O risco da lacração fora do ambiente virtual

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Antonio Tabet no Flamengo – Foto: Gilvan de Souza

MÁQUINA
DO ESPORTE
: Por Erich Beting

Começou com um #prontofalei.


cerca de sete anos, essa era a expressão um pouco mais ousada das pessoas em
redes sociais. Queria dizer, mais ou menos, que a pessoa estava ali dando a sua
opinião “#semfiltro”, com a coragem de expressar o que realmente
pensava sobre um assunto.
Até
então, o Twitter era considerado um “microblog”, e o Facebook dava os
primeiros sinais de que seria uma fonte de informação das pessoas mais
eficiente que a seção dos “favoritos” da internet. Era o início da
revolução provocada pelos smartphones.
O que
esse movimento provocou no mundo real é um aumento à intolerância àquilo que
lhe é diferente. Se, nas redes sociais, eu procuro só o que eu gosto, porque eu
haveria de aceitar algo que é diferente no mundo real?
O que
as redes sociais oferecem de mais legal é também o que elas têm de mais
arriscado. Elas começam a agrupar pessoas com pensamentos semelhantes. Só que
elas começam a agir de forma a excluir quem não pensa igual.
Com o
consumo da informação filtrado por algorítimos, o que acontece é que a pessoa
começa a pensar que só existe aquilo que ela realmente pensa. E que o mundo é
monocromático.
Daí
deriva a #lacração, que é uma forma mais radical do #prontofalei. Não é só dar
a opinião, mas impô-la como verdade inquestionável.
É isso
o que fez o jornal “Extra” ao expor ao ridículo o goleiro Muralha, do
Flamengo. Foi assim que o clube reagiu ao impedir o jornalista do jornal de
fazer perguntas em entrevista.
Um
quis “lacrar” o outro. Como se fosse o mundo virtual. O resultado foi
desastroso para os dois. Agora, sofrem Espanha e Barcelona pela necessidade de
se impor uma só forma de pensar.
Como o
esporte trabalha sempre com o componente da emoção, a tendência é que, em
momentos decisivos, a pressão se transforme num momento de extrema necessidade
de não ter opinião divergente. E, aí, o maior problema é radicalizar a atitude.

cerca de 30 anos, foi isso que transformou radicalmente o ambiente dos
torcedores num estádio de futebol. As torcidas organizadas passaram a ser focos
de intolerância ao diferente. O estádio, que antes era um local de reunião das
pessoas para torcer, passou a ser um ambiente em que um lado precisava ser
separado do outro.
Quanto
mais o esporte se desenvolveu como negócio, mais pressionado todos ficaram por
trazer resultados. Torcer ficou mais caro, trabalhar ficou mais difícil, e o
que começamos a ver foi um movimento de separação. Em vez de unir, o esporte
passou a segregar.
Agora,
com a polarização de pensamento provocada pela intolerância ao diferente nas
redes sociais, começamos a levar para as coisas mais banais da vida o mesmo
sentimento intolerante.
É hora
de substituir o pensamento de #lacrei ou #prontofalei pelo de #paz e
#tolerância.
É a
resposta que o mundo real pode dar para o virtual. E o esporte, nisso, pode ser
um fio condutor para mostrar a necessidade de mudar de atitude. Resta saber se
estamos preparados para aceitar isso.

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