CEO do Flamengo, Fred Luz reafirma não saber de futebol

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Fred Luz, CEO do Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

GLOBO
ESPORTE
: “Eu não entendo nada de futebol”. Era essa a frase que o CEO
do Flamengo, Fred Luz, repetia em 2013 sempre que o assunto era discutido na
gestão Eduardo Bandeira de Mello. Compreensível. Afinal, o engenheiro foi
contratado para a área de marketing do clube por sua habilidade com vendas.

O
próprio confessa não ser especialista, aponta pessoas mais capacitadas para tratarem
do assunto dentro do Rubro-Negro. Porém diz, repetidas vezes, que com vivência
baseada no MBWA (Management By Walking Around – em tradução livre “saindo
do escritório para interagir e ver as necessidades de seus colaboradores”,
método de gestão de pessoas que prega que o gestor circule para ter uma
percepção real do que acontece na empresa) e aprendizado com erros,
familiarizou-se com o assunto.
Nos
últimos quatro anos muita coisa mudou, e Frederico Luz, como era tratado pelo
site oficial do Flamengo enquanto atuava como diretor de marketing, em 2013,
cresceu. Expansivo, tornou-se diretor-geral do clube um ano depois. Virou
figura crucial no fechamento de vários patrocínios e, diante do espaço que foi
ganhando, tornou-se o “01 do futebol”.
Hoje,
no organograma do clube, está acima do diretor Rodrigo Caetano – contratado por
ser especialista no assunto. Fred participa de praticamente todas as viagens da
equipe, aparece em preleções e atua ativamente em negociações de atletas.
Com
ganhos mensais de alto executivos do mercado e direito a até seis salários de
bônus em caso de metas esportivas e financeiras atingidas, o dirigente causa
discordância em alguns setores do clube por conta de seu crescimento no comando
de um esporte que dizia a seus pares não dominar. Até chegar ao Flamengo, ele
nunca trabalhara no meio. Grupos políticos e ex-aliados o acusam de ter virado
“CEO do Futebol”.
Trajetória e perfil
Formado
em engenharia, Fred Luz, de 64 anos, foi levado ao Flamengo por Luiz Eduardo
Baptista, o Bap, vice-presidente de marketing até fevereiro de 2015. Bap, um
dos nomes mais fortes da Chapa Azul, deixou o cargo em 2015 e foi para a
oposição
Bap e
Luz se conheceram nas Lojas Americanas, onde Fred foi diretor comercial.
Fred é
sócio da holding Inbrands, que reúne marcas como Richards, Salinas, Ellus e VR,
e chamou atenção do grupo que venceu as eleições rubro-negras de 2013 pela
habilidade com negócios. Ele não tem formação em marketing, mas o destaque no
varejo estimulou Bap a apostar no amigo.
De
acordo com pessoas que lideraram a Chapa Azul em 2012 e que preferiram não se
identificar, Fred foi contratado por sua frieza.

Trouxemos Fred porque sabíamos que ele não se deixaria envolver por emoção. É
bom para quem vai negociar. Precisávamos de um cara que é Flamengo, mas que não
tivesse o nível de emoção que eu e outros do nosso grupo temos. Fred nunca
gostou de futebol. Era o cara que na segunda-feira não sabia do resultado da
véspera. É Flamengo por coincidência. Mas nunca perdeu o sono – disse uma fonte
que não quis ser identificada.
“É um excepcional comercial”
A
mesma fonte, uma das entusiastas da contratação do atual CEO do Flamengo em
2013, classifica Fred como um grande negociador.
– O
Fred é um excepcional comercial e bom gestor. Como precisávamos renegociar
muita coisa no Flamengo, a nossa estratégia era: “Nós vamos resgatar
credibilidade e abrir portas com o nome da gente. Quando os caras estiverem
abertos a conversar com o Flamengo, mandamos o Fred e vamos conversar com o
próximo parceiro”.
“É como você dar a camisa 10 ao
Márcio Araújo”
Líder
da Chapa Azul em 2012 e dissidente na eleição seguinte, o autor das palavras
relatadas acima, desapontado com Fred, garante que jamais imaginaria ver o
profissional tão forte no futebol. E vai além: crê que o conformismo
apresentado com as derrotas é reflexo da personalidade de Luz.
– É
como você dar a camisa 10 para o Márcio Araújo e ficar irritado porque ele não
sabe finalizar e porque não cobra falta. Quem está errado: o Márcio Araújo, que
está com 10, ou quem o colocou com a 10? O futebol do Flamengo perdeu essa
coisa da garra, da paixão e dedicação, que é exatamente o que o Fred é: um cara
frio, calculista e que não se emociona à toa.
Contratação de consultorias e Fernando
Gonçalves
Fred é
o responsável pela contratação de consultorias tais como a da Exos, empresa
americana de excelência em prevenção de lesões, e da holandesa Double Pass,
voltada para a base do clube.
Outra
consultoria levada ao Flamengo por Fred é ministrada por Cristiano Koehler,
ex-CEO do Vasco. Inicialmente contratado para ser um consultor financeiro e com
atuação voltada ao programa de sócio-torcedor Nação Rubro-Negra, ele presta
consultoria sobre sistemas de gestão. Ex-funcionários dizem que esta teria foco
no futebol, mas Luz nega.
A Exos
é peça fundamental do Centro de Excelência em Performance (CEP). Para este
setor, Fred fez uma de suas contratações mais polêmicas: Fernando Gonçalves.
Tricolor
de coração, Fernando quase voltou ao Fluminense em 2017 a convite de Pedro
Abad, atual presidente do Flu. Contratado para prestar o serviço de coaching ao
Flamengo, tornou-se responsável pelo setor de psicologia do clube, com muita
influência no futebol. É homem de confiança de Fred Luz e tem experiência no
mundo da bola. A presença de Fernando incomoda a funcionários do Flamengo.
O CEO
participa de todas as decisões do futebol e é visto como um desatador de nós em
negócios complexos. Relatos o classificam como “coerente, tranquilo, muito
pé no chão e bom de papo”.
Declarações polêmicas
Em
entrevista ao “O Globo” em 7 de julho de 2017,
Fred Luz causou revolta nas redes sociais com a seguinte resposta ao ser
perguntado sobre a possibilidade de se praticar preços populares na Ilha do
Urubu: “Populares são as gratuidades. Isso no Estado não tem cunho social,
não importa a renda. Poderia ser, mas não é”.
Em
2016, o Fred Luz foi muito criticado por sócios por ter permitido que o jogo
com o Palmeiras, no início do Brasileiro, tivesse venda de ingressos de
diversos setores mistos. Resultado: a torcida visitante compareceu em peso,
dividiu o Mané Garrincha, e o Flamengo perdeu por 2 a 1.
Para
completar o combo, houve briga entre os torcedores e o clube foi punido no
STJD. Na ocasião, Fred se disse surpreso.
Procurado
pelo GloboEsporte.com para dar sua posição, Fred Luz aceitou receber a
reportagem em sua sala no clube, onde deu longas explicações. A entrevista
durou quase três horas.
Ele
negou que não ligasse para o futebol do Flamengo, disse ainda estar atento às
demais áreas do clube e admitiu erros no planejamento do carro-chefe
rubro-negro. Apesar da mea-culpa, vê o Fla de 2017 à frente do de 2016.
Leia
tudo abaixo.
Você realmente não tinha interesse por
futebol? Realmente dizia que não entendia de futebol?
A
maioria das vezes que eu falava isso era com a imprensa, e eu não sou a pessoa
que fala sobre futebol com a imprensa. Quem fala sobre futebol são Rodrigo, o
presidente, o vice-presidente do futebol e o técnico.
Não
falo sobre futebol porque acho que já há pessoas suficientemente preparadas
para falar disso. Sempre fui ao Maracanã desde garoto. Assistia Flamengo x
Olaria, Flamengo x Madureira… Minha primeira decisão infelizmente foi a de
62, em que o Flamengo perdeu para o Botafogo por 3 a 0.
Não
tem esse negócio. Gosto de futebol, sempre frequentei. Frequentava com meus
pais, frequentava sozinho e depois passei a frequentar com meus filhos.
Não
fui aquele torcedor depois de uma certa idade, até por força do meu trabalho,
de ir a todos os jogos no Maracanã.
Sempre
fui muito apaixonado pelo Flamengo. Só não ouso falar que eu conheço mais do
que os profissionais que têm experiência continuada no futebol. Nossa sociedade
é um pouco arrogante, e no futebol também, em termos de se colocar numa posição
de quem saiba alguma coisa sem ter se dedicado em profundidade.
Então, na minha opinião quem entende de futebol é o Rodrigo Caetano, que é
diretor de futebol e foi jogador de futebol desde os 10 anos de idade.
E
todas as pessoas que têm experiência continuada que levam aos dramas. O grande
aprendizado vem dos dramas. Ou seja, os técnicos de futebol, o pessoal da
comissão técnica. Esse é o pessoal que basicamente influencia e tem a maioria
das decisões dentro do futebol do Flamengo.
Mas pessoas que trabalharam ao seu lado no
Flamengo dizem que você não ligava para os resultados. Inclusive sustentam que
o contrataram por conta da sua frieza. Essa falta de paixão pelo Flamengo nunca
houve da sua parte?
Cada
um tem suas características pessoais. Têm pessoas mais inflamadas, que gritam,
chutam cadeira e soltam impropérios. Eu não tenho esse perfil. O meu perfil é
de uma pessoa que tem algum equilíbrio emocional. Talvez eu seja um dos que
mais tenham. O que é completamente diferente de não ligar para resultado.

tive vários dias tristes no Flamengo, um dos mais tristes foi aquela derrota
por 4 a 2 para o Atlético-PR, no Maracanã, pelo Brasileiro, em que Mano Menezes
foi embora.
Naquela
época, eu era um cara do marketing. Eu me senti mal. Com a saída do Mano e
várias circunstâncias que não cabem agora citar, eu coloquei em xeque até a
qualidade da nossa própria gestão e o que conseguiríamos pela frente.
Graças
a Deus veio uma baita reação. Foi basicamente um movimento dos jogadores. Os
jogadores reagiram e, com a entrada do Jayme, nós ganhamos a Copa do Brasil.
 derrota da Libertadores foi acachapante, muito sofrida. O Flamengo deu muita
chance ao azar, e o azar caiu como uma bomba na nossa cabeça.
Vários
jogos bons do Flamengo foram na Libertadores. Todos do Maracanã foram bons, e
nós fizemos jogos bons lá no Chile e fomos bem contra o Atlético-PR. Contra o
San Lorenzo, demos muitas chances ao azar, e ele veio.
Nós
estamos trabalhando para construir um Flamengo sólido para caramba, e eu te
garanto uma coisa:
Na
hora que a gente acertar, o Flamengo vai ganhar tudo e sempre. Vai ganhar pra
caramba. Estamos construindo um Flamengo forte, mas não chegamos lá ainda.
O que fez você tornar-se tão atuante no
futebol agora?
Não
tem esse agora, sempre foi assim.
Na
medida em que o futebol comece a apresentar resultados, eu vou estar mais
distante. Você tem que dar mais atenção enquanto você tem um desvio.
Não
tenho dúvida de que o Flamengo vai engrenar. Assim como eu sei que eu vou
morrer (risos), só não sei quando nem como, eu tenho certeza de que o Flamengo
vai engrenar. Só não sei quando.
A
partir de 2014, eu passei a frequentar muito o futebol, que é a principal
atividade do Flamengo. Até diria que 90 e poucos por cento da receita do
Flamengo vêm do futebol. O Flamengo busca o ciclo positivo: desempenho
esportivo apoiando o crescimento das receitas. O crescimento do valor, o
interesse para o Flamengo, que aumenta a audiência e o valor dos patrocínios.
Mas eu
não sou a pessoa que decide o dia a dia do futebol. O meu papel é organizar o
futebol, assim como é meu papel organizar todas as áreas do Flamengo.
Você foi eleito o melhor CEO do futebol
brasileiro no prêmio BrSM, em 2015. Qual o papel do cargo de diretor-geral (na
linguagem popular) na rotina do Flamengo?
A
minha responsabilidade é na execução. A decisão está nos vice-presidentes e no
presidente do clube. Eles decidem pelo clube. Eu sou o líder do grupo
executivo. Fala-se muito em MBA, eu gosto do MBWA (Management By Walking
Around). É impossível você ter conhecimento de causa sem vivenciar. Aprendi
isso nas organizações em que trabalhei, e elas são muito bem-sucedidas.
Não
sou tão presente assim no futebol. Numa semana, vou duas vezes ao CT, isso
representa 20% da minha agenda. Mas o futebol é muito envolvente. Agora eu
estou envolvido com estádio, com esporte olímpico, com as obras da Gávea.
A
administração geral, que é o meu papel, é como o chinesinho dos pratinhos. O
pratinho que está prestes a cair, você tem que pegar a varinha e rodar. Qual
pratinho do Flamengo está caindo hoje? O futebol hoje demanda mais atenção, mas
o meu papel no futebol é muito mais da estruturação. O Flamengo está fazendo
movimentos no futebol ligados a infraestrutura no futebol que ninguém vai ver e
que não têm que ser ponto de atenção da torcida.
Se
você for olhar a melhoria que tivemos na base, é enorme. O último vendido com
valor relevante foi Renato Augusto, e você vê o que está acontecendo. Por quê?
Porque mudamos as metas da base. Passamos a estar muito mais preocupados que o
Flamengo tenha jogadores nas seleções de base. Isso mudou o sarrafo e é
cobrado.
Passamos
a ter uma série de rotinas que avaliam a qualidade das decisões técnicas, eu
nem participo dessas reuniões. Mas tem um método de cobrança. Todo mundo tem
metas, tem que explicar os desvios e o que vai fazer para melhorar. Temos
cultura de estar muito mais preocupados em não procurar culpados, mas sim em
melhorar.
Você falou em cobrança. Há uma impressão
de conformismo no discurso de dirigentes e jogadores. O presidente, por
exemplo, tratou a derrota para o San Lorenzo como “normal” em
desembarque no Rio. Não existe talvez aceitação de derrotas por parte desse
Flamengo? A cobrança não é feita de maneira efetiva?
Discordo
completamente disso aí, acho que tem muita cobrança, os próprios jogadores se
cobram muito. Agora, aquele negócio: perdeu. Você pode fazer o seguinte:
“Vou chutar tudo quanto é parede, vou jogar cadeira no lixo, vou gritar
para a rua”.
Vai
resolver alguma coisa? Vai resolver p… nenhuma. O que eu tenho de falar?
“Cara, onde a gente errou? Qual foi o nosso conformismo?”. Jogamos
bem, mas perdemos todos os jogos fora. Isso é um p… de um problema. Temos que
corrigir isso e identificar o que está acontecendo com a gente.
Você
só sabe depois que faz. Não é conformismo, mas o Flamengo não está na m*. Há
dois anos, três anos, a conversa não era de rebaixamento, mas era quase. Era um
limbo do cacete.
Agora
vamos pegar o ano passado. Dizem que o ano passado foi melhor. Foi mesmo? Nesse
ano, fomos campeões cariocas invictos. No ano passado saímos na semifinal.
Tivemos o revés na Libertadores (neste ano), nossa meta era ir muito mais longe
e talvez ganhar. É a meta do ano que vem de novo. Nossa meta do ano passado era
classificar para a Libertadores. Saímos da Sul-Americana logo, logo. Na Copa do
Brasil, quase caímos para o Confiança e perdemos para o Fortaleza. Nesse ano,
fomos à final.
Então,
disputamos todos os torneios depois da Libertadores. Todos! Não saímos da
Sul-Americana. Temos chance ainda de acabar entre os três do Brasileiro.
O
Flamengo não está morto, não tá em situação de terra arrasada. Já conquistou
mais do que no ano passado. Eu queria muito mais, os jogadores também, mas não
tem conformismo.
Não
pode ter atitude de derrubar tudo, derrubar o CT… não leva a nada. O que leva
é o aprendizado em cima dessa situação.
Temos
que lutar com raça, amor e paixão, que é o lema do Flamengo. Não é para fora, é
para dentro. Esporro é individual e em particular. Não é público.
É
bonito, o cara fica bem com todo mundo e diz que faz e acontece, o valentão e o
cacete a quatro, mas não é produtivo. Para dentro, não funciona.
É fato
que você participa de negociação de jogadores agora… Participo.
Mas até 2014 você não participava? Na
negociação do Vinicius Júnior, por exemplo, você foi a figura principal do
Flamengo. Só você falava com o Real Madrid, negociou com o CEO deles (José
Angel Sánchez)…
Não
gosto desse negócio de figura principal. Sempre vivi no mundo dos negócios.
Qualquer negócio grande, até por questão de segurança, deve estar dividido e
conhecido por várias pessoas. Contrato da TV Globo, por exemplo, quem negociou?
Eu. Mas fui sozinho? Claro que não. Divido com vários vice-presidentes, você
olha para fora, conversa com outros clubes. Vai, volta, vai, volta, e você
fecha.
A
mesma coisa acontece com transação de jogador. Claro que, com valores mais
baixos, você olha menos. As famosas alçadas que acontecem em qualquer
organização.
O negócio
do Vinicius Júnior era preocupante. Ele tinha cláusula de R$ 30 milhões para o
mercado interno e 30 milhões de euros para fora. A gente corria o risco de
alguém vir e comprar no mercado interno e revender.
Começamos
a estruturar uma renovação do contrato dele. Não fui eu. A liderança era do
Rodrigo Caetano. Mas tinha muita gente querendo saber. O negócio foi muito bem
conduzido pelo Rodrigo, e na hora de viajar, eu sempre participei dessa parte
de negociar na minha vida toda. Eu trabalhei num negócio de comprar e vender.
Junto aos meus sócios, tomava conta de todas as transações da companhia.
Então
eu que fui para a Espanha, eu que conversei, e fechou. Mas foi o Fred que fez?
Eu participei.
Quando
você fala de execução no Flamengo, tudo é o Fred. Tudo que é relevante. O
terreno agora que a gente tem a opção do estádio? O Fred estava envolvido. A
primeira pessoa que foi lá fui eu. Mas por acaso. Poderia ter sido o Wrobel. A
execução é comigo.
Mas a
palavra final nas grandes transações do Flamengo fica com presidente e
vice-presidentes. Eles que decidem. Nós executamos. Não tem mais um trabalho
isolado no Flamengo.
Mas de toda forma o caso do Vinicius
mostra o crescimento da sua atuação no futebol…
Em
2014, entrou o Ney Franco. Não tinha ninguém. Ele queria contratar os
jogadores, quem ligou para os empresários? Eu. Tive que acumular. No ano
passado, o Vido esteve viajando num momento em que montávamos o elenco do ano
passado de basquete. Eu fechei alguns jogadores.
Você participa da montagem do elenco? Dá
pitaco?
Nada.
São as pessoas do futebol que fazem essa avaliação.
O que
eu procuro fazer, sim, é garantir que todos os cuidados de investigação foram
tomados: o histórico do jogador, o comportamento dele, mas quem faz isso não
sou eu. A questão física do jogador, como é e como não é. Têm protocolos e
sistematizações que precisam ser acompanhados.
Hoje o
Flamengo sistematiza tudo. As decisões de contratações na área do futebol estão
todas registradas. Por que a gente contratou, que skills (habilidades) a gente
esperava daquele jogador… Seis meses depois, um ano depois, eu volto naquilo
ali. Precisa entender de futebol para fazer isso? É preciso entender de gestão.
Mas
isso só é feito com paixão, raça e tesão pra c…
Você tem essa raça, esse tesão e essa
paixão citados por você?
Tenho
total. Posso gritar, espernear e o caramba, até porque eu grito mesmo, mas você
está com a decisão. Você tem que me enfrentar. Eu quero gente aqui tão boa ou
melhor do que eu. É o que o Flamengo precisa. O cara aqui nunca vai ser punido
por ter me confrontado. Agora os nossos resultados teriam que ser melhores.
São justas as críticas de que, ao se
envolver muito com o futebol, você deixou as demais áreas do clube e outros
projetos de lado?
Não
concordo de jeito nenhum. Não concordo mesmo. Tem um negócio chamado
“cheque em branco”. Por exemplo: “Eu não tenho tempo para
discutir um assunto com você, eu te dou um cheque em branco”. Isso
acontece. O Flamengo é amplo o suficiente para eu não olhar tudo.
Um
contrato de renovação com a TV Globo? Eu vou estar lá. Uma conversa com o
governador ou com a Casa Civil sobre Maracanã? Eu vou estar lá. Agora, mal
comparando, a obra para botar azulejo no banheiro da Gávea? Eu não vou estar
lá. Tenho gente para isso, mas eu ando pela Gávea. Também não estou todo dia no
CT. Se encontro um banheiro sujo, eu chamo o cara. Todo mundo aqui tem meta. Se
as suas estão sendo atingidas, eu não vou encher muito seu saco.
Temos
mapa de gestão e metas em todas as áreas. Temos metas de conseguir estádio,
conseguimos estádio alternativo. Eu não estava no estádio? Em qual assunto
relevante eu não estava?
Fred Luz amplia a resposta e cita a
consultoria prestada por Cristiano Koehler
Eu
trouxe o Cristiano Koelher porque no início da carreira dele ele teve uma
experiência no Grêmio de estruturar um sistema. Trouxemos esse sistema, e o
Cristiano me facilita o acompanhamento. Sabe quem faz isso igual? O Real
Madrid.
Temos
metas, e elas são aprovadas pelo Conselho Diretor. Todas as áreas têm projetos
estruturantes. Temos de saber em que momento eles precisam ser vencidos. Tudo
isso é desdobrado em várias pessoas.
Acende
luz verde e luz vermelha, isso demanda trabalho e acompanhamento. Cristiano é o
facilitador dessas reuniões. Ele é o ponto de ligação entre os diretores e os
gerentes. Isso é um sistema de gestão.
Os bônus aos quais você tem direito são
ligados à arrecadação. Não deveriam estar ligados também ao rendimento
esportivo? Continua assim?
Não só
eu tenho bônus. Todos os diretores e gerentes contratados em 2013 tiveram bônus
estabelecidos que hoje está pacificado em seis salários. Flamengo tem metas
financeiras e esportivas. A meta esportiva era classificar para Libertadores.
Eu tinha essa meta.
Flamengo
tem meta de resultado, não de arrecadação. É receita menos despesa. Tem meta de
lucro, tem meta de geração de caixa… São as metas globais do Flamengo. Tem
uma avaliação que o Conselho Diretor faz da qualidade da gestão que faço.
A meta
de 16 foi aprovada no final de 15. A decisão não é minha. Eu não decido o meu
bônus. Quem decide é o meu chefe. Não só eu tenho isso. No futebol tem também.
Rodrigo tem meta, o Márcio (diretor de comunicação) tem meta, o Paulo Dutra
(diretor financeiro) tem meta.
E você está muito longe de atingir suas
metas em 2017? Imagino que o Flamengo tenha projetado algum título grande. Você
poderia falar quais são suas metas?
Na
Libertadores, fomos mal, ficamos aquém. No Brasileiro, podemos ficar entre os
três. E a Sul-Americana a gente pode ganhar. O ano não acabou para o Flamengo,
e o ano pode não ser tão ruim para o Flamengo. Ganhamos o Carioca invictos e
chegamos à final da Copa do Brasil, que é muito importante. Tivemos um trauma
de não ganhar a Copa do Brasil. Me senti mal pra caceta.
Sei que é forte falar em fracasso na Copa
do Brasil, mas esperava-se um grande título no ano.
Na
história do Flamengo, foi a sete finais de Copa do Brasil e ganhou três. Nessa
gestão, perdeu e foi fracasso?
É pouco dentro do que se espera desse
Flamengo e pelo investimento feito. Em 2014, por exemplo, foi à semifinal,
ganhou de 2 a 0 do Atlético-MG no Rio, abriu 1 a 0 no Mineirão e deixou virar
para 4 a 1.
É
futebol…
O ano não acabou, mas em outubro o
Flamengo só tem chance de um título. Só a Sul-Americana é palpável. É possível
dizer em outubro que o ano é decepcionante?
Se o
Flamengo ficar entre os quatro primeiros no Brasileiro e ganhar a
Sul-Americana, acho que terá sido um bom ano para o Flamengo.
Mesmo com o vexame na Libertadores?
O
Flamengo não ganhou nenhum jogo fora na Libertadores, foi muito ruim. Ponto.
Mas é futebol. Se a gente ganhar a Sul-Americana e terminar entre os quatro no
Brasileiro, tendo ido à final da Copa do Brasil e sido campeão carioca, eu
diria que esse ano de 2017 foi muito melhor do que em 2016.
Sem dúvida, até porque não ganhou nada em
2016…
Então
não se pode nem chegar perto de se falar em fracasso.
Decepção, certo?
Decepção
é sempre em relação a uma expectativa. Se a minha a expectativa é ser campeão
de tudo, e isso pode ser irrealista, qualquer coisa que eu não ganhe é
decepção. Sem nenhum conformismo, eu acho que o Flamengo, até pelo investimento
que está sendo feito no futebol, tem de estar muito mais preparado para ganhar
com mais facilidade dos seus adversários.
Nesse
aspecto, acho que o Flamengo ainda precisa evoluir sim, porque joga adversários
que tem nível de investimento inferior ao do Flamengo, e o Flamengo não
deslancha.
Segundo:
acho que quando o Flamengo joga desfalcado, apesar de eu achar que tem um ótimo
elenco, esse time desfalcado não tem desempenhado bem. É outro ponto de
atenção.
O elenco é desequilibrado então, concorda?
Não
diria que é desequilibrado, acho a qualidade dos nossos jogadores muito boa.
Falta alguma coisa no nosso processo para que isso não aconteça da forma que
tem acontecido.
Como avalia o planejamento do futebol para
2017, principalmente diante do problema de registro de jogadores na Copa do
Brasil só até 24 de abril? Você acha satisfatório, crê que esses nomes de peso
que vieram depois deveriam chegar no início do ano?
Acho que
no momento em que foi feito o planejamento, ele foi bem feito. Depois, se
mostrou que poderíamos ter feito coisas diferentes.
O
Flamengo tinha limitações financeiras também que não permitiam naquele
momento… Se a gente não tivesse vendido o Vinicius Júnior, talvez não
tivéssemos contratado o Éverton Ribeiro. As outras contratações foram
oportunidades em que o Fla não teve de fazer investimento adicional, embora
onerasse nossa folha de pagamento.
A
gente faz um planejamento considerando que vai dar certo no ano, mas, como a
vida não é tão perfeita assim, principalmente no futebol, a gente sempre deixa
uma folga olhando o desempenho do semestre para termos sempre a oportunidade de
ter um upgrade maior no meio do ano. Esse upgrade pôde ser maior por causa do
evento do Vinicius Júnior.
Flamengo,
sempre que pode, está qualificando melhor o seu elenco. O elenco do Flamengo
hoje é melhor do que o ano passado. O desempenho no Brasileiro não é melhor,
mas overall (no geral) é.
Insistindo: diante de tudo que aconteceu
na Libertadores, pegando um Atlético-PR em frangalhos, um time da Católica
muito fraco, não é possível considerar fracasso na Libertadores? Time forte era
o San Lorenzo, que ainda enfrentou greve no futebol argentino no início do ano.
A
Libertadores foi uma grande decepção, já falei isso aqui. Libertadores foi um
p… de um trauma, acho que até refletiu na continuidade. Ser desclassificado
na primeira fase da Libertadores é um fracasso, mas é muito diferente de
considerar o ano um fracasso. O ano de 2016 foi um fracasso? Flamengo foi
terceiro colocado no Brasileiro. Foi fracasso?
O Flamengo vinha de sucessivos fracassos
contra o Vasco, seu maior rival, deu um baita vexame na Copa do Brasil contra
um time de Terceira Divisão (Fortaleza) e também na Sul-Americana, diante de um
clube sem tradição alguma (Palestino).
Nesse
ano, apesar ter caído na Libertadores, os resultados são melhores. No ano
passado, O Flamengo saiu na semifinal do Carioca. Nesse ano, foi campeão
invicto. Jogou muito bem os dois jogos da final, contra o Fluminense.
Qual sua relação com Fernando Gonçalves e
por que um coaching é importante no organograma do Flamengo?
Relação
profissional, conheci o Fernando aqui no Flamengo. Ele trabalhava na Traffic,
era diretor lá. Ele participou de algumas conversas comigo quando eu ainda era
do marketing. Chegaram a fazer proposta para fazer determinados trabalhos de
vendas para o marketing. Quando eu estava começando no futebol, em 2014, no
período de transição, tivemos uma negociação do Caio Rangel. A Traffic tinha
alguns jogadores no Flamengo. O Fernando tratou dessas questões, e eu
participei dessas questões com ele, e eu comecei a discutir filosofia de
futebol com ele.
Gostei
da visão que ele tinha de futebol, mas ele falou que queria sair desse negócio
de futebol. Ele disse que nunca teve ambição de função executiva no futebol.
Disse que tava mudando a vida dele para esse negócio de psicologia positiva no
futebol.
Como
as ideias dele de organização do futebol coincidiam com muitas ideias do Felipe
Ximenes, que depois foi contratado para ser diretor do Flamengo, conversei com
o Ximenes. “Bom, Ximenes, como você está muito envolvido na direção
executiva de futebol, de repente para gente implantar a mudança que queremos no
futebol, como o Fernando é muito afinado com você, talvez a gente possa
contratar o Fernando para vir como um consultor pra gente para te
apoiar…”.
Eu não
poderia contratar sem ele concordar. Aí concordamos em fazer acordo com
Fernando, ele saiu da Traffic e veio para fazer consultoria e nos ajudar a
montar a estrutura do futebol.
No Centro de Excelência em Performance
(CEP), por exemplo?
Na
época, os conceitos. Foram criados o MAIA, que é o mapa de acompanhamento
individual do atleta. Criamos a inteligência em mercado. As áreas em si são
menos importantes que o conceito em geral. Fomos montando o conceito do
departamento de futebol com Ximenes e o Fernando. O Fernando teve como
consultor um papel muito importante no que é o Flamengo em sua operação.
O
Rodrigo também se alinhou nesse movimento, e o Fernando foi saindo dessas
questões ligadas ao futebol. Ele fazia parte do comitê de futebol, mas nunca
teve poder de decisão em contratações. Ele podia ter opinião, mas não tem
opinião determinante, e eu também não tenho. Ele foi se dedicando cada vez mais
à psicologia. Começamos a trabalhar mais isso na base e depois foi levado ao
futebol profissional.
O fato de Fernando ser tricolor e por
quase ter ido para a gestão do Pedro Abad não incomoda? Essa resistência a ele
não mexe com você, não o inclina a mudar?

muitos outros funcionários no Flamengo que não são Flamengo. Muitos bem
importantes que não são Flamengo. Avalio num funcionário se ele trabalha bem ou
mal. No caso do Fernando, não sou eu. São os chefes dele: Rodrigo e Tannure.
São pessoas que têm opinião sobre ele.
Para
ser político, claro que não pode torcer para outro time. O cara não pode ser
vice-presidente do Flamengo e torcer para o Botafogo. Funcionário não tem
problema
Há críticas ao Mozer. Dizem que ele não
faz nada no Flamengo. Qual o papel dele?
Mozer
é o coordenador técnico. Quem lidera as reuniões técnicas no Flamengo é o
Mozer. Negócio dele é futebol. Ele fala diretamente com jogadores, apoia
treinador nas questões do que se precisa mudar no comportamento dos jogadores
em campo. Fala muito com os atletas sempre alinhado com o treinador.
Você se comprometeu a deixar o Fla caso o
Bap saísse? Também dizem que você falou em sair caso o grupo que se transformou
na Chapa Verde perdesse as eleições de 2015. Procede?
Não.
Vou falar bem o que aconteceu. Vim para o Flamengo por causa do Bap. Senão nem
viria aqui. A pessoa em quem eu tinha confiança de que eu estaria me envolvendo
com ambiente sério era o Bap. Não conhecia mais ninguém no Flamengo, só o Bap.
E o Bap já tinha me chamado antes: “Pô, Fred, entra para sócio, se
aproxima mais do Flamengo”. Mas eu não achava esse ambiente do futebol uma
coisa para eu me envolver.
Quando
eu vi que eles estavam fazendo uma chapa puro-sangue, liguei para o Bap e me
dispus a ajudar. Vi que alguma coisa estava fazendo sentido. Assim que a chapa
ganhou, Bap me pediu para trabalhar aqui, ainda tive dúvidas.
Quando
deu a confusão, eu falei com ele: “Bap, eu estou aqui por sua causa”.
Isso no início de 2015. Me lembro que conversei com ele ali no Talho Capixaba
(restaurante no Leblon), era o dia do desfile das campeãs. Ele disse:
“Não, Fred, você fica porque é melhor para o Flamengo você ficar”.
Continuei
a vir no Eduardo e nas pessoas que ficaram para ver que aquela filosofia iria
continuar, ou seja: que o Flamengo ia continuar responsável, sério.
Acho
que executivo não tem que ter participação política. Para nós, qualquer que
seja a chapa eleita, temos que ver qual é a filosofia do Flamengo. Nunca teve
nenhuma conversa de “vou sair” ou “não vou sair”. Muito
menos com viés eleitoral. No momento que sentei na cadeira de executivo, eu fechei
a porta para a questão política. Se eu tivesse saído, eu sairia quieto. Não num
movimento político.

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