Roger Guerreiro, ex-Flamengo, vira motorista de Uber

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Foto: Divulgação

UOL: Um
fã de futebol que precisar de um Uber em São Paulo pode, com sorte, ser
atendido por um motorista que jogou e chegou a fazer na Eurocopa, um dos
torneios mais importantes do mundo. Ex-jogador de Corinthians e Flamengo na
década passada, Roger “Guerreiro” se desiludiu com os diversos
calotes da bola que levou ao longo da carreira e agora se aventura como
motorista do aplicativo na capital paulista.

Revelado
naquele famoso São Caetano vice-campeão da Copa João Havelange de 2000, o
lateral, hoje com 35 anos, teve destaque no título carioca de 2004 pelo
Rubro-Negro. Seu auge, no entanto, foi na Polônia. Ídolo com mais de cem jogos
pelo Legia Varsóvia, um dos mais populares times do país europeu, ele foi
convidado pelo presidente do país – em uma cerimônia no palácio, com toda a
pompa – para se naturalizar polonês. Roger aceitou, foi convocado para a
Eurocopa e marcou logo na estreia, no empate por 1 a 1 contra a Áustria. Foi o
primeiro gol polonês na história da competição.
“Foi
marcante jogar uma Eurocopa pela Polônia, que na época não era o que é hoje em
dia. O futebol polonês está muito mais conhecido que naquela época. Foi a
primeira Eurocopa da história da Polônia. Foi o único gol daquela edição e tive
a felicidade de fazer”, relembrou ao UOL Esporte.
O
sonho europeu aos poucos ficaria para trás. Em 2013, Roger voltou ao Brasil e
se deparou com a dura realidade do futebol brasileiro. Desde então, rodou por
clubes de menor expressão como Guaratinguetá, Comercial, Rio Branco, Vila Nova
e Hercílio Luz. No primeiro semestre deste ano, disputou o Campeonato Goiano
pelo Rio Verde e, até o momento, parece ter desistido de dar “murro em
ponta de faca”.
“Estou
sem clube. Tive até alguns contatos de times das Séries C e D, mas estou meio
desanimado com o futebol brasileiro. Estou com quatro ou cinco ações
trabalhistas contra clubes. Depois da Europa passei por clubes de menor
expressão e é muito difícil. Eles pagam só o primeiro mês, depois não pagam
mais. Tem clube de 2014 que ainda não recebi, então você vai desanimando.
Depois do Rio Verde dei uma parada e aqui não tenho interesse. Só se aparecer
algo com uma estrutura legal”, declarou.
O
Uber, então, acabou sendo uma solução enquanto trava suas batalhas judiciais.
Roger, no entanto, tem projetos para trabalhar com esporte.
“Estou
com dois filhos pequenos. No fim do mês você tem que pagar as contas. Na minha
carreira dei azar. Desses clubes aí, a grande maioria eu não recebi em dia.
Costumo dizer que no futebol você vive dentro de uma bolha. Se dedica
totalmente e depois que você para, olha para os lados e pergunta: ‘cadê os
amigos? O que vou fazer da minha vida?’. Mas com toda a experiência que adquiri
ao longo destes 17 anos, pretendo estar no meio. Irei ingressar numa faculdade
de Educação Física e tenho um projeto de treinar com crianças, de
condicionamento de adultos e crianças”, disse.
Passageiro rubro-negro se surpreendeu
Torcedor
fanático do Flamengo, o arquiteto de softwares Ivan Medeiros, carioca de 35
anos, levou um susto ao entrar no Uber. Ele estava a caminho do trabalho quando
encontrou, no carro, um motorista para quem ele chegou a torcer na arquibancada
há pouco mais de uma década.
Após
um breve bate-papo, lembrou do lateral esquerdo que, na Gávea, se notabilizou
por ser um carrasco do rival Fluminense. Foi de Roger o gol do título da Taça
Guanabara de 2004 e outros dois em uma vitória de virada, por 4 a 3.
“Eu
entrei no carro e estava trocando ideia normal: ‘Oi! Tudo bem? Boa tarde e
tal…’ E aí durante o trajeto conversávamos sobre a relação táxi e Uber e ele
falou que vinha da área esportiva, que tinha sido jogador e aí fui reparando.
Quando ele falou que o nome dele era Roger, que jogou no Flamengo, lembrou do
Fla-Flu, eu falei “Pô, é o Roger Guerreiro!”. E aí teve aquela coisa
de fã, de falar de futebol e ele explicou sobre a carreira. No fim bati a foto
e foi bacana para caramba”, disse Ivan sobre a foto que ilustra a
reportagem.
O
período marcante no Flamengo rendeu até mesmo uma comparação de Roger com a
realidade rubro-negra de agora. Naquela época, o clube carioca costumeiramente
atrasava salários, algo bem diferente dos tempos atuais, onde atravessa um
período de estabilidade financeira.
“Muita
gente fala sobre isso, que eu deveria jogar no Flamengo agora, que paga em dia.
Eu também queria (risos). Cheguei a ficar quatro, cinco meses sem salários.
Fico feliz que as coisas estejam melhores por lá. Só de não passarem o que passei…”,
disse Roger, que entrou na Justiça contra o Flamengo, mas já recebeu sua parte.
Sonho de voltar para a Polônia
Roger
atuou de 2006 a 2009 no Legia Varsóvia, sendo que de 2008 a 2011 defendeu a
seleção polonesa. O lateral esquerdo admite saudade do país onde se naturalizou
e tem vontade de voltar com a família.
“Eu
até gostaria de ter uma relação maior com o país. Hoje estou com dois filhos
pequenos. Ano passado até fui para lá, fui muito bem recebido, o estádio soube
que eu estava lá e fizeram uma festa bacana. Tenho um carinho por todos os
poloneses, principalmente os torcedores do Legia. No começo teve aquela
polêmica normal de uma naturalização. Lembro que faziam enquetes na TV se
deveriam dar ou não o passaporte. Muitos achavam que eu ia jogar a Eurocopa e
ia utilizar isso como um trampolim, mas fiz uma carreira bacana dentro da
seleção. Foram 25 jogos e quatro gols. Tenho muita vontade de voltar ao país e
levar minha família”, destacou.

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