O dinheiro sumiu: por que a maioria dos grandes brasileiros sofre para contratar.

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Miguel Borja, Lucas Pratto, Thiago Neves, Éverton Ribeiro, Jadson… Em 2017, os clubes brasileiros movimentaram o mercado da bola com a contratação de grandes nomes. Com eles, também vieram investimentos consideráveis, fosse nas próprias transferências ou nos pagamentos de salários.
Um ano depois, porém, a realidade é outra. São exceções as equipes em condições de comprometer grandes valores em reforços, com a maioria atenta a boas oportunidades, em empréstimos ou atletas em fim de contrato. Quanto menos gastos, melhor… Mas por que tamanho contraste?
“2016 foi um ano atípico. Teve quase R$ 1 bilhão ingressados nas contas dos clubes de luvas, de 2019 a 2024. Quer dizer, estamos falando de luvas que não deveriam ter sido consumidas. Então, clubes estão sendo campeões e já torraram todas essas luvas em 2017”, explica o especialista em marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, ao ESPN.com.br.
Em um cenário de recessão econômica no Brasil, o futebol, de fato, foi exceção em 2016. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu 3,6%, os principais clubes faturaram como nunca, fruto, principalmente, de uma cifra bilionária despejada pela televisão por direitos de transmissão.
Em 2016, os 20 clubes com maiores receitas do futebol nacional faturaram R$ 5,40 bilhões, crescimento de 30,2% em relação R$ 4,16 bilhões de 2015 e recorde anterior. Também pela primeira vez na história, mais da metade desse valor saiu da televisão, 51%, totalizando R$ 2,4 bilhões.
O aumento significativo nas verbas de televisão passa pela renovação de contratos com a Globo para o período de 2019 a 2024 e assinatura de algumas equipes com o Esporte Interativo. Nos balanços, muitas equipes registraram entre as receitas o pagamento de luvas, o que inflou os valores.
Todos os 12 maiores clubes do futebol brasileiro entraram em 2017 com receitas referentes a televisão do ano anterior superando a marca de R$ 100 milhões. Na comparação com 2015, houve caso de times aumentando as entradas dessa fonte em 163%, como foi o caso do Fluminense.
“A realidade é uma só: os clubes brasileiros inflaram seus balanços em 2016, torraram o dinheiro que tinham e não tinham e agora estão hipotecando seu futuro, porque não tem luvas. 2017 vai ser o ano da verdade, os clubes devem fechar com pesados prejuízos e estão no ‘bom e barato’. 2018 vai ser realmente um ano bem difícil para eles”, avalia Somoggi.
Líder em arrecadação em 2016, com R$ 510,1 milhões, o Flamengo, por exemplo, registrou R$ 297,2 milhões em receitas de TV. Desse valor, R$ 70 milhões foram luvas já recebidas dos R$ 100,3 milhões acertados pela assinatura com a Globo – o restante será pago em duas parcelas, em 2019 e 2021.
Assim, 58% das receitas rubro-negras foram provenientes da TV, em um cenário, porém, que não é exclusividade. Entre os 20 clubes de maior faturamento no último ano, 13 tiveram mais ou a metade do dinheiro que entrou em seus caixas vindo dos direitos de transmissão – em 2015, apenas cinco.
A maior “dependência” foi do Vitória, que faturou R$ 112 milhões, 16ª maior receita do Brasil, sendo R$ 90,4 milhões, ou 81%, vindo da televisão. Em seguida, aparece o Vasco, com 77% (R$ 165,2 milhões de R$ 213,3 milhões); e o Bahia, 75% (R$ 90,8 milhões de R$ 120,7 milhões).
No geral, os direitos de TV responderam por 51% do faturamento dos clubes brasileiros; a venda de jogadores, 14%; os patrocínios, 11%; os sócios, também, 11%; as verbas de bilheteria, 7%; e outras fontes, 6%. Em 2015, a divisão foi, respectivamente, 38%, 17%, 14%, 14%, 10% e 7%.
A questão é que são justamente as fontes de receita que tiveram menor participação nos resultados de 2016 que costumam ser constantes, portanto, as que os clubes contarão com valores aproximados também em 2017 – e refletem agora nos gastos possíveis para 2018.
“O ano de 2016 inflou tanto os números que nós não sabemos até o momento a real situação financeira dos nossos clubes”, resume Somoggi, que cita o caso do Corinthians, campeão paulista e brasileiro em 2017, um ano após receber R$ 230,2 milhões de verbas de televisão; e também o Grêmio, que levou a Libertadores depois de R$ 202,4 milhões recebidos de TV.
“Não há nenhum controle financeiro sobre os clubes campeões. O clube pode gastar o que tem e o que não tem, ser campeão e de repente aumentar arrecadação graças à premiação e vender a imagem de boa gestão, sendo que sabemos que não é assim que funciona”, afirmou.
Até o momento, no mercado brasileiro, o Palmeiras foi o único que gastou dinheiro para se reforçar, pagando quase R$ 6 milhões ao Cruzeiro pelo lateral Diogo Barbosa e mais R$ 2 milhões para que o Atlético-PR liberasse o goleiro Weverton antes do final de seu contrato, em maio de 2018.
Outra exceção é o negócio que manteve Jucilei no São Paulo, o clube paulista, porém, investiu exatamente a cifra que recebeu por vencer Arthur ao Columbus Crew-EUA. As demais contratações dos principais clubes do país foram todas por empréstimo ou de jogadores em fim de contrato.
Fonte: Thiago Cara / ESPN

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