Brasil arrastaram 157 mil pagantes. Nenhuma
das três últimas rodadas do Brasileiro, cada uma com dez jogos, superou tal
número: reflexo de um campeonato que só ocupa, em média, 40% da capacidade dos
estádios. O contraste não se restringe a tempos de decisão no mata-mata
nacional ou na Libertadores, esta já dona de natural protagonismo. O Brasil é
dos raros países em que, desde as fases intermediárias, até a copa se sobrepõe
ao campeonato.
O
calendário, com Estaduais inchados e Brasileirão comprimido em menos de sete
meses, é o pecado original. Ao permitir que clubes façam até 80 jogos na
temporada, num alucinante ritmo de quartas e domingos, o ano impõe escolhas. E
a cada rodada do Brasileiro, as análises prévias especulam quantos times terão
reservas. A mensagem vai do campo à arquibancada, e o público também prioriza.
Mas os
critérios dos clubes também dizem muito sobre nossa forma de fazer futebol.
Onde não há processos longos e segurança nos cargos, cuida-se de buscar a taça
mais próxima antes da inevitável ruptura. Ainda que, na hierarquia do futebol,
não seja o troféu de maior relevância histórica. Onde todos são provisórios, técnicos,
atletas e dirigentes, é usual buscar o atalho. Ou usar reservas para “esvaziar”
jogos e minimizar efeitos do resultado.
Nem é
justo “culpar” a campanha do líder Corinthians. Estabelecer prioridades na
insana rotina de jogos do país é algo que não nasceu em 2017. E a vantagem dos
paulistas foi construída, além da competência, com a contribuição de rivais
que, desde o primeiro turno, já deixavam pontos no caminho ao optarem por rotas
alternativas.
Neste
sábado, voltamos ao Brasileiro. Não faz bem ao torneio a sensação de
anticlímax, de que estaremos longe da pulsação do Maracanã no meio de semana. O
maior campeonato do Brasil precisa de ajuda.
A final aberta
Outras
reflexões vêm do campo. Uma delas, a separação entre o resultado, frustrante
para os rubro-negros, e a constatação de que há um embrião das ideias de
futebol de Reinaldo Rueda. O problema é o tempo: um trabalho recém-iniciado, na
reta final de um torneio importante e à frente de um time que, reforçado em
meio de ano, tem peças indisponíveis na Copa do Brasil. Inclusive no gol, onde
a escolha entre dois goleiros com confiança abalada exigirá habilidade.
Rueda
tenta construir um Flamengo com iniciativa, mas que tenta atacar sem expor
tanto uma zaga pouco veloz; tenta alternar paciência com passes mais verticais;
e busca circular mais a bola pelo centro do campo, criar mais jogo “por dentro”
num time condicionado a buscar o lado e cruzar. O duelo com o Cruzeiro indicou
que, ao menos com a bola, a formação com Cuéllar parece casar melhor com tais
ideias. Alterar comportamentos é uma construção quase artesanal, em especial na
fase ofensiva. Por isso, em muitos momentos o Flamengo tem mais intenções do
que realizações. Ainda falta contundência, finalizações proporcionais ao volume
de jogo, traço do time desde janeiro.

sintomas de que o Flamengo fará progressos com Rueda, embora a Copa do Brasil
imponha pressa. Viver entre os projetos de time e a urgência é sempre
desafiador no Brasil. O normal seria encarar este Flamengo como um time
promissor a médio prazo. O que não o impede de ser campeão daqui a 18 dias. No
jogo de ida, foi melhor, mais ambicioso do que um Cruzeiro conservador demais.
Comportamento que não surpreendeu, embora seja sempre decepcionante num time
que pode mais. A final está aberta.
Nenhum estádio é uma ilha
Grupos
tentavam invadir o Maracanã. Outros quebravam grandes para ocupar setores
distintos dos indicados em seus ingressos. E não foram apenas os “organizados”,
que aliás marcaram presença com as brigas habituais nos arredores do estádio.
Mas os atos do chamado “torcedor comum”, “avulso”, retratam mais do que nosso
fracasso como sociedade, nossa crise de valores e de educação. Simbolizam uma
cultura praticada por décadas e contra a qual, no lugar de se esquivar, o
futebol também tem precisa lutar: a de que estádios são ilhas com leis
próprias, onde cidadãos, organizados ou não, sentem que delitos são
relativizados sob a falsa atenuante da paixão.

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