Sem arrependimento

34
Flamengo x Paraná pela Primeira Liga – Foto: Staff Images

O
GLOBO
: Por Fernando Calazans

A
ideia da Primeira Liga criou uma esperança para muita gente que vê o futebol
brasileiro com outros olhos, bem diferentes daqueles olhos que o governam. Era
uma espécie de primeiro passo para questões importantes como incrementar a
união dos clubes e dar a eles mais independência e liberdade em relação à CBF.
Por coincidência e por ironia cruel, o que prevaleceria depois seria um fato
independente e até inesperado.
Fato
este, mais um, em benefício da entidade, que conseguiu reduzir o poder de voto dos
clubes e aumentar o das federações, na sua eleição presidencial. É certo que um
acontecimento não tem a ver com o outro, mas foi a CBF que ganhou mais um
capítulo contra os clubes.
Outros
fatores enfraqueceram a Liga. Um deles relembrado agora por Abel Braga, em
entrevista depois da eliminação do Fluminense para o Londrina: “Você não pode
criar uma competição sem clube paulista”. É verdade. E os clubes paulistas não
deram a menor bola para a Liga.
Mas o
principal problema, ao lado da indiferença dos paulistas, era — e ainda é — o
próprio calendário do futebol brasileiro. Mesmo sem a Primeira Liga, esse
calendário já era algo ensandecido e incivilizado. Continua sendo, e o
problema, naturalmente, é como e onde encaixar mais jogos ainda — sejam da primeira,
da segunda ou da oitava Liga. É como tornar nacionalmente atraente esse torneio
— sem os clubes de São Paulo e com os jogos enfiados em datas e circunstâncias
exóticas.
Hoje,
não há como condenar técnicos daqui e dali que poupam jogadores titulares, às
vezes o time inteiro, nas datas da Primeira Liga. Até eu, que implico com esse
recurso utilizado pelos treinadores de poupar profissionais que vivem disso — e
vivem bem —, até eu compreendo a necessidade de escalar times mistos, reservas,
ou “alternativos”, como se diz agora, em mais um modismo que vamos copiando do
“futebolês dos técnicos professores.
E como
fizeram, neste meio de semana, os treinadores dos times cariocas envolvidos na
competição: o mesmo Abel Braga, do Fluminense, e o Reinaldo Rueda, do Flamengo,
este mostrando desde já sua adaptação ao futebol brasileiro. Só os cariocas?
Não. Aliás, nenhum deles se mostrou mais decidido e resoluto do que Renato
Gaúcho, do Grêmio, que, não contente em poupar seus titulares, poupou até a si
próprio e nem foi ao Mineirão para o jogo com o Cruzeiro, deixando a tarefa por
conta de seu auxiliar.
Em
comum, aconteceram duas coisas com esses três treinadores que pouparam seus
times nas quartas de final da Liga. A primeira é que todos perderam e foram
eliminados da competição. A outra é que nenhum deles ficou chateado ou
arrependido por isso.
Próprio para experiências
Outra
coincidência: os dois cariocas, Fla e Flu, perderam para times da Série B,
Paraná e Londrina respectivamente. Algo que não chega a ser alarmante porque,
devido à decisão de poupar os jogadores que vêm sendo mais exigidos, e com
tantas alterações, os que entraram em campo mal tinham atuado juntos. Do
goleiro ao atacante mais avançado, nem Fla nem Flu tinham apresentado alguma
vez as escalações da quarta-feira.
Além
disso, os técnicos dirão, com sinceridade e razão, que aproveitaram os jogos da
Primeira Liga para observar a rapaziada da base, alguns reservas que não têm
sido utilizados e outros jogadores que precisam entrar em forma física e
técnica. Nem todos, é verdade, corresponderam às expectativas desses
treinadores, da torcida e da crítica.
No
Paraná, parecia que o Fluminense é que era da Série B. O time misto jogou muito
mal, como reconheceu Abel. Júlio César falhou em pelo menos um dos dois gols
que levou, atrás de uma defesa que voltou a se mostrar insegura. No retorno ao
campo, depois de longa inatividade, um jogador importante como Sornoza deixou
claro que ainda está longe da forma ideal. Pedro e Peu ainda não se
credenciaram para jogar no time titular. Romarinho é que melhorou um pouco o
ataque, ao substituir Sornoza no intervalo. Até Wendel, em meio a tantos
reservas, passou o jogo em branco.
O
Flamengo não esteve muito melhor. Gabriel nunca se firmou na sua função
original, imaginem jogando de lateral-direito, numa “invenção” do Rueda. Rômulo
tampouco conquista lugar no time. Sempre tão exaltados no clube e fora dele,
jovens como Felipe Vizeu, Lucas Paquetá, Matheus Sávio (que não jogou) e outros
ainda não justificaram os elogios. Vinícius Júnior pode ser a exceção, mas, por
ser tão jovem, ainda oscila muito. Ele e Paquetá perderam os pênaltis na
decisão. Muralha… bem, Muralha custou, mas agora é bem conhecido da torcida.
Ficou longe de defender uma cobrança de pênalti, e falhou de forma primária no
gol do Paraná, uma falta cobrada da intermediária.

COMENTÁRIOS: