VP do Flamengo ironiza capa do Extra: “Isso não é jornalismo, é?”

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Alex Muralha, goleiro do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

O
GLOBO
: Por Antonio Tabet

Não me
venha com delação do Funaro, Amazônia, mulher estuprada ou atentado pelo mundo!
Isso não dá clique
Na
redação, o chefe interpela um funcionário.
— E
aí? Já temos o editorial de amanhã?

Ainda não.
— Mas
temos um assunto pelo menos?
— Sim,
chefe!
— E
qual é? Não me venha com essas babaquices de delação do Funaro, Amazônia,
mulher estuprada ou atentado lá na casa do cacete, hein! Isso não dá clique.
— Não…
não é sobre nada disso. Tô com uma bomba.
— Qual
bomba? A bunda da Anitta? A bunda da Ludmilla? A bunda da Marquezine?

Melhor que isso! O goleiro do Flamengo.

Flamengo é excelente! Dá clique. É aquele goleiro que matou a namorada?
— Não.
Outro goleiro.

Outro goleiro matou a namorada?
— Não.
Bem pior.
— Bem
pior? Matou a mãe? Matou o pai? Matou os filhos?
— Não.
Ele falhou.
— Boa.
Frango de goleiro sempre dá clique.
— É
que não foi exatamente um fraaaaango, chefe. Foi mais falha mesmo.
— E aí
eles perderam o jogo por causa dessa falha?

Também. Na verdade, a partida foi pra pênaltis depois. E aí ele não pegou
nenhum.
— E
todos os goleiros sempre pegam os pênaltis?
— Nem
sempre. Aliás, na maioria das vezes, nem pegam.
— Não
tem problema. Quando um time perde título, sempre dá clique também. Vamos
nessa.
— É
que eles não perderam um título.
— Não?
Mas eles não vão jogar uma final aí?
— Vão.
Mas essa partida foi de outra competição.
— Uma
competição mais importante?

Menos importante. Eles até jogaram com os reservas.
— É o
goleiro reserva então?
— É.

Peraí. Deixa eu ver se entendi. O editorial vai ser sobre o goleiro reserva que
falhou e não pegou os pênaltis que outros goleiros nem sempre pegam num jogo de
um campeonato menos importante que não valia um título?

Isso.
— Mas
você acha que isso vai dar clique?
— Vai
porque é zoeira. O tal goleiro tem um apelido. “Muralha”. Vamos dizer que não
chamaremos ele de mais assim. Genial, né?
— Mas
esse Muralha não é o mesmo que a gente batalhou uma exclusiva quando ele tava
na seleção?
— Esse
mesmo.

Nossa! Lembro dele. Quanto tempo faz isso? Uns três… quatro anos?
— Oito
meses.
— Sei
não. Mas se você tá me garantindo os cliques…
— Vai
por mim, chefe. Ele não tá merecendo ser chamado de Muralha.
— Tá.
Mas é que a gente também chama o Belo de Belo, o Gilmar de juiz e o Temer de
presidente, né? Tô com medo de não quererem mais nos chamar de jornalistas.
— Mas
nós não somos jornalistas.
— Não?
— Não.
Isso que a gente faz não é jornalismo, é?
Depois
de um breve silêncio, o chefe responde.
— Tá
bem. Mas vê se descola a bunda da Anitta pra depois de amanhã.

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