Para Mansur, Flamengo está no caminho para recuperar identidade

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Time do Flamengo vice-campeão da Copa do Brasil 2017 – Foto: Pedro Vilela/Getty Images

CARLOS
EDUARDO MANSUR
: Antes do jogo com o Cruzeiro, já se especulava que o Flamengo
poderia ser um time vulnerável numa eventual decisão por pênaltis. Ainda assim,
e embora não seja traço tão surpreendente numa final, em especial quando jogada
no campo adversário, o jogo mostrou um rubro-negro que tentou minimizar riscos,
em especial no segundo tempo. Como se a condução para uma disputa na marca do
pênalti não o incomodasse tanto.

É
justo dizer que detalhes separaram o Flamengo da taça em Belo Horizonte. O caso
é que, perdido o título, a falta da tal dose adicional de ousadia, ou mesmo de
ambição, dominou o debate. Ganharam destaque fatores como a perda de uma
cultura de vitórias no clube ou até questões anímicas, o compromisso, a
vontade, argumentos habituais no futebol brasileiro. Todos pertinentes,
válidos, porque futebol é uma mistura complexa de componentes, dos táticos e
técnicos aos de ordem emocional. Mas o 
futebol não permite mais menosprezar outro aspecto: o processo de
construção de time.
A tão
falada coragem, que normalmente se traduz em campo numa aparente sensação de
vontade, de empenho, tem ligação direta com a confiança num plano, num modelo,
numa forma de jogar. Algo que as condições que cercam a formação e a gestão do
atual elenco, neste momento, não permitem. E aí cabe a pergunta: este Flamengo
que enfrentou o Cruzeiro estava preparado para ser ousado, para assumir o
protagonismo do jogo e atuar no campo rival? Estava preparado para ser
corajoso?
O
Flamengo que jogou sua final mais importante do ano tinha quatro dos mais
importantes e caros jogadores do elenco impedidos de jogar. Foram contratados
no meio da temporada e, portanto, tornaram-se inelegíveis para a Copa do
Brasil. O Flamengo que jogou a decisão de Belo Horizonte tinha, à beira do
campo, um técnico com 40 dias no cargo. Um homem que chegou da Colômbia,
dirigiu dois treinos antes de iniciar uma tensa semifinal com o Botafogo e que,
em seguida, passou a ter que administrar um elenco que contava com peças
diferentes de acordo com a competição que disputava. Pisava um território novo,
desconhecido, com necessidades imediatas de resultado e um excesso de
contratempos para gerir.
Um
cenário com lógica consequência: o Flamengo não tem, em setembro, um modelo de
jogo pronto, consolidado. Não é possível a este time ter confiança em  seu jogo, em sua capacidade de sair a campo
para controlar um rival e ter a rédea da partida, com todos os riscos que tal
atitude envolve. Não pode fazer de uma ideia, de uma filosofia de jogo, o seu
porto seguro. Porque são ideias embrionárias.
Competente
nos gabinetes, o Flamengo ainda tropeça em seu projeto esportivo. Não significa
que Diego Alves, Rhodolfo, Geuvânio e Éverton Ribeiro não devessem ser
contratados. Dadas as condições 
econômicas que ditam regras na dura competição com o mercado
internacional, as grandes oportunidades de mercado costumam se apresentar aos
clubes brasileiros no meio de temporada. 
Assim o Flamengo recebeu Diego e Guerrero, embora este último viesse de
outro clube do país. O caso é que, em algum momento, o projeto terá que
contemplar a estabilidade, a continuidade. Dentro de campo e na área técnica.
Num
mundo em que dinheiro e resultados esportivos são cada vez mais
interdependentes, o próprio Flamengo criou condições para se colocar sempre na
disputa de títulos. Recuperar identidade vencedora, ampliar a cobrança interna,
mobilizar time, todos estes aspectos são parte do jogo. Respeitar os processos,
também.

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