Rueda diz que objetivo no Flamengo é chegar ao Mundial

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Rueda, técnico do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

ESPORTE
INTERATIVO
: No último dia 16 de agosto, há um mês, Reinaldo Rueda sentava no
banco do Nilton Santos para a estreia pelo Flamengo, logo em um clássico
decisivo contra o Botafogo. De lá para cá, os dias foram poucos, mas intensos.
O “profe” conheceu o carinho e a corneta da torcida e já disputa a
primeira final pelo novo clube, logo depois de eliminar o rival: a da Copa do
Brasil.

Neste
papo exclusivo com o Esporte Interativo, o colombiano esmiúça as primeiras
impressões do futebol brasileiro e os planos para o Flamengo, desde os
trabalhos na base até o objetivo principal: o Mundial de Clubes.
“Nosso
objetivo é chegar no mais alto. Como eu disse aos jogadores, nesse momento,
viemos de três mundiais consecutivos (com Honduras, Equador e Atlético
Nacional), e quero ir com o Flamengo para o próximo. Quero que os jogadores nos
brindem com isso, a nós e à torcida. Precisamos ganhar a Copa Libertadores.
Primeiro, garantir a vaga na Copa Libertadores. Depois, vencer a Copa
Libertadores, ir ao Mundial de Clubes. Temos um caminho longo, mas com todas as
condições para chegar até lá”, disse o colombiano.
“Queremos
um futebol coletivo, que tenha capacidade de leitura de jogo. Temos que fazer
combinações, trocar da direita para a esquerda, fazer jogo curto e longo. Um
time que tem essa capacidade de leitura dos jogos consegue tomar as melhores
decisões. A coletividade e a solidariedade no campo servirão para superar as adversidades
do jogo”, continuou, adiantando os planos sobre o modelo de jogo
rubro-negro.
Esporte Interativo: Qual é o balanço deste
primeiro mês no comando do Flamengo?
Reinaldo
Rueda: “Foi um mês importantíssimo nesse diagnóstico, mas ainda falta. Não
terminamos de conhecer tudo, a cada dia recebo novas informações de todos os
componentes do corpo técnico ou até dos próprios jogadores. Já conversamos
pessoalmente com eles, pra saber o que eles gostam, ondem se sentem melhor,
onde jogam melhor, o que estão vivendo nesse momento. Continuamos nesse
processo, temos que aproveitar cada dia para conhecê-los melhor e que isso
reflita no resultado da equipe”.
EI: Você estava na Europa e ainda iria ao
Canadá para um período de estudo. Por que decidiu abrir mão de todos os planos?
RR:
“A ideia era ficar até dezembro fazendo reciclagem. Terminamos um trabalho
em junho com o Atlético Nacional. Queríamos esperar até o próximo ano, até
cheguei a receber uma proposta da Arábia, mas não quis aceitar. Estava na
Alemanha fazendo observações, fui ao congresso de treinadores e observei alguns
torneios. Depois, iria ao Canadá para continuar a estudar inglês. Mas, era
difícil recusar o Flamengo. É uma oportunidade única quando um treinador
colombiano recebe um convite de um clube com o prestígio, a história e a
grandeza do Flamengo. Cancelei tudo que tinha até dezembro e assumi esse
desafio”.
EI: Qual foi a primeira coisa que você
sentiu necessidade de mudar no time?
RR:
“Tentamos conservar o que fez o professor Zé Ricardo, mudar pouco a base,
mas estimular no aspecto da intensidade, da exigência do que significa o
Flamengo. Tentamos mudar pouco para não provocar um trauma brusco. Estamos na
metade da temporada. Pouco a pouco vamos fazendo estímulos, vamos nos
conhecendo”.
EI: Chamou a atenção, após o último jogo,
a sua avaliação de que o Flamengo precisa “guerrear”. É algo que a
equipe ainda precisa buscar?
RR:
“É algo que o futebol exige a nível internacional. O Flamengo tem a
obrigação de jogar bonito, jogar bem, mas também ter o espírito competitivo aos
500%. Precisa ser uma equipe que se dói com a derrota, que seja má perdedora.
Que tente até o último segundo e lute para ganhar as partidas. Não é só jogar
bonito, tem que correr, guerrear e atuar em altíssimo nível, com ordem, concentração,
esse espírito de equipe vencedora que nos deixará próximos de conseguir as
metas”.
EI: Você tem experiência com a seleção de
base da Colômbia e ficou em terceiro no Mundial Sub-20 de 2003. Que tipo de
avaliação você já fez da base do Flamengo?
RR:
“O Flamengo tem um grande potencial. Ainda sabemos pouco. Convidamos
grupos sub-20 para jogar conosco, sub-17, juniores. O Flamengo tem grande
talento em algumas posições. Conversei com o técnico do sub-14, do infantil,
mas tivemos pouco tempo para analisar. Depois que passar a Copa do Brasil e
tivermos mais espaço, espero me envolver mais com o futebol juvenil. Já
trouxemos Lincoln, Thuler, Pablo, Yuri, o goleiro Gabriel…”.
EI: E Vinicius Jr.? O que já percebeu da
grande joia rubro-negra do momento?
RR:
“Já identifiquei um grande comportamento. É um jogador muito maduro,
equilibrado. Não é fácil para um garoto, com toda a mudança que significou em
sua vida a contratação do Real Madrid. Ele tem foco e equilíbrio para encarar
essa mudança para a Europa. O Real Madrid fez uma grande contratação, muito
valiosa. Ele tem controle mental, equilíbrio e muito talento
futebolístico”.
EI: Vinícius Jr. está pronto para ser
titular na final, se Everton não se recuperar da lesão na panturrilha?
RR:
“Ele está passando por um processo importante, ele está trabalhando muito
bem, com muita exigência e no momento que a gente precisar ele vai
responder”.
EI: O elenco do Flamengo é considerado um
dos melhores do Brasil. Avaliando de perto, o que achou?
RR:
“É um elenco com jogadores importantíssimos. Há posições que precisamos
fortalecer e jogadores que precisam elevar seu nível. Este é o trabalho que
temos que fazer. Precisamos montar uma grande equipe, coletiva, que busque em
todos os jogos, em todas as partidas para conseguir os resultados e alcançar
posições maiores”.
EI: Até pela Copa do Brasil, você já
escolheu um time base neste primeiro mês. Já tem alguns atletas de confiança?
RR:
“Toda equipe tem líderes, por grau de experiência, que funcionam como uma
coluna vertebral básica. Temos jogadores experimentados, que passaram por
seleções nacionais e outros clubes, e jovens de futuro. Tudo isso é importante
para o desenho de cada jogo e para o dia a dia”.
EI: Qual é a primeira impressão da torcida
do Flamengo?
RR:
“O Flamengo é impactante. Pela história e o grande volume de torcedores. O
Atlético Nacional também tem uma torcida com muita paixão, mas, no Flamengo, é
multiplicado por 5, por 10, não sei quanto. Pela paixão carioca, pela alegria,
a coragem. Isso compromete, mas também contagia a equipe. Esse é o DNA do
Flamengo, se identificar com os torcedores que acompanham a equipe”.
EI: De alento após a tragédia com a
Chapecoense ficou a solidariedade entre Brasil e Colômbia. Isso tudo ainda mexe
muito com você?
RR:
“Sempre houve da Colômbia para o Brasil um respeito e uma admiração. Na
Copa do Mundo de 2014, cresceu um pouco a rivalidade, mas sempre com respeito.
No ano passado, houve essa infelicidade com os colegas de Chapecó. Foi uma
lição da vida muito forte, muito dura, mas que uniu ainda mais os dois povos.
Foi o despertar de uma irmandade e de uma solidariedade”.
EI: Você já foi “o técnico
estrangeiro” em Honduras e no Equador e classificou as duas seleções para
Copa. É mais difícil ser estrangeiro no Brasil?
RR:
“As situações são diferentes. Ser estrangeiro é difícil porque o futebol é
muito exigente, pela paixão que envolve. O Brasil é mais exigente pela
história, pelo que é o futebol brasileiro e o Flamengo. Cada momento é
diferente, seja em Honduras ou no Atlético Nacional, que tem grandes metas na
Colômbia. O Flamengo dá a vantagem da estrutura, da logística que facilita e
deixa viável a adaptação mais rápida”.
EI: Depois que o Equador deixou a Copa do
Mundo, deu para aproveitar alguma coisa do Brasil?
RR:
“Foi um plano familiar de desfrutar o Rio e os jogos que tiveram aqui.
Acompanhamos a Copa do Mundo até o final. Encontramos com as pessoas da
organização, as pessoas da FIFA. Faz anos que sou instrutor FIFA, faço estudos
técnicos e tenho contato com muitos deles. Do futebol brasileiro, conheci muito
pouco. Estive na praia com Jairzinho, conversei algumas vezes, ele sempre no
futevôlei”.
EI: Você ficou amigo do “Jair
pai”, mas teve aquele desgaste com o filho. Ficou algum ressentimento?
“Nos
cumprimentamos nos jogos. O parabenizei pelos resultados, pelo trabalho. Ele
está focado na Copa Libertadores e nós na Copa do Brasil. Isso tudo ficou na
história”.
EI: Muito se fala da sua ligação e vontade
de voltar à seleção colombiana. Está nos planos?
RR:
“No momento, não penso nisso. Falta muito tempo e o professor Pékerman faz
um grande trabalho. Ele levou a Colômbia à Copa do Mundo de 2014, e fazia
muitos anos que não classificávamos. Agora, estamos na zona de classificação e
muito perto da Rússia. O mais saudável seria que ele seguisse. Vai ser uma
decisão dele. Agora, nosso compromisso é com o Flamengo. Muitos meios, imprensa
e colombianos reconhecem o nosso trabalho e querem que que a gente assuma essa
responsabilidade, mas tudo tem seu momento”.
EI: Além de Parreira, quais são os outros
treinadores que te servem de modelo?
RR:
“Vocês já sabem da minha admiração e do meu respeito pelo Carlos Alberto
Parreira, foi meu professor. O Tite é extraordinário, pelo que fez no
Corinthians e por essa virada com a seleção nacional. Tem um ótimo estilo e
pude escutar de pessoas perto dele que tem ótimos valores. A nível mundial,
tenho referências importantes em Alex Ferguson e Vicente del Bosque. São
treinadores competentíssimos, ganhadores, com grande capacidade de liderança e
respeitosos. São dois senhores que contribuíram muito para o futebol no
mundo”.
EI: Você já levou Honduras para uma Copa
do Mundo depois de 28 anos. Agora, Guerrero pode fazer algo parecido pelo Peru.
O que dizer a ele?
RR:
“Eu o acompanho desde a seleção sub-17, sub-20, quando dirigia a Colômbia.
Agora, o tenho no meu plantel, e vê-lo no Mundial seria muito emocionante.
Vamos ajudá-lo. Ele merece, assim como Trauco, mas será muito difícil. Tomara
que possam desfrutar deste Mundial”.
EI: Você está a menos de duas semanas da
primeira final pelo Flamengo. O time está preparado?
RR:
“Devemos chegar na melhor forma. Temos 12 dias, estamos muito perto. Todo
o corpo técnico e a parte administrativa e logística estão cuidando para que os
jogadores cheguem no melhor nível. Antes, temos três jogos muito difíceis,
contra Sport, Chapecoense, Avaí. São avaliações importantes, que servirão para
tomar ritmo e chegar bem psicologicamente e com bom nível de jogo”.

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