Diretoria do Flamengo se acostumou a viver sem críticas

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Gabriela Moreira, repórter da ESPN – Foto: Reprodução

ESPN: Gabriela
Moreira

A
partir desta semana, os jornalistas que cobrem o dia-a-dia do Flamengo terão em
seu inconsciente o peso da censura. Se fizerem algo que desagrade os donos do
clube, poderão ter o direito de perguntar cassado. Este é o peso da decisão
tomada pela comunicação do clube na semana passada, ao impedir o livre
exercício da profissão pelo repórter Diogo Dantas, do jornal Extra. E a decisão
veio justo do Flamengo, o clube que mais se beneficiou da imprensa livre nos
últimos tempos.
Em 2012,
no ano em que se candidatava pela primeira vez, Eduardo Bandeira de Mello teve
como adversária Patrícia Amorim. O último ano da presidente foi também um dos
anos de imprensa mais crítica na Gávea. Uma sucessão de escândalos veio à tona.
Começando com as revelações dos bastidores da contratação de Ronaldinho Gaúcho,
terminando com a devassa feita na gestão da dirigente que também era vereadora,
expondo a vida dupla que levava com benefícios cruzados entre o mandato privado
no clube e a gestão pública na Câmara dos Vereadores. Reportagem da qual fiz
parte, em parceria com Lúcio de Castro, e pode ser acessada aqui e por este vídeo.
A
derrota de Patrícia e a vitória de um grupo de desconhecidos que prometiam
austeridade e equilíbrio financeiro abriu um vasto e inexplorado território
para jornalistas que ali trabalhavam. As intenções e planos dos
“azuis”, como eram chamados, eram bonitos, no papel. Mas ninguém
sabia se daria certo. Teriam apoio dentro do clube? Teriam apoio dos
torcedores? Havia quem duvidasse. O clube de maior torcida do país, seus mais
de 40 milhões de rubro-negros, do Oiapoque ao Chuí, foram comprando o discurso
da nova gestão graças à imprensa.
Ou
alguém acha que as redes sociais do clube conseguiriam vender a ideia, acertada
por sinal, de que para se conquistar títulos seriam preciso 3, 4 anos de seca?
Comunicar muito bem o que desejavam foi mérito do clube. Comandar o clube no
caminho da responsabilidade econômica foi iniciativa de quem lá está. Mas tais
decisões contaram com imensa participação e atuação da imprensa. O clube ganhou
prêmio de transparência e a imprensa ajudou o Flamengo (e o futebol) a vender a
ideia de que um clube não pode olhar apenas para o próximo jogo, tem de olhar,
também para os próximos anos.
Assim
se deu o vitorioso (ainda faltam títulos) projeto da gestão de Eduardo Bandeira
de Mello. Externamente, venceu a desconfiança, pareceu vanguarda. Internamente,
conseguiu vencer grupos de oposição, teve habilidade e apoio para aprovar tudo
o que queria no Conselho Deliberativo. Conseguiu silenciar a oposição e é aí
que começa a escorregar. Se acostumou a trabalhar sem críticas. 
Mas
elas começaram a surgir e é saudável, até mesmo para sua gestão, que aprenda a
ouvi-las. É necessário que saiba, também, ignorar as críticas que não ache
construtivas. Porque não é a diretoria de um clube que tem o poder de dizer
quais e como podem ser feitas. A capa do jornal Extra sobre o Muralha pode ser
incluída no rol das que não é preciso ouvir. Concordo que foi desnecessária.
Mas elas também fazem parte da democracia. Se não gostou, recorra-se a todo o
arcabouço jurídico que se tem a disposição.
Jornalistas,
quando extrapolam o direito de opinar, criticar, noticiar, são levados a se
explicar na esfera judicial. Falo com conhecimento de causa.
Um
diretor, por mais bombado que seja na internet, não pode atuar como se tivesse
o cajado nas mãos. Não pode se achar no direito de silenciar quem quer que
seja. Mesmo que o silenciado “mereça”, “tenha pedido” e
outras mensagens de apoio que as redes sociais tanto propalaram desde semana
passada. Um clube não é uma empresa privada. Não falo da natureza jurídica, mas
da essência do que é. Um time de futebol pertence à sociedade. No caso do
Flamengo, uma sociedade de mais de 40 milhões de pessoas. Uma nação maior que a
população da Argentina. E nem estou falando de todas as benesses públicas com
as quais são agraciados anos após anos que por si só poderiam ser considerados
patrimônio público.
Concordo
com Rueda quando ele diz que o nível de imprensa está ruim. São diversas as
causas e consequências também. Precisamos melhorar o debate, enxergar para além
das linhas de quatro, para além do lado (direita ou esquerda) para qual pulou
Muralha. Precisamos construir algo melhor. Precisamos debater o bom debate. E
não é calando os que se considera ruins que se melhora a conversa. 
Censurar
o direito jornalístico não é causa contra a qual somente jornalistas devem
lutar. Não é uma defesa de classe. Deveria interessar a contadores, advogados,
administradores, servidores públicos, professores e jogadores de futebol.
Tolher a liberdade de imprensa é apequenar a todos. O retrocesso da liberdade
de imprensa no Flamengo é andar pra trás no futebol como um todo.
Alterando
ligeiramente o que disse o poeta “prefio o barulho da imprensa ruim do que
o ‘cala boca’ que o Flamengo fez”.

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